Offline
MENU
O sequestro de Nicolas Maduro e o niilismo da incoerência
Publicado em 19/01/2026 21:04 • Atualizado 19/01/2026 21:19
Novidades

 

No dia 3 de Janeiro de 2020, durante o seu primeiro mandato, o presidente dos Estados Unidos da América, Donald Trump, ordenou o assassinato do general iraniano Qassem Soleimani, quando este se encontrava em visita diplomática ao Iraque. No mesmo ataque, por meio de um drone, foi morto igualmente o vice-comandante das forças de mobilização do Iraque, Al-Muhandis. Ambos não eram líderes socialistas, não tinham governado nenhum país sul-americano, não tinham ``fraudado´´ eleições, não tinham nenhuma acusação de tráfico de drogas, os seus países não tinham declarado guerra aos EUA e muito menos carregavam sob suas sombras o cliché de ``ditadores´´.

 

Volvidos seis anos, exactamente a 3 de Janeiro de 2026, o mesmo Donald Trump ordenou o sequestro do presidente legítimo da República Bolivariana da Venezuela, Nicolas Maduro, e de sua esposa, a primeira-dama Cília Flores, por meio de um ataque que causou a morte de mais de 100 pessoas, dentre elas militares e civis venezuelanos e combatentes cubanos, que tombaram enquanto serviam dignamente na guarda presidencial daquele país.

 

Como era previsível, a internet, nesta era da pós-verdade, deu-nos a conhecer a verdadeira matéria-prima de que são feitos pseudo-alquimistas, cujos discursos públicos têm sido travestidos da aparência de guardiões da ``democracia´´, operadores do institucionalismo, garantes dos direitos e representantes de uma dita sociedade civil que reside no cume da superioridade moral.

 

A natureza de determinadas reacções no debate público (principalmente angolano), face ao significado do acto praticado pelos EUA contra a Venezuela, não coloca apenas em causa a classificação de intelectualidade até então atribuída a certos actores, como também revela laivos de um certo activismo político esquizofrénico, irracional e anticientífico, que, através de mentiras, propagação da ignorância e da falta de ética, tem constituído um canalizador de frustrações derivadas de factores específicos do contexto político interno de Angola.

 

O quadrante internacional não é movido por eventos regidos por alguma força do acaso, desconectada de antecedentes históricos. Pronunciamentos sobre um determinado facto da política internacional devem necessariamente estar sustentados com o domínio da história e do conhecimento de geopolítica.

 

A resenha histórica que se impõe

 

É sobejamente sabido que, em tempos de guerra híbrida contra governos, países ou personalidades que ousam defender a própria soberania contra as apetências do imperialismo, inclusive a internet acaba por ser convertida em arma contra a verdade e contra quem for classificado rebelde. Ainda assim, quem tem interesse profundo em buscar a luz pode, com abnegação e autodidactismo, encontrar fontes credíveis e esclarecedoras sobre os factos na Venezuela, como é o caso de alguns intelectuais, académicos, jornalistas e pesquisadores, que vivem, viveram, estudam ou frequentam a Venezuela há mais de meio século, têm décadas de interacção com personalidades da sociedade venezuelana, entrevistaram vários dirigentes locais, inclusive diversos Presidentes da República, e têm um claro domínio da realidade, como é o caso de Luis Bonilla-Molina, Haiman El Troudi, Breno Altman, Atilio Borón, Ignacio Ramonet, Carla Ferreira, Paulo Moreira Leite, Euzamara de Carvalo, Desmond Fonseca, Margarita López Maya, Luis Lander, Mario Sanoja Obediente, Iraida Vargas-Arenas, Ana Júlia Bozo de Carmona, dentre muitos outros.

 

A Venezuela é um país que nasce de uma história de mais de 200 anos de lutas de classe. Durante o período prévio ao fim da colonização espanhola, dois grupos principais digladiavam-se pela independência, porém, com pretensões distintas. De um lado estavam os Conservadores – grupo composto por latifundiários e maioritariamente descendentes de espanhóis, porém representantes da oligarquia rural, cuja motivação para a independência era o fim do pagamento de impostos a Espanha. Para estes conservadores, a independência pressupunha que as oligarquias agrárias substituíssem os espanhóis na governação da Venezuela.

 

Do lado oposto aos conservadores estava um outro grupo composto por vários sectores da sociedade civil, dentre eles pequenos burgueses, profissionais independentes, alguns camponeses e trabalhadores urbanos. Este grupo ficou designado como ``Liberais´´ (na classificação do século XIX). Ao contrário dos Conservadores, os Liberais eram compostos por diversas alas e pretendiam a independência, o fim da escravatura, conquistas sociais e um modelo de libertação do império espanhol baseado na emancipação popular. É numa das facções deste segundo grupo que aparece Simón Bolívar.

