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A ofensiva americana ao Tren de Aragua e dois ditos populares que servem de recado ao Brasil
Da mesma forma que a “Primeira Guerra ao Terror” acabou espalhando o jihadismo pelo mundo, a "Segunda Guerra ao Terror" pode acabar capilarizando o narcotráfico latino-americano.
Publicado em 16/06/2026 15:30
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O exato momento do ataque na operação contra Niño Guerrero, líder da facção venezuelana Tren de Aragua (Fonte: Reprodução/Truth Social/@realDonaldTrump)

Na última sexta-feira, 12 de junho, enquanto muitos no Brasil estavam celebrando o Dia dos Namorados e outros, aqui e em muitos países no mundo, estavam distraídos com os primeiros jogos da Copa do Mundo, os EUA - por sinal, uma das sedes deste Mundial - resolveram enviar um recado nada discreto à América Latina (como eles próprios confirmaram mais tarde), incluso, evidentemente, o Brasil: numa ação militar americana, em conjunto com autoridades venezuelanas, Niño Guerrero, líder da facção Tren de Araguafoi morto.

 

A imagem que abre este artigo mostra o exato momento da explosão de um galpão, supostamente onde está Guerrero, localizado numa área de floresta, é detonado.

 

Antes que alguém interprete mal e resolva colocar palavras na minha boca, cabe um parêntese para fins de registo: não há nenhum motivo para sentir pena de Guerrero, assim como não há nenhum motivo para sentir pena de nenhum líder de facção criminosa daqui no Brasil ou de outro país: são facínoras que impõem o terror e o medo nos seus domínios, explorando múltiplas atividades ilícitas e deixando um rasto de sangue por onde passam. No caso concreto da facção venezuelana, é importante destacar que o Tren de Aragua já atua no Brasil, em certo grau de simbiose com as facções nacionais e com práticas cruéis contra seus desafetos - decapitações de devedores para o tráfico são apenas um exemplo disso -, um modus operandi que lembra o dos cartéis mexicanos.

Dito isso, e considerando o recente facto de duas das principais facções criminosas brasileiras serem classificadas como terroristas pelo governo dos EUA, tal como já ocorre com o próprio Tren de Aragua, ninguém aqui se pode dar luxo de ser inocente ao ponto de ignorar as segundas (será mesmo só segundas?) intenções americanas em colocar as facções e carteis de drogas latino-americanos como novo alvo da “Guerra ao Terror”, num claro intento de recuperar o “quintal” perdido, conforme dito por Pete Hegseth, atual secretário de Guerra norte-americano. E dois ditos populares servem como luva - e recado - ao Brasil.

O primeiro é que “para bom entendedor, meia palavra basta”. E está muito claro o que os EUA estão dispostos a fazer a pretexto de combate ao “narcoterrorismo”. E a alegada “colaboração” das autoridades venezuelanas à operação que liquidou Guerrero, tendo em vista as circunstâncias recentes às quais o país foi submetido - a intervenção militar que capturou Maduro e as subsequentes ações tanto do novo governo, de Delcy Rodríguez (a repentina abertura do setor petrolífero ao capital estrangeiro e a remoção de aliados de seu antecessor do Tribunal Superior de Justicia (TSJ), a “Suprema Corte” do país, são apenas dois de vários exemplos) como do próprio governo Trump (em orientar procuradores a não avançar em apurações criminais contra a presidente do país) -, apenas evidenciam o caráter coercitivo dessa “colaboração”. Afinal de contas, quem não seria “colaborativo” com alguém capaz de usar a força das armas para capturar o presidente do seu país? Ou vai, ou vai mesmo.

O segundo é que “quando a barba do seu vizinho arder, coloque a sua de molho”. Evidente que alguns podem alegar que, diferente da Venezuela nos últimos anos, a postura do Brasil nas suas relações com os EUA é mais cooperativa, e nisso é preciso concordar (e, acrescento, é válido inclusive para o governo Lula), o que pode tornar desnecessária uma pressão mais explícita.

Contudo, poucos também imaginavam que Trump levaria a intervenção na Venezuela para as “vias de facto”. E, como disse anteriormente, a alegada “colaboração” venezuelana para a operação que matou Guerrero deveria servir de alerta em relação aos parâmetros que os EUA pretendem impor para futuras “colaborações” nesse sentido. Inclusive no nosso território.

Reforço o que disse em outros textos neste espaço: nada justifica uma postura leniente no enfrentamento ao crime organizado no Brasil, e urge uma postura mais dura nesse sentido, tratando o tema como uma questão de segurança nacional e, porque não, regional.

Dito isso, da mesma forma que a “Primeira Guerra ao Terror” no Oriente Médio e norte da África, longe de ter acabado com a ameaça dos grupos jihadistas, ajudou a espalhá-la pelo mundo, a “Segunda Guerra ao Terror”, desta vez contra o narcotráfico latino-americano, pode tornar as facções ainda mais capilarizadas, a despeito do espetáculo em torno de operações como a que matou Guerrero.

Isso se a ideia não for justamente essa: criar (ou ampliar) o problema para vender a “solução”.





Marcus Jr - editor-chefe do Sétima República. É formado em Engenharia de Produção, especialista em Gestão Pública e servidor público. Gosta de falar sobre política, economia, sociedade e outras coisas que vierem a dar na telha.

 

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