Por Mohammad Reza Dehshiri, decano da Escola de Relações Internacionais do Ministério dos Negócios Estrangeiros do Irão.
A guerra dos EUA e Israel contra o Irão em 2026 representa um momento crucial na transformação das estruturas de segurança regionais e globais. O conflito não foi uma guerra interestatal convencional, mas um confronto multidimensional envolvendo os domínios militar, económico, cibernético, psicológico, cognitivo, mediático e geopolítico. Acelerou as mudanças estruturais no sistema internacional, desafiou o paradigma da “supremacia absoluta” americana e destacou a crescente importância da dissuasão assimétrica e da resiliência estratégica.
Este artigo examina a guerra sob quatro perspetivas: as principais lições aprendidas com o conflito, os ganhos estratégicos do Irão, as consequências regionais e internacionais mais amplas e os cenários futuros para as relações Irão-EUA e a segurança regional.
Defende-se que a guerra revelou os limites da dominância militar tradicional, demonstrou a centralidade do capital social nos conflitos modernos e reforçou o papel da geografia, dos estrangulamentos energéticos e da guerra cognitiva na configuração dos resultados estratégicos.
As conclusões sugerem que a ordem internacional do pós-guerra é cada vez mais caracterizada pela multipolaridade, competição estratégica, instabilidade controlada e formas híbridas de dissuasão.
A futura arquitectura de segurança do Médio Oriente será provavelmente moldada por uma combinação de rivalidade, cooperação selectiva e tensão geopolítica persistente.
Inflexão política
A guerra de 2026 dos EUA e Israel contra o Irão representa um dos pontos de viragem geopolíticos mais significativos do início do século XXI.
O conflito surgiu num contexto de intensificação da competição global, de mudanças nas estruturas de poder e de crescente discordância sobre as regras e normas do sistema internacional.
Ao contrário das guerras tradicionais, definidas por linhas da frente e objetivos militares claros, este conflito desenrolou-se como um confronto híbrido complexo. Combinou operações militares cinéticas com guerra cibernética, sanções económicas, pressão energética, operações de inteligência, campanhas psicológicas e extensas batalhas mediáticas e narrativas.
Como tal, reflectiu a evolução da guerra moderna para um fenómeno multidimensional em que as fronteiras entre a guerra e a paz, os domínios militares e civis e as arenas domésticas e internacionais se tornaram cada vez mais ténues.
Na sua essência, o conflito representou um choque entre duas perspectivas estratégicas. A primeira era a lógica de dominância EUA-Israel, orientada para a preservação da superioridade regional, a imposição da obediência e a moldagem do ambiente estratégico através do poder coercivo.
A segunda era a lógica iraniana de sobrevivência, centrada na soberania, dissuasão, resiliência e resistência à pressão externa.
A guerra não se limitou a remodelar os equilíbrios de poder regionais. Acelerou também transformações estruturais mais amplas no sistema global, incluindo o declínio da unipolaridade, o surgimento da multipolaridade, a ascensão da dissuasão assimétrica e a crescente militarização dos instrumentos económicos e de informação.
Natureza multidimensional
Uma das lições mais importantes da guerra de 2026 é a confirmação de que o conflito contemporâneo é inerentemente multidimensional.
A guerra já não se limita ao domínio militar, mas estende-se por múltiplas arenas interligadas, incluindo os sistemas económicos, as infraestruturas cibernéticas, os ecossistemas mediáticos, as operações psicológicas e a gestão da perceção cognitiva.
A guerra demonstrou que o sucesso ou o fracasso nos conflitos modernos depende não só dos resultados no campo de batalha, mas também da capacidade de moldar narrativas, influenciar percepções, desestabilizar sistemas financeiros e gerir a resiliência social.
O poder militar continua a ser importante, mas já não é suficiente para garantir a vitória estratégica. A guerra pôs em evidência a distinção fundamental entre duas orientações estratégicas: a dominação e a sobrevivência.
As potências dominantes procuram frequentemente vitórias rápidas e decisivas para reestruturar sistemas políticos opostos. Em contrapartida, os atores orientados para a sobrevivência priorizam a resistência, a perseverança e o desgaste a longo prazo.
Os Estados Unidos e os seus aliados adoptaram uma estratégia orientada para a transformação coerciva e para o colapso político. O Irão, no entanto, interpretou o conflito como uma luta existencial.
Esta assimetria na percepção estratégica moldou a trajectória da guerra e, em última análise, contribuiu para o fracasso dos objectivos baseados na dominância.
Outra lição fundamental do conflito é a centralidade do capital social na guerra moderna. A coesão nacional, a identidade colectiva, a confiança política e a solidariedade social surgiram como determinantes críticos da resiliência.