 

Representando a antítese da oligarquia latifundiária, que pretendia a independência visando a sua ascensão como classe dominante na Venezuela sem a efectivação de uma ruptura com o poder colonial, Simón Bolívar, intelectual e filho das elites de Caracas, liderou a luta pela descolonização do império espanhol, defendendo a construção de uma Pátria Grande sem escravos, sem pessoas exploradas, um país que integrasse e que beneficiasse todos, assente nos princípios da liberdade e da emancipação das populações marginalizadas. Sem desprimor para outros grandes líderes que o antecederam, como por exemplo Tupac Amaru II e a sua Grande Rebelião no século XVIII, Simón Bolívar torna-se no símbolo da revolução das camadas desfavorecidas e das independências de vários países da América-latina.

 

Uma vez derrotada a colonização espanhola, o sonho de Bolívar da construção da Grã-Colômbia – a pátria da integração de todos e para todos – fracassou depois de ter sido traído por dois dos seus generais, Santander e Páez. O território libertado foi desintegrado no que hoje conhecemos como Colômbia, Equador, Panamá e Venezuela, tendo os mesmos traidores entregue o controlo destes países às oligarquias Conservadoras, todas elas vinculadas aos interesses dos EUA e da Europa ocidental.

 

O domínio das oligarquias sobre a governação da Venezuela estendeu-se por mais de um século. As diversas fazes, transformações e eventos históricos sucederam-se neste país durante mais de um século de governação e disputas entre a oligarquia Conservadora e a oligarquia Liberal burguesa, desde a era da predominância do potencial agrário, o início da exploração em grande escala do petróleo venezuelano, em 1914, o surgimento de elites capitalistas assentes na concentração da renda do petróleo nas mãos de uma minoria, o abandono da agricultura e de outros sectores produtivos como consequência da ilusão gerada pelos lucros do petróleo, a doença holandesa venezuelana, a burguesia que vivia da importação, as crises políticas e sociais dos anos 40 e os sucessivos golpes de Estado (Rómulo Bello, em 1945, Marcos Pérez Jiménez, em 1948), a nacionalização da indústria do petróleo, por Carloz Andréz Pérez em 1970, a crise de 1976 e anos seguintes, etc.. Estes e tantos outros factos determinaram a caracterização económica e social da Venezuela como um país desigual, com profundas assimetrias.

 

O Pacto de Punto Fijo, em 1958, que consistiu na confirmação da aliança para a captura e partilha do poder entre as elites Conservadoras e Liberais representadas pelas forças políticas AD, COPEI e URD, é um dos maiores símbolos de séculos de captura do Estado venezuelano pelas elites neocolonizadoras de direita, em cuja lista de presidentes constam dezenas de verdadeiros ditadores (estes sim) e sanguinários. Durante mais de um século de história, a Venezuela nunca foi governada por nenhum comunista ou socialista. Hugo Chávez ascende ao poder apenas em 1999.

 

Hugo Chávez

 

Em finais dos anos 70 emerge no interior das forças armadas venezuelanas uma corrente de consciência nacionalista que evoluiu até aos anos 80. Em 1982, um grupo de oficiais de nível médio funda o Movimento Bolivariano Revolucionário (MBR), sob a liderança de Hugo Chávez e inspirado nos ideais de Simón Bolívar.

 

Carlos André Pérez (CAP), então presidente da Venezuela, em obediência ao FMI, introduziu um programa neoliberal, que consistiu, dentre outras medidas de austeridade, na liberalização da taxa de câmbio e na desvalorização da moeda, o que resultou em desemprego, inflação e numa crise económica que deteriorou de forma brusca o nível de vida dos cidadãos. Multidões saíram às ruas em protesto e a repressão do exército causou milhares de mortos, num evento que ficou conhecido como Caracaço.

 

O Caracaço foi o ponto de viragem para a consciência de Hugo Chávez. Os princípios bolivarianos consistem na protecção do povo. Logo, os massacres protagonizados pelo exército às ordens de Carlos André Pérez representaram o momento de ruptura.

 

A 4 de Fevereiro de 1992, Hugo Chávez, liderando 300 soldados, protagonizou uma tentativa de golpe de Estado para destituir Carlos André Pérez. O golpe fracassou e Hugo Chávez foi detido. Porém, a imagem de Chávez foi catapultada e granjeou a mais alta admiração junto das populações.

