INTRODUÇÃO
A situação do cenário geopolítico global vem sendo descrita como uma “Nova Desordem Mundial” (TEIXEIRA, 2026). E ela vem sofrendo uma mutação de escala tectônica nos últimos meses.
A publicação da National Security Strategy (NSS 2025) em dezembro de 2025 e da National Defense Strategy (NDS 2026) em janeiro de 2026 pelo governo Trump não representam apenas uma mudança de administração, mas uma reorientação histórica da projeção de poder dos Estados Unidos. Pela primeira vez desde a formulação da Doutrina Monroe original em 1823, Washington declarou formalmente que o Hemisfério Ocidental é sua prioridade número um de segurança nacional.
Este movimento, apelidado nos círculos diplomáticos de “Doutrina Donroe” ou Trump Corollary, estabelece um ultimato implícito às nações latino-americanas e um desafio direto aos interesses e investimentos de Pequim no hemisfério ocidental.
A pergunta que ecoa entre os analistas é direta: diante de uma pressão americana sem precedentes, que inclui o deslocamento de ativos navais e sanções agressivas, a China estaria disposta a recuar e abrir mão de sua influência na América Latina?
A análise dos fatos, dos documentos oficiais e dos fluxos de capital sugere uma resposta complexa, mas definitiva: a China não está recuando; ela está recalibrando para um aprofundamento estratégico.
A DOUTRINA DONROE: O RETORNO DO BIG STICK
O Trump Corollary materializado na NSS 2025 é explícito ao declarar que os EUA devem ser “preeminentes no Hemisfério Ocidental”. O documento promete “negar a competidores não-hemisféricos a capacidade de posicionar forças ou controlar ativos estrategicamente vitais” na região. Na NDS 2026, a China, que ocupava o posto de “competidor estratégico número um” no Indo-Pacífico, foi deslocada para a segunda posição na hierarquia de ameaças, cedendo o topo para a defesa da pátria e a segurança do entorno regional americano.
A aplicação prática desta doutrina tem sido cirúrgica e coercitiva. Atualmente, 25% da Marinha dos EUA encontra-se concentrada no Caribe. Vimos a captura de Nicolás Maduro na Venezuela, o endurecimento do bloqueio a Cuba e uma pressão asfixiante sobre o Panamá, que resultou na anulação de contratos portuários chineses e na saída da COSCO do Porto de Balboa. Como observou Monica de Bolle (PIIE) em fevereiro de 2026: “A Doutrina Monroe dos tempos modernos de Trump tem um alvo único e claro: a China”.
Entretanto, o retorno à política do Big Stick de Theodore Roosevelt carrega um paradoxo intrínseco. Henrietta Levin (CSIS) aponta que este neo-imperialismo pode ser contraproducente. Ao tratar a região como um espaço de vassalagem obrigatória, Washington corre o risco de empurrar as capitais latino-americanas para uma busca ainda mais desesperada por alternativas de financiamento e parceria que não exijam alinhamento ideológico ou submissão soberana — exatamente o que Pequim oferece.
O 3º POLICY PAPER: A RESPOSTA CHINESA
Enquanto Washington mobiliza frotas, Pequim mobiliza diretrizes. Em 10 de dezembro de 2025, a China lançou seu 3º Policy Paper sobre a América Latina e o Caribe. Com 9.332 caracteres, o documento é significativamente mais denso e ambicioso que suas versões de 2008 e 2016. A estrutura baseia-se em cinco programas fundamentais: Solidariedade, Desenvolvimento, Civilização, Paz e Conectividade.
O Programa Paz é a grande novidade, inserindo pela primeira vez uma agenda de segurança e cooperação policial/militar explícita. O documento afirma categoricamente: “A relação China-ALC não visa nem exclui qualquer terceira parte, nem é subjugada por qualquer terceira parte”. Esta é uma resposta direta e sem sutilezas ao Trump Corollary. Ao oferecer assistência ao desenvolvimento “sem condições políticas”, a China posiciona-se como o “vizinho benevolente” em contraste com o “xerife regional”.
Enquanto a Doutrina Donroe parece ecoar o intervencionismo do início do século XX, o Policy Paper chinês tenta mimetizar a Good Neighbor Policy de FDR e a Alliance for Progress de JFK, focando em infraestrutura crítica, inteligência artificial, semicondutores e o sistema de navegação BeiDou.
