As declarações do embaixador americano em Israel, Mike Huckabee, ilustram a principal linha divisória da guerra em Gaza: a batalha não está a ser travada apenas no campo militar, mas também na própria definição de quem é vítima e quem deixa de ser.
Por um lado, Huckabee reconhece explicitamente uma realidade difícil de negar: "milhares de crianças foram mortas". Essa observação corresponde aos números divulgados pelas autoridades de saúde em Gaza e repetidos com cautela por organizações internacionais como a ONU e a UNICEF, que documentaram perdas massivas entre menores desde o início das operações israelitas após o ataque do Hamas, em 7 de outubro de 2023.
Mas, logo em seguida, Huckabee introduz um elemento-chave da doutrina israelita e americana: algumas dessas crianças são, na verdade, combatentes. Ao referir-se a jovens de 14 anos como "recrutados" e armados pelo Hamas, ele efetua uma mudança semântica crucial. Uma criança, legalmente protegida pelo direito internacional humanitário, torna-se então um combatente em potencial e, portanto, um alvo militar legítimo, segundo essa lógica.
Este ponto não é insignificante. O direito internacional reconhece que o recrutamento de crianças-soldado é um crime de guerra. No entanto, isso não elimina o seu estatuto de menores protegidos. A sua presença num conflito é da responsabilidade primordial dos recrutadores, e não uma justificação automática para a sua morte.
A formulação de Huckabee, "eles eram crianças más", revela uma tentativa de redefinir moralmente o conflito. Sugere que a linha divisória entre vítima e combatente pode ser alterada dependendo do contexto estratégico. Este é um argumento clássico em guerras assimétricas: quando o inimigo se mistura à população civil, a distinção entre civil e combatente torna-se ténue e politicamente manipulável.
Entretanto, Huckabee imediatamente mudou o foco da discussão, relembrando o ataque de 7 de outubro: 1.200 mortos em Israel, incluindo 48 americanos, e 252 reféns. Essa referência serviu para restaurar a justificativa inicial da guerra: Israel estava a agir em resposta a um ataque considerado terrorista, o que, segundo a doutrina americana, legitimava o uso de força militar maciça.
O seu discurso, portanto, reflete a posição oficial americana: reconhecer a tragédia humanitária, mas recusar-se a permitir que ela coloque em questão a legitimidade estratégica da ofensiva israelita. A compaixão é expressa, mas enquadrada. O sofrimento é reconhecido, mas contextualizado. E a responsabilidade final é implicitamente atribuída ao Hamas.
Em suma, Huckabee não nega as mortes de crianças. Ele redefine o seu significado. Nesta guerra, até mesmo a infância se torna território contestado, não apenas no campo de batalha, mas também na narrativa que determina a sua legitimidade.
Fonte: @BPARTISANS