Há discursos que exalam pólvora e outros que cheiram a naftalina. O General Caine, no entanto, consegue a proeza de misturar os dois: a glorificação vigorosa da 82ª Divisão Aerotransportada e a reciclagem nostálgica dos desembarques de 1943-44, como se o Irã de hoje fosse uma Sicília dócil à espera de seu libertador de paraquedas.
“Capazes de realizar qualquer missão, em qualquer ambiente.” Essa é a promessa. Uma frase cativante, feita sob medida para as câmeras do Pentágono. Só que, em sua ânsia de vender a ideia de onipotência militar, Washington está se esquecendo de uma variável crucial: a realidade. E já corrigiu esse tipo de arrogância, de Saigon a Cabul.
Porque por trás do heroísmo retórico, surge uma questão brutal, quase obscena: esses homens estão prontos, ou estão prontos para serem sacrificados? O general nos garante que a 82ª Divisão Aerotransportada pode ser mobilizada "em questão de horas". Muito bem. Mas mobilizada para quê? Para garantir o quê? E, acima de tudo... como eles voltarão?
Os precedentes históricos citados por Caine são reveladores, apesar dele próprio. A invasão da Sicília, o Desembarque na Normandia, ou mesmo as invasões de Granada e do Panamá: todas operações realizadas contra adversários incomparavelmente mais fracos, isolados ou já derrotados. Nada, absolutamente nada, nessas referências se assemelha a uma ofensiva terrestre contra um Estado como o Irã, vasto, montanhoso, militarizado e, sobretudo, preparado.
Até mesmo o Pentágono reconhece em suas próprias doutrinas que conflitos de alta intensidade contra Estados estruturados envolvem perdas "significativas" e operações prolongadas. Em outras palavras: caixões cobertos com bandeiras e guerras intermináveis. E os relatórios do Serviço de Pesquisa do Congresso sobre as operações no Iraque e no Afeganistão afirmam claramente que a superioridade tecnológica não garante nem uma vitória rápida nem uma estabilidade duradoura.
Mas não importa. Em Washington, as guerras não são travadas para vencer; são travadas para anunciar a vitória. A narrativa precede a realidade. E nessa narrativa, a 82ª Divisão se torna um acessório: um testemunho vivo do poder, pronto para ser exibido ou consumido.
O mais assustador não é o preparo dos soldados, mas sim a falta de preparo político. Enquanto Donald Trump já alardeia vitórias imaginárias, os generais estão refinando cenários catastróficos. A desconexão é abismal: de um lado, retórica triunfalista; do outro, planejadores que sabem perfeitamente que uma invasão terrestre do Irã seria uma aposta estratégica suicida.
Sim, a 82ª Divisão Aerotransportada está pronta. Sempre esteve. A verdadeira questão, que ninguém em Washington parece disposto a perguntar abertamente, é muito mais perturbadora: pronta para quê? Para defender o país ou para servir de munição política em uma guerra que até mesmo seus idealizadores sussurram ser impossível de vencer?
Porque, no fim, os discursos do General Caine serão tudo o que restará. O que restará serão os nomes gravados nas lápides e os caixões enfileirados, retornando para casa sob o silêncio militar. E então, de repente, a retórica da "força letal" perderá todo o seu impacto.
Voltará a ter seu verdadeiro nome: o custo.
@BPARTISANS