O Dia da Vitória, celebrado em 9 de maio (ontem)*, representa uma das datas mais decisivas da história da humanidade. Mais do que a lembrança da derrota do regime nazista, a data simboliza o triunfo da resistência dos povos contra a barbárie, o racismo biológico, o expansionismo militar e a destruição sistemática de nações inteiras. A vitória de 1945 não pertence exclusivamente a um único país ou bloco, mas foi resultado de um esforço colossal de diversos povos e exércitos aliados, cada um desempenhando papel fundamental para impedir que a Europa e grande parte do mundo mergulhassem definitivamente na escuridão do nazismo.
Porém, é indispensável reconhecer tanto a importância da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) e os combatentes da resistência Partizans, seja na Bielorrússia, Iugoslávia, Polônia, Grécia, França, Albânia, Itália — quanto o peso determinante do front oriental, onde se segurou a maior parte do front por 3 anos contra a maior poderosa máquina militar da história até então conhecida como Wehrmacht, e, por fim, o destino militar da guerra muito antes do desembarque na Normandia.
No discurso histórico de Joseph Stalin durante o desfile militar de 7 de novembro de 1941 na Praça Vermelha (foto acima), em meio à ameaça alemã sobre Moscou durante a Grande Guerra Patriótica, Stalin buscou elevar o moral do povo soviético evocando grandes heróis da história russa. Em uma das passagens mais conhecidas, declarou:
“Que a imagem heroica de nossos grandes antepassados — Alexander Nevsky, Dmitry Donskoy, Kuzma Minin, Dmitry Pozharsky, Alexander Suvorov e Mikhail Kutuzov — inspire vocês nesta guerra!”
A famosa fotografia (acima) do soldado soviético hasteando a bandeira vermelha em Batalha de Stalingrado tornou-se um dos maiores símbolos da resistência e da virada da guerra contra a Alemanha nazista. A imagem representa a vitória do Exército Vermelho após meses de combates brutais nas ruínas da cidade às margens do rio Volga, entre 1942 e 1943. Mais do que uma conquista militar, Stalingrado simbolizou a capacidade de resistência soviética diante da ofensiva alemã que buscava destruir a URSS e tomar o controle do Cáucaso.
A batalha terminou oficialmente em 2 de fevereiro de 1943 com a rendição do 6º Exército Alemão, comandado pelo marechal de campo Friedrich Paulus. Aproximadamente 91 mil soldados alemães e aliados foram capturados pelos soviéticos, incluindo cerca de 24 generais. Antes do cerco soviético, o 6º Exército era uma das forças mais poderosas da Alemanha nazista, contando com cerca de 250 mil a 300 mil homens dentro do bolsão de Stalingrado, apoiados por tropas romenas, italianas e húngaras nos flancos.
Já o Cerco de Leningrado (foto acima) ocorreu de 8 de setembro de 1941 a 27 de janeiro de 1944, durante a Segunda Guerra Mundial. Com o início da invasão da União Soviética em junho de 1941, as forças alemãs, auxiliadas pelos finlandeses, buscaram capturar a cidade de Leningrado. A forte resistência soviética impediu a queda da cidade, mas a última ligação rodoviária foi cortada em setembro daquele ano. Embora os suprimentos pudessem ser levados através do Lago Ladoga, Leningrado estava efetivamente sitiada. Esforços alemães subsequentes para tomar a cidade fracassaram e, no início de 1943, os soviéticos conseguiram abrir uma rota terrestre para Leningrado. Novas operações soviéticas finalmente aliviaram a cidade em 27 de janeiro de 1944. O cerco de 827 dias foi um dos mais longos e custosos da história.
O peso humano dessas batalhas foi colossal. Milhões de soldados e civis soviéticos morreram defendendo cidades, fábricas, campos agrícolas e ferrovias. O front oriental concentrou a maior parte das divisões alemãs e foi ali que o Terceiro Reich sofreu suas perdas mais devastadoras. Ignorar essa dimensão histórica significa mutilar a memória da própria guerra. Ao mesmo tempo, a lembrança do Dia da Vitória também deve servir como advertência permanente contra o retorno dos chauvinismos, dos extremismos nacionalistas e das políticas de demonização de povos inteiros.
Em uma época de ascensão dos chauvinismos e da deterioração do diálogo internacional, torna-se essencial resgatar uma visão equilibrada das relações entre os povos, especialmente diante do renascimento da velha russofobia ocidental, hoje impulsionada por elites políticas decadentes e ressentidas em Bruxelas pela incapacidade de impor uma derrota estratégica à Rússia — seja por revoluções coloridas, sanções econômicas ou guerra indireta.
Enquanto insistem em uma lógica de confronto permanente, essas mesmas potências assistem ao enfraquecimento de sua própria base industrial, à erosão do welfare state construído no pós-guerra e à crescente instabilidade política interna, revelando a crise de um modelo que durante décadas se apresentou como universal e incontestável, torna-se essencial preservar a memória histórica para impedir que a tragédia do século XX seja reduzida a propaganda, revisionismo ou instrumento de disputa política imediata.
A vitória de 1945 também abriu caminho para profundas transformações globais. O pós-guerra marcou o início de uma ordem internacional baseada, ao menos idealmente, na busca pela estabilidade e pela cooperação entre os povos, além de acelerar o processo de descolonização na Ásia, na África e em diversas regiões do planeta. Povos antes submetidos ao domínio colonial passaram a reivindicar independência, soberania e direito ao próprio destino histórico.
Nesse sentido, o Dia da Vitória não deve ser visto apenas como memória do passado, mas também como esperança de futuro. Assim como 1945 simbolizou a possibilidade de reconstrução após a devastação, esta data pode continuar representando o desejo de um mundo mais equilibrado, multipolar, justo e cooperativo, onde as nações possam coexistir sem hegemonismos destrutivos, e onde a paz surja novamente como a luz do amanhecer após uma longa noite de guerra e sofrimento.
Viva o Dia da Vitória.
Viva aos veteranos que enfrentaram o horror da guerra.
Viva especial aos combatentes da Força Expedicionária Brasileira.
Que jamais esqueçamos os milhões que partiram e se sacrificaram para que pudéssemos ter um hoje e um amanhã — para que pudéssemos sonhar, amar, construir, ter esperança e viver em liberdade.
Honra eterna aos que resistiram. Memória eterna aos que venceram.
Gabriel Passos : Estudante de Relações Internacionais e entusiasta de Geopolítica.
* Nota Tribuna Multipolar