Neste último domingo, 12 de abril, a Hungria foi às urnas para uma eleição parlamentar vista por muitos como a mais decisiva desde a queda do regime comunista no país, em 1989, com uma disputa titânica entre Viktor Orbán (Fidesz), atual premiê e no poder desde 2010; e o desafiante Peter Magyar (Tisza), ex-aliado de Orbán e que deixou o Fidesz em 2024 para assumir a liderança da nova legenda, com um discurso crítico à suposta corrupção do governo Orbán e defensor de uma reaproximação da União Europeia (UE).
Uma eleição que atraiu os olhares de diversos atores globais - sobretudo os de Bruxelas - e que terminou com o fim da “era Orbán”: o Fidesz, partido nacionalista conservador liderado pelo atual premiê, foi derrotado pelo de centro-direita do Tisza, de Peter Magyar, encerrando cerca de 16 anos de Orbán, cujo governo era visto como “controverso” por muitos analistas políticos ocidentais e tido como “autocrático” pela UE por conta de diversas medidas de reforma do Estado húngaro tomadas ao longo desse período, a começar por uma nova Constituição para o país, aprovada em 2011 e que entrou em vigor a partir do ano posterior.
Os resultados deste pleito, evidentemente, trouxeram retóricas emocionadas de todos os lados do espectro político: de um lado, alguns, via de regra mais à direita do espectro político, dizendo que “a Hungria acabou” com a derrota de Orbán; por outro lado, pessoas celebrando a derrota do “ditador Orbán” nas eleições e a derrota da “extrema-direita”, sendo que temos o curioso caso de um “ditador” que perde eleições, reconhece sua derrota e passa o bastão para seu opositor. Não se fazem mais ditadores como antigamente, convenhamos…
A realidade desta votação na Hungria, para variar, costuma ser bem mais cinzenta que os discursos vistos em boa parte da imprensa e das redes sociais - inclusive de ditos “especialistas”. É claro que algumas considerações a serem feitas se baseiam em impressões iniciais, e podem ser - arrisco a dizer que certamente serão - que sejam revistas com os atos de governo de Peter Magyar, que, por sinal, terá maioria qualificada (mais de 2/3 das cadeiras do Parlamento) para conduzir as reformas estruturantes prometidas em campanha. Sem mais delongas, vamos a algumas lições e reflexões acerca deste certame eleitoral no país centro-europeu:
1 - Orbán moveu a “janela de Overton” da política húngara para a direita
Não é preciso elaborar muito para chegar a essa conclusão, até porque os resultados deste último pleito dizem por si só: das 199 cadeiras da Assembleia Nacional da Hungria, todas, sem exceção, foram preenchidas por partidos que estão à direita do espectro político: 136 pelo Tisza (centro-direita), novo partido criado pelo futuro premiê, Peter Magyar; 57 pelo Fidesz (direita), partido de Orbán; e 6 do Mi Hazank (extrema-direita), oriundo de dissidentes do Jobbik, também da extrema-direita. Partidos do centro à esquerda do espectro, que já tinham uma representação diminuta no Parlamento, foram simplesmente varridos do mapa. Considerando o percentual de votos, cerca de 97% deles foram depositados nestes partidos, apontando o respaldo popular dessa hegemonia.
E não se trata de um fato isolado ou mesmo um ponto fora da curva na história recente da política do país: desde 2010, quando Orbán chegou ao poder - naquele ano a eleição ainda se dava em dois turnos, e a Assembleia Nacional era formada por 386 cadeiras -, partidos do centro à esquerda, que já chegaram a revezar com a direita no posto das principais forças políticas, mal chegavam ao terço de representatividade (considerando os votos): em 2010, obtiveram 26,78% dos votos e 19,43% das cadeiras; em 2014, 30,91% dos votos e 21,60% das cadeiras; em 2018, 29,80% dos votos e 19,09% das cadeiras; em 2022, 34,44% dos votos e 28,64% das cadeiras.
