As derrotas eleitorais podem cumprir duas funções distintas na vida dos partidos políticos: servir de ponto de inflexão para a aprendizagem colectiva ou, pelo contrário, desencadear processos de fechamento, ressentimento e captura interna. Quando a segunda via prevalece, a organização deixa de se comportar como instituição democrática e passa a funcionar como instrumento de preservação de influências individuais.
No caso em apreço, duas derrotas eleitorais consecutivas não deram origem a um ciclo de reflexão séria nem a uma renovação efectiva. Pelo contrário, favoreceram um processo silencioso de apropriação do aparelho partidário, no qual o princípio da alternância interna foi progressivamente esvaziado. A liderança formal passou a coexistir com centros informais de decisão, comprometendo a autonomia política e a clareza institucional.
Em vez de uma transição transparente, optou-se por uma solução de continuidade disfarçada. A sucessão não se fez pela substituição efectiva de projectos, mas pela delegação de funções, mantendo intacto o núcleo real do poder. O resultado foi a substituição da renovação política por uma mera alteração de rostos.
Este modelo teve efeitos previsíveis: o afastamento gradual de dirigentes com pensamento próprio, trajectória consolidada ou potencial de liderança alternativa. A pluralidade interna foi sendo substituída por uma lógica de fidelização pessoal, empobrecendo o debate e reduzindo a capacidade crítica da organização. A divergência deixou de ser entendida como elemento constitutivo da democracia interna e passou a ser tratada como obstáculo.
Neste contexto, o partido perdeu densidade política e capacidade de se afirmar como oposição estruturada. Um partido sem quadros fortes, sem debate interno e sem autonomia estratégica dificilmente desempenha o seu papel numa democracia pluralista.
É neste quadro que surge o discurso recorrente da “renovação”, apresentado como ruptura com um passado genericamente classificado como ultrapassado. No entanto, essa narrativa não resiste a uma análise rigorosa. As figuras que hoje reivindicam essa ruptura participaram activamente nesse passado e beneficiaram dele. Não se trata, por isso, de uma superação crítica, mas de um reposicionamento discursivo.
A ausência de autocrítica é evidente. O passado é descartado quando deixa de ser politicamente útil, enquanto o futuro é invocado como promessa abstracta, sem correspondência em práticas concretas. A mudança reduz-se à linguagem; a estrutura mantém-se inalterada.
Este tipo de retórica não é novo. A história política recente mostra que discursos de ruptura geracional, quando desligados de projecto e de reflexão estratégica, tendem a produzir fragmentação e a enfraquecer o campo político onde emergem. Quando falta visão, sobra desqualificação simbólica.
O problema central não é a renovação em si — que é necessária e saudável —, mas a sua simulação. Renovar não é apagar a memória, nem substituir o debate pela lealdade. Renovar é integrar crítica, assumir responsabilidades e construir alternativas credíveis.
Quando os partidos deixam de funcionar como espaços de formação política e passam a operar sobretudo como mecanismos de gestão de fidelidades, a oposição empobrece e a democracia perde densidade. Num sistema político saudável, a alternância não se faz apenas no governo; começa dentro dos próprios partidos.
Assim sendo, importa sublinhar que esta leitura se apoia em categorias sociológicas consolidadas — e não numa opinião pessoal do seu subscritor —, pelo que qualquer eventual semelhança com “situações concretas” resulta de mera coincidência empírica. Ainda assim, para quem continua a atribuir valor explicativo à ciência política, permanece uma evidência transversal ao tempo e aos contextos: na política, ontem como hoje, os erros de cálculo raramente são neutros. Têm custos. Por vezes, custos fatais. E quase nunca são perdoados.
Autor: Coronel Adriano Pires in Facebook