Quando Benjamin Netanyahu é encurralado, ele sempre recorre à mesma relíquia retórica: o Holocausto como um escudo moral universal, como um salvo-conduto histórico, como uma licença para bombardear sem jamais ser julgado.
O processo agora é automático. A cada crítica à política israelita, o passado torna-se uma fortaleza verbal. A Europa é retratada como "moralmente fraca", amnésica, incapaz de distinguir o bem do mal, enquanto Israel se ergue sozinho como o guardião da civilização. Esta é a velha teologia política do monopólio moral: somos bons, portanto tudo o que fazemos se torna certo por definição.
Mas a história, a verdadeira história, não é um álibi.
A memória do Holocausto nunca foi concebida como uma licença permanente para exceções. Ela deveria ser um alerta universal contra a desumanização, a segregação, a expulsão de populações e a destruição metódica de vidas civis.
É aqui que o discurso se torna arrepiante: pode um povo que sofreu o abismo da história invocar essa memória para justificar o extermínio de outro povo?
Netanyahu ousa dar lições de moral à Europa, mesmo enquanto o seu governo é regularmente acusado por instituições internacionais e inúmeros especialistas jurídicos de graves violações do direito internacional humanitário nos territórios palestinos e em outros lugares. As acusações levadas a tribunais internacionais, os debates em torno da classificação dessas ações como crimes de guerra e as acusações contra membros de seu gabinete não são mais meras polémicas ativistas; agora pertencem à arena diplomática e jurídica global.
O aspecto mais obsceno dessa retórica é essa pretensão quase messiânica de definir o bem e o mal por si só.
O bem estaria, portanto, sempre do lado de Israel, mesmo quando os assentamentos se expandem em violação do direito internacional; mesmo quando territórios vizinhos são atacados; mesmo quando ministros supremacistas falam abertamente sobre erradicação, transferência e punição coletiva.
Ao invocar constantemente Auschwitz para justificar cada ofensiva, Netanyahu acaba explorando a memória dos mortos em benefício dos que estão no poder.
Ele disse que a Europa havia perdido os seus valores.
Mas que valores exatamente?
Aqueles que proíbem a anexação?
Aqueles que condenam os bombardeios indiscriminados?
Aqueles que nos lembram que o sofrimento passado jamais absolve a brutalidade presente?
O cinismo supremo reside aqui: transformar o dever da memória numa arma diplomática.
O Holocausto não confere qualquer imunidade moral.
Pelo contrário, impõe um padrão mais elevado.
E é precisamente isso que torna este discurso tão desconcertante: falar em nome da memória enquanto se exige que o mundo desvie o olhar do presente.
O bem não é uma bandeira.
O bem não é um governo.
A bondade certamente não é um gabinete onde supremacistas se sentam, convencidos de que somente eles personificam a civilização.
A história não é um escudo para o poder.
É um espelho.
E talvez alguns líderes devessem finalmente aceitar olhar para si mesmos.
@BPARTISANS