 

Em 1993, Carlos André Pérez foi destituído pelo Tribunal Supremo e detido por crime de peculato. Depois de libertado e submetido a outro julgamento, o político neoliberal fugiu para os EUA.

 

Hugo Chávez foi amnistiado por Rafael Caldera Rodriguez, depois de cumprir dois anos de prisão. Chávez afastou-se do exército e decidiu abraçar a política. Em 1997, fundou o Movimento Quinta República (MVR) com o qual, em 1998, concorreu as eleições e foi eleito presidente da Venezuela.

 

Chávez governou a Venezuela durante 14 anos, tendo, com o respaldo da vasta maioria dos cidadãos, operado transformações que nunca tinham ocorrido no país em quase 200 anos – o empoderamento das classes trabalhadoras e das camadas desfavorecidas da sociedade venezuelana. Logicamente, as oligarquias nacionais profundamente vinculadas aos EUA espoletaram todos os mecanismos possíveis e imaginários no sentido de frenar a Revolução Bolivariana e lograr a recuperação do poder para as elites Conservadoras e Liberais.

 

A vitória eleitoral de Hugo Chávez representou, desta forma, o fim da aliança bipartidária entre as oligarquias Conservadoras e Liberais, que durante mais de um século dominaram a política, a economia e as instituições venezuelanas, cujo símbolo evidente foi o Pacto de Punto Fijo de 1958. A ascensão de Hugo Chávez ao poder, um descendente de indígenas americanos, constituiu, para as elites descendentes de escravocratas e colonizadores, um acto de insolência e rebeldia que despertou o mais profundo ódio contra a Revolução Bolivariana e contra o chavismo.

 

As agressões das oligarquias contra as reformas de Hugo Chávez foram tão violentas, que, para além de anos de tumultos e sabotagens, protagonizados pela oposição de extrema-direita com a participação da CIA1 no sentido de tornar a Venezuela ingovernável, Chávez chegou a sofrer um golpe de Estado em 2002, ao qual sobreviveu, tendo, três dias depois, sido reconduzido ao poder por sectores nacionalistas das Forças Armadas e por um oceano de população que inundou o palácio presidencial para proteger o seu líder.

 

Hugo Chávez morreu em 2013. A causa da morte foi supostamente um câncer que o acometeu repentinamente e de forma estranha. Numa entrevista concedida pelo presidente Nicolas Maduro, em Março do mesmo ano, o dignatário teria revelado que o câncer havia ultrapassado todas as características regulares da referida doença. O mesmo foi categórico em acrescentar que ``a doença não era natural, mas sim infligida pelos inimigos históricos´´.

 

O chavismo

 

O chavismo simboliza a emancipação dos pobres, da classe trabalhadora, dos indígenas e dos afrodescendentes.

 

Quando Hugo Chávez ascendeu ao poder, em 1999, a pobreza na Venezuela era de 49,4%. Em 2010, dez anos depois da ascensão do governo chavista, a pobreza caiu para 27,8%. O desemprego caiu de 18%, em 2003, para 6%, em 2012. A diferença entre os salários mais altos e os mais baixos foi reduzida a 50%. No mesmo período, a UNESCO declarou o fim do analfabetismo na Venezuela e a República Bolivariana foi colocada pela FAO no ranking dos dez países com o melhor nível de alimentação do mundo.

 

Em 1999, quando Hugo Chávez ascendeu ao poder, o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da Venezuela era de 0,695 pontos, o que representava uma deterioração face ao ano anterior, 1998, quando era de 0,697. Em 2013, decorridos 14 anos de implementação da Revolução Bolivariana, ano em que ocorre a morte física de Chávez, o IDH da Venezuela era de 0,771 pontos, traduzindo uma melhoria em relação ao ano de 2012, em que era de 0,769 pontos, o que representava uma tendência ascendente do IDH do país sob o governo chavista. Nos anos seguintes, esta realidade foi sendo afectada com o início da guerra híbrida contra o governo de Maduro.

 

Durante o período em que a Venezuela foi governada pela aliança bipartidária das oligarquias Conservadoras e Liberais, parte considerável das receitas arrecadadas com a produção do petróleo eram repatriadas principalmente pelas empresas petrolíferas dos EUA. A outra parte alimentava os privilégios dessas mesmas elites afectas ao pacto bipartidário de mais de meio século. Essa elite privilegiada era uma minoria que se contentava com as ``migalhas´´ deixadas pelas multinacionais ocidentais, que em parte serviam para a manutenção da lealdade das referidas oligarquias nacionais face aos interesses das empresas e capitalistas norte-americanos na Venezuela. Enquanto isso, as preocupações e necessidades das classes desfavorecidas (que são a vasta maioria da população) eram simplesmente ignoradas e invisibilizadas.