No caso iraniano, a unidade interna funcionou como um multiplicador de forças que aumentou a capacidade do país para resistir à pressão externa. A coesão social reduziu a vulnerabilidade aos esforços de desestabilização e reforçou a continuidade institucional em condições de crise.
Isto demonstra que a guerra moderna depende cada vez mais da resiliência das sociedades, e não apenas das capacidades finitas dos Estados.
O conflito reforçou a importância da autossuficiência na estratégia de defesa. A dependência do Irão em relação às capacidades nacionais, às estruturas de defesa descentralizadas e às tecnologias militares de baixo custo ilustrou a eficácia das abordagens assimétricas no enfrentamento de adversários tecnologicamente superiores.
Sistemas como drones, mísseis balísticos e plataformas marítimas de ataque rápido desempenharam um papel central na alteração da estrutura de custos do conflito.
A guerra demonstrou que os sistemas de baixo custo podem impor encargos económicos e estratégicos desproporcionados a adversários mais avançados.
Apesar dos avanços tecnológicos, a geografia manteve-se um fator decisivo na definição dos resultados militares. O terreno, a distância, a dispersão e as condições ambientais influenciaram significativamente a eficácia operacional.
A utilização de terrenos montanhosos, instalações subterrâneas e infra-estruturas de defesa distribuídas pelo Irão aumentou a capacidade de sobrevivência e a continuidade operacional. Isto sublinha a relevância duradoura dos princípios geopolíticos clássicos na guerra moderna.
A guerra demonstrou também a crescente importância da guerra cognitiva. As narrativas, as perceções e os fluxos de informação tornaram-se componentes centrais da competição estratégica.
Cada lado procurou moldar as perceções internas e internacionais de legitimidade, sucesso e justificação. A incapacidade de controlar as narrativas pode prejudicar os ganhos militares, enquanto a construção bem-sucedida de narrativas pode amplificar os resultados estratégicos.
Ganhos estratégicos do Irão
Uma das principais conquistas do Irão durante o conflito foi a preservação da continuidade política e institucional.
Apesar da pressão externa constante, o Estado manteve a coerência operacional, a estabilidade interna e a funcionalidade da governação.
As tentativas de desestabilização não alcançaram os seus objectivos estratégicos, e as estruturas institucionais mantiveram-se intactas ao longo do conflito.
A guerra fortaleceu a arquitectura de dissuasão multicamadas do Irão. Esta incluiu a dissuasão militar, as capacidades cibernéticas, a influência marítima, os sistemas de mísseis, as alianças em rede e os mecanismos de dissuasão cognitiva.
A dissuasão evoluiu de um conceito puramente militar para um sistema multidimensional que integra componentes económicas, informativas e geopolíticas.
O Estreito de Ormuz emergiu como um activo estratégico central no conflito. Como ponto de estrangulamento crítico para os fluxos globais de energia, a sua importância geopolítica aumentou substancialmente durante a guerra.
A capacidade de influenciar a segurança marítima e o trânsito de energia deu ao Irão uma maior influência estratégica nas dinâmicas regionais e globais.
O Irão impôs com sucesso custos significativos a adversários tecnologicamente superiores através de estratégias assimétricas.
O conflito demonstrou que a assimetria de custos é uma característica definidora da guerra moderna, na qual sistemas mais baratos podem forçar respostas defensivas dispendiosas.
Esta dinâmica transformou a guerra numa prolongada disputa económica e estratégica de resistência.
Para além dos resultados materiais, o Irão obteve também ganhos simbólicos e civilizacionais. O conflito reforçou a identidade nacional, a resiliência colectiva e a solidariedade social.
A guerra contribuiu também para projectar o Irão como um actor civilizacional com fundamentos culturais, históricos e normativos distintos.
Efeitos regionais e internacionais
A guerra contribuiu para a erosão da ordem unipolar pós-Guerra Fria. A incapacidade de qualquer actor isolado em alcançar uma dominância estratégica decisiva reflecte uma mudança mais ampla na distribuição global do poder.
O conflito revelou a crescente influência das condições políticas internas no comportamento da política externa.
A polarização, a fragmentação institucional e os desafios à legitimidade restringem a tomada de decisões estratégicas.
A guerra expôs tensões dentro dos sistemas de alianças. Perceções divergentes de ameaças e interesses estratégicos entre aliados reduziram a coesão e a coordenação.
Instrumentos económicos como as sanções, as restrições comerciais e os controlos energéticos tornaram-se ferramentas centrais da competição geopolítica.
A interdependência económica está a tornar-se cada vez mais um domínio de vulnerabilidade estratégica.
O conflito acelerou a emergência de um sistema internacional multipolar caracterizado por centros de poder concorrentes, alianças diversificadas e estruturas de governação fragmentadas.
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