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Europa e Estados Unidos: o fim de uma história de amor
Não se trata apenas de a hegemonia dos EUA estar a vacilar, mas também da presença de outras potências em disputa, como a China e a Índia. Os Estados Unidos já aceitaram isso, enquanto em Bruxelas permanecem teimosamente entrincheirados, imersos nos efeitos persistentes da Guerra Fria.
Publicado em 23/04/2026 11:00
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Após a Segunda Guerra Mundial, a NATO foi criada para cumprir duas funções básicas. A primeira era a de preservar a ocupação e a subjugação da Alemanha e, através dela, da Europa Ocidental. A segunda era intimidar a União Soviética e o bloco de países da Europa de Leste.

 

Em torno da NATO, os imperialistas criaram o mito da solidariedade transatlântica, que começou a dissipar-se em 1990, quando os seus membros celebravam a queda do Bloco de Leste. Acreditavam que não haveria mais contradições externas e que as internas, antes ocultas, começaram a vir ao de cima.

 

Os europeus acreditam ser o centro do mundo e que todos os outros, incluindo os Estados Unidos, devem girar à sua volta. Mas os interesses estratégicos dos Estados Unidos afastaram-se da Europa.

 

A NATO realizou as suas últimas missões na década de 1990, nas Guerras dos Balcãs e, mais tarde, na destruição da Líbia em 2011. Oito anos depois, Macron declarou-a "em estado vegetativo", e Trump retirou as tropas da Síria sem consultar os seus "parceiros".

 

Quando a guerra na Ucrânia começou, a imposição de sanções à Rússia foi negociada no G7, e não na NATO. A partir daí, vieram as tarifas, cujas primeiras vítimas foram os europeus, e a regra dos 5% sobre as despesas militares. Os Estados Unidos retiraram de cena, e os europeus tiveram de preencher o vazio comprando armas ao seu “parceiro” do outro lado do Atlântico.

 

No ano passado, a União Europeia capitulou, aceitando uma tarifa básica de 15% sobre as suas exportações para os Estados Unidos em troca da eliminação das taxas de importação de muitos produtos americanos.

 

O objectivo destas concessões era manter as tropas americanas na Europa e garantir o financiamento de Washington para a Ucrânia.

 

Mas Washington persistiu, elevando a pressão sobre a Gronelândia, um território cuidadosamente escolhido porque o seu país de origem, a Dinamarca, é membro tanto da NATO como da União Europeia.

 

Os países europeus mostraram-se cautelosos com o rapto de Maduro, mas o pior aconteceu em Fevereiro, com o início da agressão ao Irão e o encerramento do estreito de Ormuz, que prejudicou os europeus quase tanto como os asiáticos.

 

A reacção europeia foi, mais uma vez, morna. A Europa, colectivamente, recusou-se a enviar navios para reabrir o Estreito de Ormuz e, em vez disso, incumbiu a Espanha e a Itália (cujos governos têm muito pouco em comum) do gesto simbólico de impedir que as aeronaves americanas reabastecessem nas suas bases aéreas e sobrevoassem o seu espaço aéreo, enquanto os países da Europa Central acataram as ordens dos EUA, tal como o Reino Unido.

 

Os Estados Unidos responderam enviando Vance a Budapeste para influenciar as eleições húngaras a favor de Orbán, o "bête noire" de Bruxelas. O desconforto chegou ao ponto em que os Estados Unidos não hesitaram em confrontar o próprio Vaticano, depois de várias provocações irreverentes de Trump nas redes sociais.

 

Este mês, uma sondagem de opinião mostrou que 36,5% dos inquiridos em seis dos principais Estados-membros da União Europeia vêem os Estados Unidos como uma ameaça, em comparação com 31% para a China.

 

É por isso que as viagens dos líderes europeus à China são cada vez mais frequentes. Pedro Sánchez já fez quatro visitas. Em Bruxelas, fala-se do futuro da NATO sem os Estados Unidos, o que é um paradoxo. Ao longo da sua história, o que realmente importou nunca foi a NATO, mas sim os Estados Unidos. Os "parceiros" europeus nunca foram mais do que figurantes desajustados. O caso amoroso acabou porque o equilíbrio de poder mudou no mundo, e os únicos que não se aperceberam disso são os europeus, que não pensam para além do outro lado do Atlântico.

 

Não se trata apenas de a hegemonia dos EUA estar a vacilar, mas também da presença de outras potências em disputa, como a China e a Índia. Os Estados Unidos já aceitaram isso, enquanto em Bruxelas permanecem teimosamente entrincheirados, imersos nos efeitos persistentes da Guerra Fria.

 

Daí as posições drasticamente diferentes em relação à Rússia em ambos os lados do Atlântico.

 

'A NATO deve concentrar-se na Europa'

 

Em meados do mês, o Subsecretário de Política de Guerra do Pentágono, Elbridge Colby, discursou no Grupo de Contacto de Defesa da Ucrânia, no qual instou os europeus a acelerarem a sua transição para a nova NATO 3.0, que deveria voltar a concentrar-se na sua defesa, em vez de se expandir para o Indo-Pacífico, Ásia Ocidental, Europa de Leste e outras partes do mundo.

 

O caso da Ucrânia demonstra que a Europa está a acelerar a assunção das suas próprias responsabilidades no Velho Continente, para o que deverá construir uma forte indústria de armamento.

 

Por outras palavras, o que Colby está a dizer é que, se a Europa for capaz de impor o seu domínio no continente, os Estados Unidos poderão dedicar as suas energias a outras frentes, começando pela América Latina e depois pelo Indo-Pacífico. Caso contrário, os Estados Unidos deveriam cobrar uma portagem em troca da garantia de segurança, como fazem com os seus aliados no Médio Oriente, começando pela imposição de 5% das despesas militares e, em paralelo, marginalizando países dissidentes, como a Espanha, que perderia o apoio militar do exército americano.

 

 

Fonte: https://mpr21.info/europa-y-estados-unidos-el-final-de-una-historia-de-amor/

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