Em um artigo publicado recentemente, R. Evan Ellis, professor pesquisador principal de Estudos Latino-Americanos no Instituto de Estudos Estratégicos do U.S. Army War College (Escola de Guerra do Exército dos EUA), definiu os interesses estratégicos dos EUA na Ibero-América como um conflito binário entre os governos que se alinham aos EUA e aqueles regimes — "alternativos, populistas ou disfuncionais" — que não o fazem.
Nesse contexto, Ellis caracteriza as eleições brasileiras de 4 de outubro como "particularmente críticas para a direção estratégica da América do Sul". A política externa independente do presidente Lula da Silva e as relações do Brasil com a China são o foco de sua preocupação.
O artigo, intitulado "Latin America’s Evolving Strategic Panorama" (O Panorama Estratégico em Evolução na América Latina), foi publicado na edição de verão de 2026 da inFOCUS Quarterly, uma publicação do Jewish Policy Center — organização neoconservadora sediada em Washington, D.C., e braço da Republican Jewish Coalition (Coalizão Judaica Republicana). O centro é financiado por bilionários sionistas como Paul Singer, que acumulou sua fortuna por meio de seu notório fundo abutre, a Elliott Management.
Ellis escreve:
As eleições nacionais de 4 de outubro apresentam um empate estatístico entre o atual presidente de esquerda e octogenário, Luiz Inácio "Lula" da Silva, e Flávio Bolsonaro, filho conservador e pró-EUA do ex-presidente preso Jair Bolsonaro. O pleito é particularmente decisivo para a orientação estratégica da América do Sul, região na qual o Brasil detém metade da população e metade da extensão territorial (fazendo fronteira com todos os demais países do continente, exceto dois), além de possuir uma força militar superior à soma das forças dos outros países sul-americanos.
Lula desempenhou um papel significativo não apenas ao atrair cerca de 40% de todo o comércio e investimento da RPC para a região, mas também na colaboração militar e espacial com a RPC e na atuação conjunta em fóruns multilaterais, desde o sistema das Nações Unidas até o BRICS (Brasil, Rússia, Indonésia [sic], China e África do Sul, além de Índia, Egito e Etiópia). Sob a gestão de Lula, o Brasil também se destacou como um dos países da região mais críticos às políticas dos EUA, aproveitando a liberdade proporcionada por sua relativa independência em relação ao mercado americano.
É notável que Ellis também estabeleça as bases para tratar os investimentos chineses na região como estando ligados ao tráfico de drogas, o principal pretexto usado pelo governo Trump para militarizar a região, “extrair” o presidente venezuelano Nicolás Maduro, etc. Depois de tratar o “acesso regional de adversários geopolíticos dos EUA, como a República Popular da China (RPC)” como uma ameaça equivalente aos interesses estratégicos dos EUA, assim como as “drogas e outras atividades criminosas” na região, ele escreve:
“A expansão do comércio e do fluxo financeiro entre a região e a China apresenta novas oportunidades de lavagem de dinheiro para criminosos e desafios associados para as unidades de inteligência financeira e outras autoridades na região, dado o conhecimento e o acesso limitados a bancos e empresas com sede na RPC.”
Quem é R. Evan Ellis?
