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Eu acampei!
Mário Nogueira: Decidi escrever estas linhas com o objetivo de incentivar aqueles que lutam na rua pelo direito à habitação a não desistirem e de apelar às forças de segurança que sejam isso mesmo e não forças de repressão
Publicado em 02/11/2026 18:00
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Crédito da foto: Frenprof

 

Eu acampei. Não me refiro aos acampamentos dos escuteiros, em que também participei, nem tão pouco àqueles que, em período de férias, a juventude convidava, a coluna suportava e a carteira agradecia. Nada disso. Acampei durante alguns dias, com outros colegas, em frente às instalações do Ministério da Educação, em protesto pelo bloqueio negocial imposto pelo ministro de então. Foi entre 10 e 13 de janeiro de 2023. 

Ninguém nos proibiu de acampar, de cantar, de reunir, de aprovar posições, de gritar palavras de ordem ou de dar entrevistas para órgãos de comunicação social fosse à uma ou às seis da manhã. Encomendámos uma grande panela de sopa, comemos o que cada um levava e o que nos era oferecido por gente que aparecia com arroz doce, empadas, entre outros miminhos que partilhámos com pessoas que eram alheias ao acampamento, mas passavam a noite connosco. Era o caso de agentes da PSP que ali permaneciam para garantir a nossa segurança, como nos informaram. 

Eu sei que, para alguma gente, sou um tipo estranho, pois, após o acampamento, percorri o País, distrito a distrito, juntando-me aos milhares de professores que, entre 16 de janeiro e 8 de fevereiro, percorreram as ruas das capitais de distrito, ocupando-as ao longo da manhã, para se juntarem em enormes concentrações nas maiores praças daquelas cidades. Em 11 de fevereiro, ainda de 2023, desfilei na cabeça da maior manifestação de educadores e professores realizada no País, em 2 e 3 de março voltei a juntar-me aos professores em greve e, no dia seguinte, estive presente nas manifestações realizadas no Porto e em Lisboa. 

Como tudo isto ia sendo insuficiente, regressámos às greves e manifestações distritais que, durante a manhã, cortaram trânsito em algumas das principais artérias das respetivas capitais. Voltei a dar a volta a Portugal, distrito a distrito, entre 17 de abril e 12 de maio, e a apelar à continuação da luta nas grandes concentrações com que se fechava cada jornada. Integrei a caravana de protesto que percorreu a EN2 entre 22 e 30 de maio com paragem nas escolas que ficavam na rota da viagem. 

Até aqui, a “rua” já tinha conseguido o recuo do Ministério em relação a algumas das propostas mais negativas que apresentara para o novo regime de concursos para colocação de docentes, mas ainda faltava algo muito importante: a recuperação do tempo de serviço que tinha sido roubado nos períodos de congelamento da carreira e que, naquela altura, era de 6 anos 6 meses e 23 dias. Nem a propósito, o calendário presenteava-nos com um dia extraordinário: 6-6-23. Os professores não deixaram fugir a oportunidade e voltaram a fazer uma grande greve naquela data que tinha uma fortíssima carga simbólica, face ao objetivo ainda não alcançado. 

A par da luta na rua, apresentámos propostas concretas, reunimos com decisores políticos, promovemos conferências de imprensa… nunca desistimos. 

Tudo isto teve efeito e foi de tal ordem que todos os partidos se comprometeram com a devolução do tempo de serviço, mesmo os que antes o tinham negado. A ação desenvolvida, em particular a que teve expressão de rua em dias de semana e em horários alegadamente proibidos (pelo menos na cabeça de alguns) foi eficaz e a recuperação do tempo de serviço que tinha estado congelado aconteceu não como dádiva do novo governo, mas porque a luta a tal obrigou. 

Decidi escrever estas linhas com o objetivo de incentivar aqueles que lutam na rua pelo direito à habitação a não desistirem e de apelar às forças de segurança que sejam isso mesmo e não forças de repressão. Tem ainda o objetivo de instar todos os que lutam pelo direito à habitação a juntarem-se a lutas que vão além desse justíssimo objetivo e passam pela exigência de melhores salários e pensões, pelo protesto contra o aumento do custo de vida e, ainda, pelo direito a uma Educação pública para todos, de qualidade e inclusiva, por um Serviço Nacional de Saúde capaz de responder às necessidades de quem vive no País e por uma Segurança Social pública e universal. Ações não faltam, como confirma a agenda divulgada pela CGTP no passado dia 29 de outubro. 

Só com luta que dê a cara na rua será possível alterar políticas que vão contra os interesses e direitos das pessoas. Esta é a opinião de um tipo que alguns consideram estranho porque se mantém ao lado de quem trabalha ou trabalhou, dos portugueses e dos imigrantes, das famílias seja qual for a sua composição, que defendeu a regionalização, o direito ao aborto e a aprovação da eutanásia, que sai à rua ostentando a bandeira do Povo que está a ser vítima de genocídio no Médio Oriente e que considera que a via do neoliberalismo seguida pela Europa não é solução para os problemas económicos e sociais. 

Tenho a certeza que, como cantam os Xutos, eu não sou o único, mais, tenho a certeza de que somos muitos mais do que os resultados das eleições, ultimamente, têm deixado transparecer. Mas vai mudar, estou convicto. Sejamos resilientes, como agora se diz. 

 

 

Autor: Mário Nogueira - Membro do Conselho Nacional de Educação



Texto publicado originalmente em: https://visao.pt/opiniao/ponto-de-vista/2026-11-02-eu-acampei-opiniao-de-mario-nogueira/

 

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