Há quem diga que o voto é uma arma poderosa. Outros afirmam que é apenas um pedaço de papel com pretensões. A verdade, claro, situa-se algures entre a filosofia política e a comédia humana - um território que Tocqueville observou com elegância, que John Stuart Mill tentou corrigir com educação, que Ortega y Gasset descreveu com desespero e que Hannah Arendt contemplou como quem olha para um incêndio inevitável mas fascinante.
A democracia tem esta peculiaridade: leva muito a sério pessoas que raramente levam a sério o próprio pensamento. É a sua glória… e o seu drama. Um voto é um milagre de igualdade: o professor universitário, o agricultor, o milionário, o jovem inquieto e o idoso desconfiado - todos entram na mesma cabine e valem exatamente o mesmo. Um por um. Milagre. Ou ironia cósmica, dependendo do humor.
E é aqui que entra a tensão eterna entre a razão e a ilusão. A razão pede-nos prudência, memória, análise, responsabilidade. A ilusão oferece-nos atalho: slogans fáceis, promessas impossíveis, inimigos prontos a usar, culpados de bolso. A razão exige esforço. A ilusão oferece conforto. E nós, criaturas humanas que somos, gostamos muito de conforto.
Tocqueville já avisava: quando a igualdade política se cruza com a insegurança moral, surgem líderes que prometem “proteger o povo de si mesmo”. Mill acrescentava que só a educação poderia salvar-nos. Ortega y Gasset, mais pessimista, via a ascensão do “homem-massa”, sempre convencido, raramente informado. Arendt lembrava que, quando a realidade se torna demasiado desconfortável, as sociedades preferem a ficção - especialmente se vier embrulhada num discurso firme.
Mas, ironia das ironias, a democracia só funciona quando recusamos a ilusão, mesmo que ela seja mais sedutora do que a verdade. E é por isso que o voto é, ao mesmo tempo, ingénuo e heroico.
Cada eleitor, no momento em que risca a cruz no boletim, está a dialogar com o país inteiro, com o futuro e consigo mesmo - mesmo que não dê por isso. Está a dizer: "sim, acredito que a minha escolha importa" ou "não sei bem, mas participo na mesma". E essa participação, por mais imperfeita, é a única coisa que impede a democracia de se transformar numa peça de teatro escrita por poucos e representada por todos.
No fim, a força do voto não está no mito da sabedoria universal nem no medo da estupidez coletiva. Está na capacidade - rara, preciosa e frágil - de milhões de decisões imperfeitas produzirem, ainda assim, uma ordem melhor do que qualquer tirano iluminado poderia prometer.
Entre a razão e a ilusão, votamos. E, no meio do caos, a democracia tem que persistir - talvez não porque somos brilhantes, mas porque, apesar de tudo, ainda não desistimos uns dos outros.
João Gomes in Facebook