No século XXI, quando os sistemas de saúde deveriam valorizar e utilizar todas as vocações médicas disponíveis, surge um paradoxo doloroso no Líbano: muitas enfermeiras palestinas, com diplomas acadêmicos e anos de formação, veem seu direito fundamental de exercer a profissão frustrado por decisões legais e administrativas que as excluem do mercado de trabalho.
A enfermagem, profissão dedicada ao cuidado da vida humana, exige dedicação, esforço e comprometimento. No entanto, mudanças recentes na legislação libanesa tornaram drasticamente mais difícil para as enfermeiras palestinas obterem permissões de trabalho, principalmente em hospitais privados, eliminando condições que antes permitiam a renovação da licença e adicionando requisitos quase impossíveis de cumprir.
Uma enfermeira que se formou com honras, tendo dedicado anos à sua formação, relata como, ao concluir seus estudos e iniciar sua formação profissional, foi rejeitada unicamente por causa de sua nacionalidade, apesar de ter nascido no Líbano e ter laços familiares com o país. Esta situação, mais do que um caso isolado, reflete um padrão de discriminação estrutural que mina a dignidade e as oportunidades de uma parcela significativa da população palestina no Líbano.
Vozes da sociedade civil e da academia apontam que as leis vigentes e sua implementação praticamente impedem o acesso de profissionais palestinos à área da saúde, contradizendo as reais necessidades do sistema de saúde libanês e os padrões internacionais de direitos trabalhistas sem discriminação.
Este caso não se trata apenas de um problema legislativo ou administrativo isolado, mas sim de parte de um contexto mais amplo de restrições trabalhistas enfrentadas por refugiados palestinos no Líbano. Historicamente, eles têm sido classificados como “não nacionais”, apesar de muitas gerações terem nascido e crescido no país, e esse status legal agora limita seu acesso a empregos dignos, serviços sociais completos e segurança econômica. O paradoxo é evidente: enquanto o Líbano enfrenta uma crise de saúde pública e uma escassez de profissionais de saúde qualificados, as portas se fecham para aqueles que desejam e são capazes de cuidar da população, simplesmente devido ao status legal e à discriminação institucional. Essa contradição prejudica não apenas os enfermeiros palestinos, mas a sociedade como um todo.
A justiça social exige que essas políticas sejam revistas e que as barreiras discriminatórias sejam eliminadas. Reconhecer o direito ao trabalho para enfermeiros palestinos não é apenas um ato de justiça, mas também uma decisão pragmática para fortalecer os sistemas de saúde do Líbano e avançar rumo a sociedades mais inclusivas e humanas.
União Palestina da América Latina – UPAL
17 de janeiro de 2026