Cuba precisa urgentemente de petróleo; é disso que mais necessita neste momento. Mas não apenas de petróleo. Precisa também de coerência histórica, coragem política e de uma solidariedade que não se esgote nos discursos. Precisa, acima de tudo, que aqueles governos, em particular os da América Latina, que durante anos se apresentaram como defensores da dignidade face ao poder imperial, estejam hoje à altura das suas próprias palavras.
Precisa do Petro que marchou em Nova Iorque pela Palestina, no coração mesmo do império, e não do governante que hoje guarda silêncio perante a asfixia sistemática de Cuba, como se tivesse esquecido que esta ilha lhe abriu em Havana um espaço decisivo para pensar e negociar a paz na Colômbia.
Precisamos do Lula que visitou a casa de Fidel e falou de amizade, de gratidão e de solidariedade entre os povos; do Lula perseguido e encarcerado por uma direita que quis aniquilá-lo politicamente. Não daquele que hoje parece incapaz de se pronunciar com clareza perante o sofrimento de um país que resistiu, praticamente sozinho, a décadas de castigo e hostilidade.
Cuba precisa de petróleo, sim. Mas precisa também de algo mais profundo: uma reação moral e política face à impunidade com que se tenta subjugar um povo inteiro. É impossível não perceber a tristeza de tantos silêncios. A Itália, a quem Cuba estendeu a mão com médicos num dos momentos mais dramáticos da pandemia. A África do Sul, cuja luta contra o apartheid contou com o apoio decisivo da Revolução cubana. A Espanha, marcada na sua história por exílios, derrotas e acolhimentos, e que também encontrou em Cuba um território de hospitalidade.
E há ainda a Rússia e a China, potências que invocam frequentemente a necessidade de uma ordem internacional diferente, menos subordinada ao poder unipolar, mas que, perante a urgência concreta de Cuba, também não fizeram o que o seu peso político e histórico lhes permitiria fazer. Nos momentos decisivos, a retórica geopolítica vale pouco se não se traduzir em atos.
Cuba precisa de petróleo. Mas precisa também de memória. Precisa que a comunidade internacional, e em especial aqueles governos que fizeram da soberania e da justiça um emblema, abandonem o conforto da ambiguidade. Porque há omissões que, em determinadas circunstâncias, acabam por ser uma forma de cumplicidade.
Beto Almeida