Cinco suspeitos foram identificados e acusados de formação de quadrilha e lavagem de dinheiro, segundo relatos da imprensa.
O Gabinete Nacional Anticorrupção da Ucrânia (NABU) e a Procuradoria Especializada Anticorrupção (SAPO) revelaram a existência de uma organização criminosa suspeita de proteger uma rede de *call centers* fraudulentos e de realizar lavagem de ativos; o esquema seria liderado por um funcionário da Procuradoria-Geral da Ucrânia, informou o NABU.
Vamos relembrar FACTOS:
Em 2023, a corrupção no Ministério da Defesa provocou uma das primeiras grandes crises do governo ucraniano durante a guerra, envolvendo contratos de alimentação, equipamento e fornecimentos militares. O escândalo conduziu a demissões e a uma profunda remodelação da estrutura da Defesa.
Em 2024, continuaram as investigações sobre aquisição de armamento, recrutamento, contratos públicos e enriquecimento ilícito. O problema não estava limitado a funcionários de baixo nível: atingia estruturas superiores do Estado.
Em 2025, a situação tornou-se ainda mais grave. A investigação "Midas", conduzida pelo NABU e pela SAPO, expôs uma alegada rede de corrupção no sector energético envolvendo a estatal Energoatom. Os investigadores apontaram para cerca de 100 milhões de dólares em alegados pagamentos ilícitos. Entre os nomes envolvidos apareceu Tymur Mindich, antigo sócio de Zelensky e uma das pessoas mais próximas do Presidente. O caso atingiu também altos responsáveis governamentais. A investigação envolveu o então ministro da Justiça Herman Halushchenko e outros responsáveis do aparelho estatal. O próprio NABU continua a indicar que milhões de dólares provenientes do esquema de Energoatom foram alegadamente branqueados.
E há outro episódio particularmente importante: em julho de 2025, Zelensky promulgou uma lei que reduzia a independência do NABU e da SAPO, dando maiores poderes ao Procurador-Geral sobre investigações anticorrupção. Depois de enormes protestos internos e forte pressão dos aliados ocidentais, a medida acabou por ser revertida. Isto é politicamente muito mais significativo do que simplesmente descobrir mais um funcionário corrupto. O problema passou a ser também o risco de interferência política sobre as próprias instituições encarregadas de investigar a corrupção.
E chegamos a 2026. Em agosto, surgiram novas investigações envolvendo pessoas ligadas ao gabinete presidencial, incluindo Iryna Mudra, que acabou por ser afastada por Zelensky. E agora, em setembro, surge a investigação na própria Procuradoria-Geral, envolvendo alegadamente uma rede que protegia call centers fraudulentos mediante pagamentos ilícitos. O NABU confirma a existência da investigação e a detenção de um funcionário da Procuradoria-Geral.
Portanto, estamos a falar de uma sequência que atravessa praticamente todo o período da presidência de Zelensky e se agrava durante a guerra.
Mas há uma nuance importante: Não está provado que "Zelensky controla uma rede de corrupção em todos os lugares" ou que ele próprio roubou dinheiro. Isso não está demonstrado pelos casos conhecidos. Mas perante o que se sabe como escapa Zelenky a estar no centro do problema? E como é possível que, durante anos, sucessivos escândalos tenham atingido pessoas próximas do poder, ministérios, defesa, energia, procuradoria e outras estruturas estatais sem que a questão da responsabilidade política seja colocada com muito maior contundência? É aí que a responsabilidade de Zelensky e, sobretudo, dos governos que continuam a financiar Kiev deve ser discutida.
E existe uma questão particularmente poderosa: as próprias instituições anticorrupção ucranianas são frequentemente as responsáveis por descobrir estes casos. Isso demonstra que existem mecanismos de investigação que funcionam, mas simultaneamente revela a dimensão do problema que esses mecanismos continuam a encontrar. O NABU, por exemplo, registou centenas de novos processos e dezenas de suspeitos e condenações apenas no primeiro semestre de 2026.
E aqui entra diretamente a responsabilidade da UE, Os dirigentes europeus não estão a financiar a Ucrânia com dinheiro pessoal. Estão a comprometer recursos públicos provenientes dos orçamentos nacionais e do orçamento europeu - portanto, em última análise, dinheiro dos contribuintes europeus. Isso cria uma obrigação política elementar: quanto maior o financiamento, maior deve ser a exigência de prestação de contas.
Não basta Bruxelas dizer que existem mecanismos de fiscalização. A pergunta que os cidadãos europeus têm direito de fazer é: Quanto dinheiro foi enviado? Para quem? Para quê? Através de que contratos? Quem foram os beneficiários finais? Quanto foi auditado? Quanto foi considerado irregular? Quanto foi recuperado? E quem foi responsabilizado? E essa prestação de contas deveria abranger não apenas o dinheiro que será enviado amanhã, mas todo o dinheiro que já foi enviado desde 2022.
Não digo que se deva concluir automaticamente que todo o dinheiro europeu foi roubado - isso seria uma acusação sem prova. Defendo algo muito mais simples e difícil de contestar: um Estado que recebe dezenas de milhares de milhões de euros dos contribuintes europeus tem de aceitar uma fiscalização extraordinariamente rigorosa desses recursos. E se determinadas verbas não forem devidamente justificadas, o financiamento subsequente deve ser suspenso até à regularização.
Há ainda uma questão mais concreta: Durante anos, muitos governos europeus apresentaram a Ucrânia como um Estado que estava simultaneamente a combater a Rússia e a fazer uma transformação democrática e institucional profunda. Mas os casos acumulados obrigam a colocar uma pergunta: até que ponto a UE está a financiar apenas a defesa da Ucrânia e até que ponto está também a sustentar estruturas políticas e administrativas cuja transparência continua seriamente questionável?
Essa pergunta não é "pró-russa". Não é "anti ucraniana". É uma pergunta de responsabilidade democrática europeia. Aliás, a existência de corrupção também prejudica diretamente os próprios ucranianos: enquanto cidadãos comuns sofrem as consequências da guerra, redes instaladas em sectores estratégicos podem enriquecer através de contratos públicos, energia, defesa ou influência política.
Por isso, eu colocaria a questão de forma mais frontal: A UE não pode continuar a comportar-se como um financiador sem limite nem memória. Antes de autorizar novos milhares de milhões para a Ucrânia, os governos europeus devem exigir uma auditoria integral, independente e pública da utilização das verbas anteriormente entregues. E onde existam irregularidades graves ou ausência de prestação de contas, o financiamento deve ser congelado até que haja explicações e responsabilização. Trata-se de respeitar os cidadãos europeus que pagam a conta. Os dirigentes europeus administram dinheiro público; não distribuem dinheiro próprio. E, numa democracia, quem administra dinheiro dos cidadãos tem de prestar contas aos cidadãos.
João Gomes in Facebook