OS DADOS: CHINA NÃO ESTÁ RECUANDO
A retórica política é frequentemente desmentida ou confirmada pelos números. No caso chinês, os dados de 2025 e do primeiro semestre de 2026 confirmam a resiliência. O comércio China-ALC ultrapassou a marca de US$ 500 bilhões em 2024. No Brasil, os investimentos chineses em 2025 atingiram US$ 6,1 bilhões, uma alta de 45% em relação ao ano anterior, tornando o país o maior destino global de capital chinês no período.
A natureza do investimento também mudou. A mineração de minerais críticos (níquel e cobre) triplicou, visando a transição energética. No primeiro semestre de 2026, enquanto as importações brasileiras da China cresceram 8% (US$ 38,5 bilhões), o comércio com os EUA despencou 12,8% devido à guerra tarifária de Trump. Como destacou o South China Morning Post em julho de 2026: “A guerra tarifária de Trump está empurrando o comércio do Brasil para a China enquanto a participação dos EUA atinge mínimas históricas”.
PRIORIDADE: O LIMITE DA ESTRATÉGIA CHINESA
Apesar do avanço, é preciso compreender a hierarquia estratégica de Pequim. Henrietta Levin (Brookings) define a América Latina como uma “prioridade ancilar” para Xi Jinping. Isso significa que, embora importante, a região é subordinada aos interesses chineses na Ásia e na África. A ausência de Xi em tours pela região em 2025 e o fato de o Fórum China-CELAC permanecer em nível ministerial corroboram essa tese.
A China está disposta a absorver perdas pontuais na América Latina para evitar um confronto direto que comprometa sua posição no Indo-Pacífico. Contudo, como argumenta a Foreign Policy, os EUA não podem simplesmente “excluir” a China da região. Pequim já está profundamente integrada à infraestrutura digital, matriz energética e sistemas industriais da América Latina. Tentar removê-la à força resultaria em uma vitória de Pirro: Washington poderia retomar o controle político, mas herdaria economias devastadas e tecnologicamente obsoletas.
AS TRÊS OPÇÕES DO BRASIL
O Brasil encontra-se no epicentro desta disputa, possuindo três caminhos estratégicos não excludentes:
1. Bilateralismo Brasil-China: A consolidação de um fato consumado. A China é o maior parceiro comercial desde 2009 e o superávit de US$ 44,8 bilhões em 2025 é o oxigênio das contas nacionais. A parceria em IA e satélites é vital, mas o preço é a hostilidade crescente de Washington.
2. Mercosul + China: A força do bloco. Um acordo comercial coletivo com Pequim é tecnicamente mais vantajoso que os termos oferecidos pela UE ou pelos EUA, mas exige uma coesão interna que o Mercosul raramente demonstra.
3. BRICS: A plataforma multipolar. Com 11 membros e controlando 26% do comércio global, o BRICS oferece ao Brasil um fórum de governança que dilui a pressão binária entre as duas superpotências.
Como defendeu Leonardo Attuch no Global Times (28/07/2026), Brasil e China estão forjando uma nova visão para uma ordem multipolar. A grande vantagem estratégica brasileira é, precisamente, a capacidade de não escolher. O Brasil deve usar cada plataforma para maximizar sua autonomia, tratando a infraestrutura com a China e a segurança regional com os EUA como vetores complementares, e não opostos.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Em que pese não ser sua prioridade mais elevada, a China certamente não vai abrir mão da América Latina. Pequim compreende que a região é uma peça fundamental para negar aos Estados Unidos o conforto de um “lago interior” seguro, forçando Washington a gastar recursos e capital político em seu próprio quintal. O Trump Corollary, ao tentar restaurar a hegemonia pela força e pela tarifa, acaba por acelerar o movimento de diversificação que pretendia conter.
Para o Brasil, o horizonte exige uma diplomacia de Estado, e não de governo. A encruzilhada entre Washington e Pequim não é uma armadilha, mas uma oportunidade para quem possui estratégia, coerência e visão de longo prazo. A soberania brasileira no século XXI será medida pela nossa capacidade de navegar entre o dragão e a águia sem sermos devorados por nenhum deles.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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Autor: Coronel Marco Coutinho in Substack
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Instituto de Altos Estudos de Geopolítica, Segurança e Conflitos-GSEC Análises, estudos e debates sobre geopolítica, defesa, inteligência e segurança.
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