Por ironia do destino, Orbán, em sua derrota, conseguiu aquilo que não conseguiu ao longo de quatro pleitos vitoriosos: reduzir sua oposição tradicional, geralmente encabeçada pelo Partido Socialista Húngaro (MSZP), ao traço. A propósito, se o atual premiê conseguiu ser tão longevo, isto se deve, em boa parte, ao desastre promovido pelo último ciclo em que o MSZP, sob os mandatos de Ferenc Gyurcsány e Gordon Bajnai, esteve no poder, entre os anos de 2006 e 2010.
Caberia um artigo à parte para tratar apenas desse ponto, mas, para efeito de curiosidade dos leitores, recomendo que pesquisem um pouco sobre o “Őszöd speech”, um discurso proferido por Gyurcsány no congresso de seu partido em maio de 2006, cujo áudio foi vazado em setembro daquele mesmo ano, desencadeando uma crise política de grandes proporções e protestos massivos nas ruas do país (os maiores desde a Revolução de 1956). No discurso em questão, o então premiê Gyurcsány confessou ter mentido dia e noite para vencer as eleições (sobretudo em relação às finanças públicas), e em diversos trechos usou linguagem obscena para tratar das questões políticas do país.
A despeito da controvérsia e dos protestos, Gyurcsány seguiu no poder, mas o estrago já estava feito: o Fidesz de Viktor Orbán, então na oposição, conseguiu vitórias importantes nas eleições locais de outubro daquele ano, em um claro revés para o MSZP quando comparado com as eleições parlamentares de abril, a popularidade dos socialistas e da esquerda húngara como um todo despencou e, após a grande crise econômica de 2008, que atingiu duramente a economia húngara - quando Gyurcsány deu lugar a Bajnai como premiê, falava-se na necessidade de um pacote de resgate, liderado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), da ordem de US$ 25 bilhões para evitar o colapso. Tal “conjunto da obra” pavimentou a vitória avassaladora do Fidesz, de Orbán, nas eleições parlamentares de 2010.
E o resto virou história, nos fazendo avançar mais rápido no tempo, voltando ao início deste tópico: o que a oposição tradicional, composta por partidos do centro à esquerda do espectro político, não chegou nem perto de conseguir, o Tisza, de Peter Magyar, oriundo das fileiras do Fidesz e com um posicionamento político que em muitos aspectos reproduz os pensamentos que o próprio Orbán tinha quando premiê entre 1998 e 2002, conseguiu. De qualquer forma, está claro o deslocamento da “Janela de Overton” [1] para a direita no pleito deste último domingo.
Tanto que já há quem espere uma parceria complicada entre Peter Magyar e a UE.
2 - (Ainda) é a economia, estúpido!
A icônica frase de James Carville, estrategista da vitoriosa campanha presidencial do democrata Bill Clinton em 1992, e que ressalta a preponderância de questões relacionadas a emprego e renda sobre as ideológicas, segue válida nos dias atuais, ainda que admitamos que estas últimas tenham representado um desafio cada vez maior a esta máxima. E a Hungria, neste último pleito, reafirmou este bordão de Carville.
Antes de falar sobre a situação econômica mais recente da Hungria, é preciso fazer a devida justiça acerca da “era Orbán”: após receber um país com a economia em frangalhos em 2010, Orbán conseguiu arrumar a casa, fazendo o país voltar a crescer, e entre os anos de 2013 e 2019 o crescimento do PIB não ficou abaixo dos 2% (na média, 3,7%, excelente para padrões europeus), com inflação comportada - nesse período o índice de preços ao consumidor não passou de 3,3% ao ano, sendo que em dois deles, 2015 e 2016, houve deflação - e caminhando ao pleno emprego, com uma taxa de desemprego em 2019 de 3,4%. Tecer equivalências com Nicolás Maduro, o presidente que reduziu a economia da Venezuela a cinzas, como certos “experts” chegaram a fazer, é uma ofensa à inteligência alheia.