 

Até ao último dia do mandato de um governo da elite conservadora, no caso a presidência do conservador Rafael Caldera, antecessor de Hugo Chávez, existiam cidadãos venezuelanos que nunca tinham visto um médico. Para o movimento bolivariano tratava-se de uma situação inconcebível. O governo chavista reformulou os mecanismos de administração do sector petrolífero e suas receitas (com a reforma na PDVSA no centro do processo), tendo com os referidos fundos implementado um programa abrangente de resolução dos problemas de acesso à saúde, educação, habitação, ciência, cultura e melhoria da qualidade de vida das classes mais desfavorecidas. Mas além de uma redistribuição de renda, a Revolução Bolivariana estava comprometida com o pagamento de uma dívida histórica.

 

As reformas sociais introduzidas pelo chavismo fortaleceram a lealdade da vasta maioria da população venezuelana às causas da Revolução Bolivariana, mas, ao mesmo tempo, despertaram o ódio de classe das elites oligárquicas, que já vinham experimentando crises financeiras e prejuízos sucessivos desde finais dos anos 70, agravadas pelo desastroso governo austericida de Carlos André Pérez, em 1992, e por terem perdido o poder político em 1999. O compromisso do chavismo em ousar emancipar as camadas sociais excluídas pelas décadas de controlo governativo do pacto bipartidário e em utilizar as receitas geradas pelo petróleo para este fim é a questão de fundo dos vinte e cinco anos de guerra híbrida contra tudo que a Revolução Bolivariana representa.

 

Nicolas Maduro

 

 

O caminho que conduziu Nicolas Maduro à presidência podia ser designado como o triunfo da lealdade.

 

Quando, em 1992, Hugo Chávez tentou derrubar Carlos André Pérez depois do massacre de milhares de civis durante o Caracaço, Nicolas Maduro era um cidadão comum, um motorista de autocarro que comungava da luta de Chávez.

 

Durante os dois anos em que Chávez esteve detido na prisão de Yare, Nicolas Maduro foi seu fiel visitante, tendo sido nestas idas e vindas ao referido estabelecimento penitenciário onde se encontrava o Comandante, que Maduro conheceu a renomada Advogada Cília Flores, que era a defensora de Hugo Chávez, que mais tarde viria a tornar-se sua esposa.

Foi durante a primeira incursão eleitoral de Hugo Chávez depois da prisão, quando percorria a Venezuela levando o seu programa revolucionário até ao povo, que Nicolas Maduro se tornou guarda-costas de Chávez. Anos depois, dentre o ciclo de revolucionários que formaram o núcleo central do chavismo próximo de Hugo Chávez, Nicolas Maduro era o menos preparado intelectualmente e o substituto mais improvável. Porém, para além da lealdade, Chávez apreciava as habilidades interpessoais de Maduro e considerava-o um verdadeiro revolucionário.

 

Depois da morte de Chávez, os opositores internos e externos da Revolução Bolivariana estavam certos de que era o momento exacto para a intensificação da luta pelo poder através da antipolítica, porque acreditavam que, não tendo Maduro o mesmo carisma de Hugo Chávez, era apenas uma questão de tempo e o chavismo desmoronar-se-ia. Criam que Maduro não aguentaria a pressão.

 

A arma secreta que jogava a favor de Maduro é que sempre foi subestimado pela oposição, pelo facto de não possuir formação académica de alto nível. Mas o seu pragmatismo e capacidade de negociação, aliado à sua resistência, surpreenderam inclusive os seus inimigos. De guarda-costas de Hugo Chávez, Nicolas Maduro tem no seu percurso os cargos de Presidente do Parlamento, Ministro das Relações Exteriores, Vice-Presidente e Presidente da República.

