A RESISTÊNCIA DE UM POVO SITA
1. 1979-1980: O PECADO ORIGINAL DA SOBERANIA
O crime do Irã foi ousar existir. Quando o povo iraniano derrubou o Xá em 1979 e pôs fim a décadas de domínio colonial, o Império, sob o comando de Jimmy Carter, perdeu seu principal aliado no Oriente Médio. A resposta foi imediata: congelamento de bens iranianos, embargo comercial e o início de uma campanha global de difamação que continua até hoje. Para Washington, a Revolução Islâmica não era um movimento popular; era uma afronta à sua hegemonia que precisava ser punida. Aquele dia marcou o início da grande mentira que durou quatro décadas: o Irã era o "novo perigo", um país de "fanáticos" a ser temido. O imaginário ocidental, alimentado por Hollywood e pela mídia, começou a se encher de imagens de barbas escuras e mulheres submissas, desertos e aiatolás gritando. A realidade era bem diferente: um país que começava a construir, em meio a dificuldades, um sistema de saúde e educação para todos, com mulheres frequentando a universidade e lutando pela alfabetização em áreas rurais. Enquanto nós enchíamos nossos carrinhos de compras sem olhar os preços e criticávamos aqueles "bárbaros", eles começavam a reconstruir um país das cinzas.
2. 1980-1988: A GUERRA IMPOSTA E AS ARMAS DOS DOIS PADRÕES
Saddam Hussein, o Açougueiro de Bagdá, invadiu o Irã em 1980 com o apoio explícito dos Estados Unidos, da URSS, da França e do Reino Unido. Eles lhe forneceram informações via satélite, armas químicas e financiamento. Quando Saddam usou gás mostarda e gás sarin contra soldados e civis iranianos, matando milhares, a comunidade internacional manteve um silêncio cúmplice. O gás sarin é um agente nervoso tão letal que uma única gota na pele pode matar uma pessoa em minutos. O gás mostarda queima os pulmões e deixa suas vítimas em agonia por dias. Foi um genocídio químico patrocinado pelo Ocidente. O presidente Ronald Reagan, com a Doutrina Carter ainda em vigor, viu a guerra como uma oportunidade para exaurir a Revolução Islâmica. Enquanto emissoras de televisão ao redor do mundo retratavam as vítimas como uma tragédia distante, empresas ocidentais continuaram a fazer negócios com o Açougueiro de Bagdá. A conclusão era clara: o sangue iraniano não valia nada. Do nosso conforto burguês, nem sequer sabíamos pronunciar o nome Halabja.
3. 1984: A DESIGNAÇÃO COMO “ESTADO TERRORISTA”
Com Reagan na Casa Branca, os Estados Unidos deram mais um passo na guerra psicológica. Designaram o Irão como um “Estado Patrocinador do Terrorismo”, um rótulo infame baseado não em fatos, mas na necessidade de isolar Teerã. Essa designação permitiu a imposição de sanções cada vez mais severas e justificou qualquer interferência futura. A verdade era bem diferente: o Irã não patrocinava o terrorismo; patrocinava a resistência à ocupação e ao imperialismo israelenses, e isso era imperdoável. A partir desse momento, o rótulo de “terrorista” se enraizou na mente dos cidadãos ocidentais, que passaram a associar o Irã à violência e ao caos sem saber nada mais sobre o país. Foi o início do “pensamento de grupo”: se Washington diz, deve ser verdade.
4. 1988: A QUEDA DO VOO 655 E A IMPUNIDADE COMO DOUTRINA
O USS Vincennes, um cruzador americano equipado com o sistema de combate Aegis, abateu o voo 655 da Iran Air sobre o Golfo Pérsico. O voo 655 era um avião comercial, um Airbus A300, que havia decolado de Bandar Abbas com destino a Dubai. Transportava 290 pessoas, incluindo 66 crianças. O capitão do Vincennes alegou ter confundido o avião de passageiros com um caça F-14 iraniano, uma desculpa que nunca se sustentou. O presidente Reagan jamais se desculpou. A Casa Branca classificou o massacre como um “erro compreensível” e condecorou o capitão. Foi um ato de puro terrorismo de Estado, uma lição macabra para Teerão: a vida iraniana não vale nada. Contudo, as manchetes dos jornais ocidentais não mostraram a fotografia dos corpos sem vida daquelas crianças. Elas a ocultaram.
Fidelista Por Siempre