Durante décadas, ouvimos repetidamente que a causa palestina era “a causa central da nação árabe”. Desde a época de Gamal Abdel Nasser até as resoluções formais da Liga Árabe, esse slogan foi elevado a um princípio quase sagrado do discurso político regional.
No entanto, a realidade atual apresenta uma questão incontornável:
Onde está essa centralidade quando a Palestina está em chamas?
A história recente demonstra que, com algumas honrosas exceções, a solidariedade árabe oficial tem sido intermitente, condicional e, muitas vezes, subordinada a interesses geopolíticos externos. A normalização com Israel, os acordos bilaterais isolados e a cooperação em segurança contradizem diretamente o discurso de apoio incondicional.
Não se trata de negar a solidariedade dos povos árabes. Quando as ruas puderam se expressar, demonstraram um compromisso genuíno com a Palestina. O problema reside na desconexão entre o povo e seus líderes.
Muitos regimes na região mantêm sua estabilidade por meio de alianças estratégicas com potências ocidentais. Nesse contexto, a causa palestina deixou de ser uma prioridade política genuína e tornou-se uma ferramenta retórica útil para consumo interno.
Mas a crise não é apenas externa.
Desde os Acordos de Oslo, o modelo político liderado por Mahmoud Abbas aprofundou uma estrutura financeiramente dependente de doadores internacionais e presa a uma coordenação de segurança que não produziu nem soberania nem liberdade. Sem eleições presidenciais desde 2005 e sem renovação geracional, a legitimidade interna foi severamente corroída.
A Palestina não pode sustentar seu destino por meio de retórica externa ou lideranças exauridas.
A liberdade não pode ser delegada.
A dignidade não pode ser terceirizada.
A soberania não pode ser implorada.
Se a causa palestina realmente faz parte da causa árabe, ela deve se traduzir em decisões concretas: pressão diplomática real, desmantelamento dos acordos que legitimam a ocupação, apoio econômico independente e apoio inequívoco ao direito do povo palestino de determinar seu próprio futuro.
E se a liderança palestina não incorporar essa vontade de renovação e determinação, serão os próprios povos — em Gaza, na Cisjordânia, na diáspora e os palestinos de 1948 — que, em última análise, traçarão o rumo de uma nova era histórica.
A história não se escreve com slogans.
Ela se escreve com coerência.
União Palestina da América Latina – UPAL
15 de janeiro de 2026