Uma agenda além do protocolo
Fontes diplomáticas indicam que a viagem foi precedida por uma troca de cartas entre o presidente iraniano Masud Pezeshkian e bin Salman, o que indica que a normalização das relações entre as duas potências regionais avança apesar das pressões externas. Isso ocorre enquanto os Acordos de Abraham — antes considerados o início de uma nova era de cooperação árabe-israelense — enfraquecem após a ofensiva israelense em Gaza, que provocou condenações internacionais e o distanciamento público dos Estados signatários. Assim, a visita reflete um cenário regional transformado, com a hegemonia dos Estados Unidos cada vez mais questionada e o surgimento de novas alianças centradas na autonomia estratégica.
Negociações para a próxima década
Para além do cerimonial, esperam-se negociações destinadas a moldar a arquitetura de segurança regional para a próxima década. De acordo com centros de estudo iranianos, Washington busca três objetivos: garantir um aumento da produção petrolífera saudita, conter a influência chinesa na região e reativar as conversações de normalização com Israel, atualmente paralisadas pelo genocídio em Gaza.
No entanto, a posição saudita mudou. Riade já não está disposta a sacrificar os seus interesses nacionais nem a sua credibilidade regional por uma aliança com Washington que hoje traz menos benefícios estratégicos. O massacre em Gaza abriu uma profunda brecha entre a Arábia Saudita e o Ocidente, obrigando o reino a recalcular as suas alianças tradicionais.
Os Acordos de Abraão partiam do princípio de que a normalização com Israel traria dividendos económicos e de segurança aos signatários árabes. As ações de Israel em Gaza evidenciaram os limites desse quadro. Os Emirados Árabes Unidos e o Bahrein foram obrigados a criticar publicamente Israel devido à pressão interna, o que mina a ideia de que os Acordos poderiam marginalizar a questão palestiniana. Para a Arábia Saudita, a normalização é agora vista como um custo político insustentável. Qualquer aproximação a Israel dependerá de uma solução para a Palestina e de garantias de segurança por parte dos Estados Unidos, que no contexto atual parecem inatingíveis.
A visita de MBS a Washington
Um dos anúncios mais destacados da visita de Bin Salman foi a assinatura de novos acordos de defesa e cooperação tecnológica entre Washington e Riade. Os Estados Unidos aprovaram a venda de caças furtivos F-35 à Arábia Saudita, uma medida que, longe de representar apenas uma modernização militar, introduz um elemento de desequilíbrio estratégico na região. A transferência de aviões de quinta geração para um Estado já envolvido em múltiplos conflitos projeta mais confronto do que segurança coletiva.
A este pacote soma-se a entrega de até 300 tanques Abrams e a designação da Arábia Saudita como «aliado importante fora da OTAN», um estatuto que facilita o acesso a tecnologias militares sensíveis e consolida a dependência saudita do complexo militar-industrial norte-americano. Vários analistas regionais apontam que esta dinâmica não fortalece a estabilidade, mas empodera um ator cuja política externa tem se mostrado oscilante e predisposta à escalada.
No domínio nuclear, Washington e Riade avançaram para um acordo de cooperação civil de longo prazo. Embora seja apresentado como um pacto sujeito a rigorosos padrões de não proliferação, os Estados Unidos reservam-se a prioridade de participar no desenvolvimento do programa nuclear saudita, integrando o reino na sua órbita tecnológica e económica. No entanto, persiste um ponto crítico: a recusa saudita em aceitar limitações absolutas sobre o enriquecimento de urânio ou o reprocessamento, duas áreas que, sem uma supervisão clara, poderiam abrir espaço para ambiguidades estratégicas.
Este pacote — F-35, tanques e cooperação nuclear — não é entendido apenas como um acordo técnico, mas como parte de uma tentativa dos Estados Unidos de consolidar um novo quadro de alianças na Ásia Ocidental. Embora Riade pretenda apresentá-lo como um passo em direção à «autonomia estratégica», a crescente militarização saudita obriga os países vizinhos, incluindo o Irão, a acompanhar atentamente esses movimentos e reforçar as suas próprias garantias de segurança.
O fator iraniano e o canal de diálogo
Antes de viajar para Washington, bin Salman teria recebido uma carta pessoal do presidente Pezeshkian. Embora o seu conteúdo não tenha sido divulgado, especula-se que ela ressalta a consolidação de um entendimento estratégico entre os dois Estados, enfatizando a necessidade de um diálogo direto sem interferências externas, especialmente em matéria de coordenação energética e segurança regional.