Conforme seu perfil no LinkedIn, desde setembro de 2014, o Dr. Ellis atua “como professor pesquisador principal de Estudos Latino-Americanos no Instituto de Estudos Estratégicos da U.S. Army War College. Seu foco de pesquisa abrange o engajamento da região com atores extra-hemisféricos, bem como o populismo, o crime organizado transnacional, gangues, organizações insurgentes/terroristas, a transformação militar, a questão das forças terrestres e outras questões relevantes para a segurança e a defesa da região e sua relação com os EUA”. https://www.linkedin.com/in/robert-evan-ellis-19a07975/details/experience/
Ellis não é um "acadêmico", mas sim um agente de inteligência em atividade, mobilizado por redes militares e geopolíticas neoconservadoras dos EUA para traçar o perfil de instituições militares e líderes políticos da região e, em seguida, recomendar estratégias para manipular ou neutralizar tais instituições e líderes, visando promover os objetivos políticos daqueles que o orientam. A EIR tem conhecimento em primeira mão de algumas dessas operações, mas diversos artigos publicados por ele, relatando suas visitas a diferentes países, deixam absolutamente claro que ele estava lá em uma missão de inteligência. (Os títulos de alguns desses artigos estão listados na página de sua biografia no Strategic Studies Institute: https://ssi.armywarcollege.edu/Who-We-Are/Faculty-Staff/Article/3356767/dr-r-evan-ellis/)
Seu esforço para se infiltrar como um falso "amigo" em altos escalões militares de diversos países começou antes de sua ida para o U.S. Army College; teve início, pelo menos, durante o período (2009-2014) em que atuou como professor associado no Centro William J. Perry de Estudos de Defesa Hemisférica — vinculado ao Departamento de Defesa e sediado na Universidade de Defesa Nacional, em Washington, D.C.
Ele se orgulha especialmente de ter sido convidado pelo Secretário de Estado Mike Pompeo, durante o primeiro governo Trump, para integrar a Equipe de Planejamento de Políticas do Departamento de Estado por um ano (maio de 2019 a maio de 2020), período em que ficou responsável pelas questões relativas à América Latina e ao Caribe, bem como por temas de narcóticos internacionais e aplicação da lei. "Nessa função, ele foi responsável por ajudar a definir a direção estratégica da política dos EUA para a região", afirma ele em seu perfil no LinkedIn.
Atualmente, ele também atua como pesquisador sênior não residente no Programa para as Américas do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS).
Mais três observações:
1. Ellis apoiou as ações do governo Trump em relação à região, desde a invasão e subsequente ocupação da Venezuela até a farsa do "Escudo das Américas". Sua única ressalva foi um alerta ocasional de que o "estilo" brutal com que essas ações "necessárias" foram conduzidas tem o potencial de se voltar contra os Estados Unidos.
2. Expulsar a China do Porto de Chancay, no Peru — construído e operado por chineses e ponto terminal estratégico da urgentemente necessária ferrovia transcontinental ligando o Atlântico ao Pacífico — tem sido uma obsessão central para Ellis. Ele afirmou, em inúmeros artigos, que os EUA consideram os investimentos chineses em portos da região como um casus belli. Como escreveu em uma monografia de 24 de fevereiro de 2025 para o Army War College ("Rumo a uma contribuição mais eficaz do DoD para a competição estratégica no Hemisfério Ocidental"): "O envolvimento da RPC em questões de segurança na região e a presença física de empresas sediadas na RPC — particularmente em portos e no setor espacial — conferem à República Popular da China opções contra os Estados Unidos durante um possível conflito." https://revanellis.com/toward-a-more-effective-dod-contribution-to-strategic-competition-in-the-western-hemisphere
3. Algumas das entrevistas recentes de Ellis nos podcasts do "John Batchelor Show" bastam para captar o "tom" de suas diatribes contra o governo Lula e o Judiciário brasileiro — devido à "crueldade" destes para com a família Bolsonaro — e de sua defesa veemente dos Bolsonaro, entre outros pontos. Três exemplos: 16 de julho https://audioboom.com/posts/8928770-evan-ellis-analyzes-judicial-cruelty-in-brazil-where-flavio-bolsonaro-is-barred-from-visiting-hi; 18 de junho https://audioboom.com/posts/8918462-the-criminal-landscape-in-venezuela-and-regional-politics-guest-professor-evan-ellis-ellis-det; e 28 de maio: https://audioboom.com/posts/8909227-7-evan-ellis-discusses-legacies-and-alliances-in-brazil-venezuela-and-cuba-where-flavio-bols