Também é preciso levar em conta o contexto dos impactos da guerra na Ucrânia para a Europa e a campanha de sufocamento econômico contra a Hungria promovida pela UE, com, entre outras medidas, o bloqueio de fundos do bloco sob a alegação de “violações ao estado de direito” - no caso registrado no link deste parágrafo, um dos pontos de embate entre o governo húngaro e a UE era a legislação que exigia maior transparência por parte de organizações não governamentais (ONGs) que recebiam apoio financeiro do exterior, para fins de uma avaliação mais justa do quarto e último mandato de Orbán.
Dito isso, o último ciclo do atual premiê no poder foi muito aquém dos anteriores: a inflação em 2022 chegou a 14,6%, e em 2023 bateu 17,3%, voltando a 3,7% em 2024 e descendo para 3,3% em 2025. Pode-se dizer que ela voltou a patamares “normais” nos dois anos anteriores, mas o estrago já estava feito. E duas ponderações precisam ser feitas: a primeira, como muito bem registrado neste artigo de Raphael Machado no Jornal Puro Sangue sobre o mesmo tema, o eleitorado tende a enxergar os problemas como são e não suas causas profundas; e a segunda é que a tolerância do cidadão médio - húngaro, americano, brasileiro, etc. - à inflação é muito menor do que à recessão e/ou desemprego. Afinal de contas, o impacto é imediato e visível, a cada ida ao supermercado, conta de luz a pagar ou abastecimento do carro.
Não sendo isso o bastante, o crescimento do PIB, após um 2022 até respeitável (4,2%), também ficou ruim: queda de 0,8% em 2023, alta de apenas 0,6% em 2024 e 0,8% em 2025. A economia húngara, basicamente, andou de lado nos últimos três anos, potencializando a insatisfação da população com a alta dos preços.
Para além dos problemas econômicos, o último ciclo do governo Orbán foi atravessado pelo escândalo envolvendo o perdão da então presidente do país, Katalin Novák, aliada de Orbán, a um homem condenado por acobertar abusos sexuais praticados em um abrigo infantil. Tal escândalo, que levou a presidente a renunciar em fevereiro de 2024, foi devastador para a imagem “pró-família” do Fidesz, e foi justamente o estopim da ruptura de Peter Magyar com sua antiga legenda.
Como disse no início, o bordão de Carville segue válido, ainda que recentemente enfrente concorrentes cada vez mais fortes. Eis um deles no parágrafo anterior.
3 - O curioso caso do “autocrata” que transfere pacificamente o poder
Durante seus 16 anos no poder, Viktor Orbán foi visto como “autocrata”, “autoritário” e “ditador” (ou aspirante a tal), seja pelos burocratas de Bruxelas (a “capital” da UE), seja pelos ditos especialistas da opinião pública ocidental, devido às reformas conduzidas na governança do Estado húngaro durante seus quatro mandatos, a começar pela nova Constituição, promulgada em 2011 e em vigor desde 2012. Ontem mesmo, o jornalista William Waack, da CNN Brasil, falou em seu programa que “a Hungria até aqui estava na vitrine de como as democracias morrem”.
No último domingo, vimos a prova real disso. E, veja bem, tivemos o curioso caso em que um líder “autocrata” é derrotado nas urnas, aceita sua derrota e encaminha a passagem do poder ao vencedor, pacificamente. Bem democrático e liberal para um “autocrata”, não acham?
E mesmo que tomemos por verdade a crítica ao sistema eleitoral húngaro, cuja reforma foi acusada por muitos de ser feita sob medida para favorecer o Fidesz - curiosamente, nada muito diferente do que democratas e republicanos nos EUA fazem há décadas em eleições legislativas, a fim de favorecer seus partidos, e nem por isso lá é considerado uma “autocracia” - esse mesmo sistema acabou “punindo” duramente Orbán neste último pleito: mesmo tendo 37,77% dos votos - demonstrando que ele ainda tem considerável capital político e apoio popular, o Fidesz terá 28,64% das cadeiras.
Curiosamente, países como Moldávia e Romênia, que literalmente banem partidos e/ou candidatos de eleições, coisa que não aconteceu com a oposição húngara sob a “era Orbán”, não são consideradas “autocracias”. Muito pelo contrário.
