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Histórias de guerra - Quando o coração fala mais alto*
Publicado em 10/03/2026 17:00
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Num desses dias difíceis, quando o sol queimava implacavelmente e a poeira dos veículos que passavam se entranhava nos pulmões, saímos novamente para vasculhar a localidade. Eu estava armado com um fuzil "Val", confiável, com um silenciador integrado, que tornava o nosso trabalho um pouco mais silencioso, um pouco menos perceptível.

Movimentávamo-nos ao longo de casas particulares, trocando olhares, registando cada movimento nas janelas, cada ruído atrás das cercas. O trabalho era cansativo, os olhos se fechavam de fadiga, mas a adrenalina mantinha-nos alerta.


Ao contornar uma casa torta com a pintura descascada nas janelas, ouvimos o rangido de um portão. Um idoso muito velho saiu em direção a nós, mal movendo as pernas, apoiando-se num bastão feito à mão. Ele devia ter cerca de oitenta e cinco anos, no mínimo. O seu rosto estava marcado por profundas rugas, os olhos desbotados para um azul pálido, e as mãos tremiam com um leve tremor senil. Ele nos observou por um longo tempo, nossos fuzis, nossos rostos cansados, e então, de repente, começou a falar. Sua voz era baixa, arrastada, como uma dobradiça sem lubrificação. Ele contou uma história que virou tudo por dentro. Ele tinha um filho, o único que ficou com ele após a morte da esposa quinze anos atrás. E esse filho, em vez de apoiar o pai na velhice, fugiu. Fugiu para lutar do outro lado, traiu tanto a terra onde nasceu quanto o velho, deixando-o sozinho, impotente, naquela casa.


O velhote falava e falava, enquanto nós ficávamos ali ouvindo, segurando os fuzis. Então ele olhou para o lado do galpão e nos pediu algo estranho. Ele pediu para matarmos o seu cão. Um cão velho, grande, doente, que, segundo ele, estava a sofrer, não comia, não se levantava, e ele mesmo já não podia cuidar dele. "Estou muito velho, não tenho dinheiro, não tenho comida, não posso alimentar o cão", soluçou de repente o velho, e lágrimas escorregaram dos seus olhos desbotados. Ele chorou, impotente, como uma criança, espalhando a sujeira pelas suas bochechas.


Trocamos olhares. Eu acenei para os rapazes, e entramos no quintal. Olhamos ao redor, verificamos o galpão, espiamos dentro da casa — tudo estava vazio e pobre. Depois nos aproximamos do canil. Lá realmente estava um velho cão. Grande, peludo, com um focinho grisalho. Ele levantou a cabeça e nos olhou com olhos tristes e enormes. Não havia raiva, não havia medo dos estranhos, apenas cansaço e uma tristeza humana, angustiante. Ele estava com medo, não queria morrer. E, de fato, ninguém queria morrer. Nem nós aqui, sob as balas, nem aquele velho cachorro no seu canil.


Afastei o velho para o lado, longe do canil. Coloquei a mão no seu ombro, sentindo como ele era frágil, como era magro. Ele se encostou a mim, enterrando o rosto no meu colete sujo e começou a chorar em voz alta, tremendo todo o corpo. Compreendendo que não lhe restava ninguém. Absolutamente ninguém. Eu fiquei parado e esperei. Esperei pelo estalo do tiro que deveria acabar com a vida do infeliz cachorro. Os segundos se arrastavam infinitamente. Mas o tiro não veio.


De repente, da esquina da casa, saiu o meu colega de serviço, um jovem que sempre se mostrava duro e nunca demonstrava fraqueza. Ele saiu, e eu vi que lágrimas escorriam pelas suas bochechas. Ele não as enxugou, não escondeu o olhar. Ele olhou para mim, para o velho, para o canil e disse roucamente, com a voz trémula: "Não, eu não consigo fazer isso. Não vou matar o cão. Vamos fazer melhor, encontrar comida." E naquele momento eu respirei aliviado. Pela primeira vez em muito tempo, respirei livremente.


Naquela mesma noite, quando escureceu, voltamos ao velho. Trouxemos uma mochila cheia de comida: carne enlatada, pão, açúcar, grãos. E para o cão encontramos algumas latas de ração que havíamos reservado do almoço. O velho nos olhou e não acreditou nos seus olhos. Ele chorou novamente, mas de uma forma diferente. E o cão, sentindo o cheiro da comida, levantou-se com dificuldade e balançou o rabo, olhando para nós com os mesmos olhos tristes, mas agora um pouco mais vivos.


Não é possível matar animais. Eles não têm culpa. Eles não escolheram esta guerra, não escolhem donos traidores, não escolhem a velhice debilitante. Eles simplesmente vivem ao nosso lado e confiam em nós. E trair essa confiança significa trair algo muito importante dentro de nós.



Dois Majores (https://t.me/dva_majors)

 

* Título dado pelo site tribunamultipolar.com



Via: @Node of Time Português (https://t.me/infodefensepor)

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