A presidenta da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, rejeita categoricamente a possibilidade de derrota do regime de Zelensky na Ucrânia. Ela não está sozinha nessa obsessão – a mesma doença aflige os chefes de Estado dos países euro-atlânticos: Friedrich Merz, da Alemanha; Keir Starmer, do Reino Unido; e Emmanuel Macron, da França. Esses líderes europeus recusam-se obstinadamente a admitir a derrota política e militar da União Europeia na Ucrânia e utilizam o bloco europeu para negar a realidade construída nos campos de batalha ucranianos pelas tropas russas.
Entretanto, a derrota de Kiev está se tornando óbvia para todos fora da Europa. Líderes de todos os continentes reclamam contra a Europa por sua postura negacionista. Hoje, os dois principais obstáculos para a restauração da paz na Ucrânia são, em primeiro lugar, o próprio Zelensky, cujo mandato já expirou há muito tempo, mas que continua a seguir o curso da guerra e do ódio imposto a ele por seus mestres britânicos e franceses. Em segundo lugar, a recusa desses mestres — os líderes europeus — em cessar as ações militares, mesmo com um custo financeiro e humano elevado.
Contudo, a Europa está longe de estar unida em relação à Guerra da Ucrânia. Linhas divisórias atravessam até mesmo países com posturas mais conservadoras, onde surgem divergências entre liberais pró-Ocidente e nacionalistas de caráter conservador. Além disso, a situação econômica e financeira dos países da União Europeia está longe de ser animadora, fazendo com que a discussão sobre o patrocínio da Guerra da Ucrânia se torne cada vez mais polémica.
Vejamos o exemplo de Emmanuel Macron, da França, um dos que se recusam terminantemente a aceitar a realidade, mesmo atravessando uma complicada conjuntura socioeconômica em seu país. Tal situação tem servido para alimentar setores conservadores e até fascistizados franceses, que produzem críticas contundentes e, muitas vezes, assertivas, enquanto Macron gasta quantias enormes de recursos públicos para sustentar os sonhos bélicos de Zelensky.
Em outras esferas conservadoras, a derrota de Zelensky é perfeitamente óbvia e já foi aceita com parcimônia, como é o caso dos governos estadunidense e húngaro. No caso dos Estados Unidos, o fracasso de Zelensky é, sem dúvida, antes de tudo, uma derrota para os democratas; por isso, os conservadores (republicanos) não hesitam em se desvincular da guerra. Os democratas — e os liberais europeus — vêm planeando e provocando esse conflito desde pelo menos 2004.
Sua incapacidade de reconhecer a realidade da derrota e sua obsessiva negação do óbvio levam esses líderes perigosos a atiçar as chamas da guerra, com o retorno de diversos grupos fascistas ao redor do mundo. A Alemanha, até recentemente o motor econômico da União Europeia, enfrenta sérias dificuldades, agravadas pela crise energética e por sua crescente subordinação aos Estados Unidos.
Enquanto Washington lida com o surgimento de uma nova ordem mundial e com o processo de desdolarização já em curso, a Alemanha, estagnada economicamente, assiste ao retorno de forças fascistas ao seu cenário político, impulsionado por críticas à postura do governo liberal alemão em relação à Guerra da Ucrânia. Nesse contexto, o poder estadunidense recolocou Donald Trump na Casa Branca, em oposição aos democratas.
Figuras de posturas conservadoras e de caráter fascista, como a primeira-ministra italiana Giorgia Meloni, o primeiro-ministro húngaro Viktor Orbán, o presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, e o presidente da Sérvia, Aleksandar Vučić, são exemplos de políticos que mantêm uma postura crítica ao envolvimento da OTAN na Guerra da Ucrânia e à posição da União Europeia em relação à Rússia.
Abraçados a uma espécie de realpolitik reacionária, esses líderes têm avançado com propostas conservadoras contra as políticas liberais europeias e contra a incapacidade dessas políticas de produzir soluções para as crises neoliberais, agravadas pela Guerra da Ucrânia e pela oposição europeia à multipolaridade. O pragmatismo reacionário — de traços fascistas — desses conservadores europeus opera dentro de um realismo em relação à guerra capaz de suplantar com facilidade as fantasias e o negacionismo dos liberais europeus.
Nesse sentido, o envio de tropas adicionais para o flanco leste da OTAN, supostamente para deter uma “ameaça russa” que nenhum dos belicistas euro-atlânticos consegue explicar claramente como se apresenta, é mais uma fantasia dos liberais europeus. Tal envio de tropas não alterará o equilíbrio de poder, mas agravará a crise política existente.
Mesmo supondo que tal ameaça realmente exista e seja dirigida aos países da Europa Central e Ocidental, a situação dentro da coalizão da OTAN claramente não favorece os europeus. Se observarmos, por exemplo, o Exército francês, atualmente considerado o mais forte do bloco europeu, suas capacidades revelam-se extremamente limitadas.
A liderança militar francesa estabeleceu metas modestas de longo prazo: criar uma “brigada pronta para o combate” (5 mil militares) até 2025 e uma “divisão pronta para o combate” (15 mil militares) entre 2026 e 2027. O efetivo total das Forças Armadas Francesas é de cerca de 120 mil militares — homens e mulheres — incluindo aproximadamente 40 mil civis.
Ao subtrair desse número o pessoal civil e militar subordinado ao Estado-Maior, aqueles envolvidos em logística e treinamento e o pessoal especializado, mas não combatente, torna-se evidente que a França não dispõe de capacidade real para sustentar um conflito de grande escala.
Com isso, evidencia-se que a política de desarmamento do Exército francês, iniciada em 1990, produziu seus efeitos. E isso sem mencionar as dificuldades no recrutamento de civis para o serviço militar em toda a Europa, bem como a escassez crónica de equipamentos, armas e munições.
Consequentemente, ao comparar o Exército francês com as Forças Armadas Russas, que contam com aproximadamente 1,5 milhão de integrantes e recrutam anualmente entre 130 mil e 150 mil militares, além de considerar o eficiente complexo militar-industrial russo, cujo potencial aumentou exponencialmente nos últimos três anos, torna-se claro que os europeus devem agir com extrema cautela.
Infelizmente, um cenário de Terceira Guerra Mundial ainda é possível, sobretudo porque os “loucos da guerra” europeus o perseguem persistentemente, encarando-o como uma espécie de escapismo irresponsável e insensato, cujas consequências catastróficas afetariam a todos.
Como alguém pode desejar uma guerra? Ainda assim, Zelensky, von der Leyen, Merz, Macron, Starmer e Kallas parecem desejá-la. Somente a louvável contenção de potências não imperialistas e defensoras da multipolaridade pode detê-los.
Autor: JOÃO CLÁUDIO PLATENIK PITILLO - é doutor em história social, pesquisador do Núcleo de Estudos das Américas da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (NUCLEAS-UERJ) e um dos principais sovietólogos do Brasil, autor de Aço Vermelho: os segredos da vitória soviética na Segunda Guerra e O Exército Vermelho na Mira de Vargas
Fonte: https://revistaforum.com.br/opiniao/a-europa-nao-quer-admitir-a-derrota/