Considerações finais
Conforme disse no início deste artigo, há muitas retóricas emocionadas de todos os lados do espectro político acerca dos resultados do pleito no último domingo na Hungria, desde aqueles que acreditam que o país “vai acabar” com Peter Magyar no poder àqueles que acreditam numa “guinada progressista” da Hungria com a ascensão deste ao poder, mesmo considerando que, até “ontem”, ele estava nas fileiras do Fidesz, e possui posicionamentos não tão distantes do próprio Orbán em diversos temas. É bem provável que ambas as retóricas estejam equivocadas, e é preciso dar tempo ao tempo para que vejamos a que ele veio.
Em primeiro lugar, Magyar precisará ser um equilibrista entre, pelo menos três grupos de pressão que o ajudaram a chegar ao poder: os liberais cosmopolitas, que queriam tirar Orbán do poder há tempos e viram em Magyar a melhor oportunidade para tal; os conservadores insatisfeitos com o último governo Orbán, que, vendo que Magyar não é tão distante ideologicamente, tiveram menor resistência em “punir” o incumbente nas urnas; e os burocratas de Bruxelas, que queriam Orbán fora do caminho para conduzirem suas idiossincrasias. Evidente que não será uma tarefa simples, e, por isso mesmo, sua “lua de mel” com os eleitores húngaros e a UE será bastante curta.
Isso sem falar nos sinais já trocados em relação à campanha sobre a dependência de energia proveniente da Rússia: se na campanha Magyar prometia eliminar gradualmente as importações até 2035, ele, uma vez eleito, fala em continuar “comprando energia russa e priorizando o petróleo mais barato disponível”. Como ele mesmo disse, de maneira bem realista, “ninguém pode mudar a geografia”. Não é a primeira promessa que ele sinaliza recuo, e nada garante que será a última, o que só reforça o difícil equilíbrio que ele terá de buscar em seu governo.
Em segundo lugar, o apoio de medalhões da “nova direita” global, como Donald Trump, longe de ser um trunfo, pode ter sido um estorvo para Orbán e suas intenções de um quinto mandato. A despeito da deferência do premiê húngaro pelo atual presidente dos EUA, a ponto de seu país sediar edições da Conservative Political Action Conference (CPAC) nos últimos anos, isso não se reverteu em ações concretas por parte dos EUA para fazer com que a Hungria driblasse o sufocamento econômico promovido pela UE. E dinheiro não seria problema, visto que o governo norte-americano emprestou US$ 20 bi para a Argentina.
Na verdade, dada a postura completamente errática e inconsequente de Trump neste segundo mandato, conforme ressaltei em outro artigo meu no final de março, o presidente dos EUA se tornou um ativo tóxico para a direita mundial. No mais recente episódio, em que entrou em embate com o Papa Leão XIV, devido às criticas deste às guerras que vem conduzindo, a premiê da Itália, Giorgia Meloni, uma apoiadora estridente de Trump, acabou se posicionando a favor do pontífice.
E para finalizar as lições e reflexões sobre a derrota de Orbán, o terceiro e último ponto, corolário do anterior, deveria servir de alerta à direita brasileira (não que também não sirva à esquerda): conforme disse em um artigo publicado em meu Substack pessoal, apoio externo não compensa fraquezas internas. Pode, inclusive, acabar levando à exposição pública destas.
No mais, e como já disse antes, vamos dar tempo ao tempo e deixar Peter Magyar mostrar a que veio.
Notas:
[1] - Também conhecida como “Janela do Discurso”, o conceito, derivado de seu criador, o ativista político Joseph Paul Overton (1960-2003), ex vice-presidente do Centro de Políticas Públicas Mackinac (localizado em Midland, no estado de Michigan), descreve o conjunto de ideias toleradas no discurso público.
Autor: Marcos Jr – Sétima República in Substack - editor-chefe do Sétima República. É formado em Engenharia de Produção, especialista em Gestão Pública e servidor público. Gosta de falar sobre política, economia, sociedade e outras coisas que vier a dar na telha.