Nesta última quarta-feira, 29 de abril, Lula, à frente pela terceira vez como presidente da República, teve de lidar com o que, até agora, tem sido sua maior derrota em seus três mandatos: a rejeição, por parte do Senado, da indicação de Jorge Messias, advogado-geral da União, para ocupar a vaga de Ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) no lugar de Luís Roberto Barroso, que se aposentou no ano passado.
Por 42 votos a 34, a câmara alta do Legislativo carimbou, no atual governo petista, uma marca, por si só, humilhante: desde 1894, sob o governo de Floriano Peixoto, o Senado nunca rejeitou uma indicação à Suprema Corte brasileira. Se formos pesar o fato de que o governo do “Marechal de Ferro” foi sui generis em função de seu caráter autocrático, é, talvez, a derrota mais amarga imposta a qualquer governo democrático. Numa hipótese muito generosa, dá para afirmar que se trata de um dos piores reveses político enfrentado por um presidente nesta Nova República, junto com os impeachments de Fernando Collor e Dilma Rousseff e a não reeleição de Jair Bolsonaro.
Contudo, por mais humilhante e amarga que tenha sido, essa derrota do governo não era uma completa improbabilidade, muito menos um “cisne negro” [1]: desde quando anunciado por Lula como cotado a assumir a vaga de Barroso, Messias enfrentava dura resistência, não só da oposição, mas de nada mais nada menos que Davi Alcolumbre, presidente do Senado. Este tinha o nome de Rodrigo Pacheco, seu antecessor no comando da Casa, como favorito.
Também é importante frisar que o nome de Messias esteve envolto em controvérsias ao longo de sua trajetória, sendo a mais notória delas o momento quando, em uma ligação gravada pela Polícia Federal (PF), Dilma Rousseff disse a Lula que iria mandar o “Bessias” levar um termo de posse “em caso de necessidade”. Na época, Messias era subchefe para Assuntos Jurídicos da Presidência da República, responsável pelo assessoramento jurídico da presidente, e Lula era investigado pela Operação Lava Jato. Uma eventual posse de Lula lhe daria foro privilegiado, mas o hoje presidente não assumiu o cargo no governo de sua sucessora.
Para não delongar muito neste artigo eu não pretendo dar tanto enfoque à cronologia dos acontecimentos que precipitaram na rejeição ao Messias no Senado, até porque isso está fartamente documentado na imprensa. Tampouco focarei nas controvérsias, pelos mesmos motivos. O que está claro diante de tudo isso é que o frágil pacto da “frente ampla” que permitiu a Lula retornar ao poder e assegurou (?) alguma governabilidade ao petista foi reduzido a pó na última quarta-feira. A derrubada ao veto ao PL da Dosimetria, ocorrida nesta quinta, enquanto escrevo o texto, não me deixa mentir.
Isso se soma às sucessivas ações - e a falta delas -, algumas delas mencionadas em meu artigo no Substack pessoal, de um governo que se notabiliza por ser medíocre, sem grandes feitos, com alguns aspectos bons (cada vez menos) e outros nefastos (cada vez mais), e incapaz de capitalizar politicamente até mesmo em pautas favoráveis à esquerda no debate público, como o fim da jornada 6 x 1, por exemplo. Não atoa que Flávio Bolsonaro mostra-se competitivo nas pesquisas.
Estamos diante de um momento apocalíptico para Lula. Diante do fato de que o Messias não virá mais ao Supremo, o petista, bem como seu bloco de esquerda num sentido mais amplo, precisará fazer tudo aquilo que não fez ao longo dos três anos anteriores de seu terceiro mandato se quiser sonhar com a reeleição em outubro.
A não ser que o fim tenha chegado, e, sendo assim, jogar a toalha não seja mais uma questão de “se”, mas sim de “quando” e “como”.
Marcos Jr.: editor-chefe do Sétima República. É formado em Engenharia de Produção, especialista em Gestão Pública e servidor público. Gosta de falar sobre política, economia, sociedade e outras coisas que vier a dar na telha.
Notas:
[1] - nome dado a eventos raros, imprevisíveis e de impacto tal que mudam drasticamente o curso da história e/ou da economia.
Fonte: https://mail.google.com/mail/u/0/#inbox/FMfcgzQgLXxkXcdwxrhgKkNHBWPnfSWM