Esta troca sugere que a aproximação iniciada com o acordo de Pequim em 2023 poderá estar a entrar numa fase mais substantiva. Os analistas consideram-na um sinal de um novo eixo regional com maior independência face às pressões ocidentais. O Irão e a Arábia Saudita criaram grupos de trabalho sobre segurança marítima, estabilização do Iémen e coordenação energética, dando prioridade ao pragmatismo em detrimento da ideologia. Manter este canal representa um contrapeso à tradicional dependência de Washington, especialmente num momento em que os Estados Unidos são vistos como um parceiro menos fiável devido à sua postura incondicional em relação a Israel.
Gaza e o ponto de inflexão saudita
A ofensiva israelita em Gaza alterou profundamente o cálculo estratégico saudita. A incapacidade ou falta de vontade de Washington para detê-la minou a sua credibilidade como garante da estabilidade regional. A Arábia Saudita passou de um distanciamento cauteloso para uma condenação explícita de Israel, refletindo as pressões internas e a necessidade de manter a sua relevância regional. «Não pode haver relações normais [com Israel] enquanto continuar a ocupação e o derramamento de sangue na Palestina», afirmou o ministro dos Negócios Estrangeiros saudita, Faisal bin Farhan.
A crise humanitária fortaleceu a opinião pública árabe contra as posições abertamente pró-Israel, o que obrigou a reavaliar os Acordos de Abraão, que agora se revelam insuficientes face à realidade política e moral da região. «A guerra em Gaza enterrou a ideia de que os interesses árabes e israelitas podem alinhar-se sem uma solução justa para a Palestina», afirmou o Carnegie Middle East Center.
Rumo a um novo equilíbrio regional?
Talvez o mais significativo seja o surgimento do que alguns analistas chamam de «triângulo estratégico Riade-Teerã-Pequim». A reconciliação de 2023, facilitada pela China, revelou o declínio da influência dos EUA e abriu as portas para uma nova arquitetura de segurança, na qual sauditas e iranianos buscam maximizar a sua autonomia estratégica. Washington enfrenta um dilema existencial: precisa da cooperação saudita para estabilizar os preços do petróleo e conter a China, mas já não pode oferecer as garantias de segurança que sustentaram a relação durante décadas.
A mudança é visível em várias frentes: a Arábia Saudita está a diversificar os seus fornecedores de armas, aumenta a sua participação em fóruns regionais onde o Irão tem influência e Teerão responde de forma calibrada aos ataques israelitas na Síria. A recente entrada do Irão na Organização de Cooperação de Xangai reforça a sua alternativa estratégica ao guarda-chuva ocidental.
Implicações económicas e energéticas
No plano económico, a Arábia Saudita — como líder da OPEP+ — deve equilibrar as suas necessidades fiscais com a pressão dos Estados Unidos para aumentar a produção e conter os preços, sem perder credibilidade como ator independente. As sanções à Rússia e as restrições às exportações iranianas complicam um mercado em que as decisões sauditas afetam diretamente a economia global. A cooperação energética com Teerão intensifica-se apesar das sanções, e qualquer acordo petrolífero com Washington exigirá concessões tecnológicas ou de segurança.
O futuro da dinâmica triangular
Analistas iranianos prevêem um modus vivendi em que a Arábia Saudita manterá sua aliança com os Estados Unidos, mas diversificará progressivamente suas alianças estratégicas, ganhando margem de manobra no contexto da rivalidade entre grandes potências. O diálogo contínuo com o Irão funciona como uma válvula de segurança estratégica. «O que começou como pragmatismo tornou-se uma necessidade: nem Riade nem Teerão podem permitir-se uma confrontação aberta», afirmam especialistas do Centro de Diálogo Estratégico de Teerão.
Para os Estados Unidos, isso implica aceitar uma relação mais transacional com a Arábia Saudita, centrada no petróleo e na contenção do Irão, enquanto os Acordos de Abraão permanecem em suspenso. A China consolida o seu papel como mediadora e garantidora da segurança económica, enquanto o Irão mantém a sua relevância regional.
Conclusão: rumo a um novo equilíbrio
A visita de bin Salman a Washington marca um ponto de inflexão na Ásia Ocidental. O genocídio em Gaza está a catalisar um processo em que a hegemonia americana se desvanece e surgem alternativas de segurança. O diálogo direto entre Riade e Teerão simboliza uma nova ordem multipolar em que as lealdades são contingentes e os acordos, temporários. A suposta carta de Pezeshkian reflete essa maturação estratégica regional: os Acordos de Abraão — antes vistos como uma mudança de paradigma — mostram agora a sua insuficiência diante da resistência palestiniana e da crescente autonomia das potências regionais.
A região avança para um futuro em que a cooperação e a concorrência coexistirão num equilíbrio frágil, definido por interesses nacionais mais do que por diretrizes externas.
Autor: Xavier Villar
Publicado originalmente em https://www.hispantv.com/noticias/arabia-saudi/635182/visita-bin-salman-washington-orden-regional