 

Nos últimos dias da sua vida, o próprio Hugo Chávez designou Maduro como seu sucessor. E foi Nicolas Maduro quem anunciou ao mundo a morte de Chávez. Maduro não herdou apenas um país para governar. Maduro herdou de Chávez a linha da frente de uma revolução e uma guerra contra o ódio de classe. Em 2014, menos de um ano após a morte de Chávez, Maduro teve já de enfrentar as consequências da queda do preço do petróleo. A estratégia era clara – gerar uma crise que afectasse o dia-a-dia dos cidadãos no sentido de golpear a aceitação popular do chavismo. Foi neste contexto que, em 2015, a oposição venceu a maioria parlamentar e adoptou o bloqueio da governação chavista. Em 2016, Maduro resistiu a uma tentativa de destituição; em 2018. venceu as eleições que consolidaram o seu mandato; em 2019, resistiu a uma tentativa de golpe parlamentar, que teve como rosto principal Juan Guaidó, então presidente da assembleia nacional, que se autoproclamou presidente da Venezuela com o patrocínio do Ocidente. No mesmo ano, Maduro resistiu a outra tentativa de golpe, em que a oposição pretendeu fragmentar as forças armadas visando uma ruptura na lealdade deste sector para com a Revolução Bolivariana, esforços que redundaram em fracasso.

 

Nicolas Maduro enfrentou mais de uma década de sanções ilegais impostas pelos EUA e países europeus, medidas que danificaram consideravelmente a economia da Venezuela, assim como o roubo de activos do país, que se encontravam guardados em bancos no exterior, nomeadamente reservas em ouro roubadas pelo Reino Unido e milhões de dólares dos cidadãos venezuelanos entregues ao ilegítimo Guaidó pelo governo dos EUA.

 

Durante as eleições de 2024, um ataque cibernético2 (cuja origem foi a Macedónia do Norte) impediu a transmissão dos resultados eleitorais que deram a vitória a Maduro. A oposição alegou fraude, tese que foi imediatamente aceite pelos governos ocidentais e reverberada pela máquina de desinformação à escala global ao serviço dos inimigos da Revolução Bolivariana. Perante esta situação, o Tribunal Superior de Justiça ordenou que todos os partidos remetessem os comprovativos físicos dos resultados eleitorais sob sua posse. Paradoxalmente, o candidato Edmundo Gonzales Urrutia, que reivindicava vitória sobre Maduro e que tinha Maria Corina Machado como cabo eleitoral, apesar de terem publicado na internet várias actas eleitorais falsas ou adulteradas, não foram capazes de defender a sua revindicação junto da referida instância judicial. Ou seja, a oposição radical de extrema-direita não apresentou provas sobre a alegada vitória. O tribunal trabalhou com os elementos que foram entregues por outra parte da oposição e pelo partido PSUV, tendo o resultado confirmado a vitória inequívoca de Nicolas Maduro.

 

Não satisfeita, mesmo não tendo sido capaz de provar a alegada vitória, a oposição radical retomou os actos de instabilidade ao som da música da pseudofraude e procurando justificar os milhões de dólares injectados pela CIA3. Em reacção, as organizações populares afectas ao chavismo saíram às ruas em defesa da Revolução Bolivariana.

 

Incapazes de inviabilizar a Revolução Bolivariana, depois de 25 anos de guerra híbrida contra o chavismo e 13 anos de pressão sem tréguas que obstruíram a governação de Nicolas Maduro, os EUA atingiram o alto grau de demência e de desespero que culminou no cometimento do crime hediondo por Donald Trump, que foi o bombardeamento sobre Caracas, o assassinato de centenas de pessoas e o sequestro do presidente da Venezuela e de sua esposa.

 

Revolução Bolivariana: ditadura ou democracia?

 

A primeira fragilidade dos discursos que procuram tachar de ditadura modelos políticos autênticos como o que vigora na Venezuela é a repetição de lugares-comuns sobre a ideia de democracia. A base de um debate sério e cientificamente orientado deve partir do princípio de que existem vários modelos de democracia. O facto de a democracia liberal ser a mais propagada por força da expansão do império norte-americano, não significa que os outros modelos de democracia tenham deixado de existir.

 

Apesar de a imprensa de desinformação controlada pelo Ocidente invisibilizar a democracia popular e participativa, não pressupõe que a democracia liberal seja o apanágio. Paradoxalmente, um dos pressupostos, inclusive da democracia liberal, devia ser o respeito pela liberdade. Logo, actores políticos e sociais de outros países estão investidos do direito e da prerrogativa de adoptarem o modelo político, democrático e social que for respaldado pelo povo.

 

Desde o advento da Revolução Bolivariana, na Venezuela, tiveram lugar 34 processos eleitorais em 27 anos, dentre as quais eleições gerais e eleições locais, algumas vencidas pela oposição, tanto durante o governo de Chávez, quanto ao longo do mandato de Maduro.

 

Em 2007, o governo venezuelano submeteu a plebiscito um projecto de reforma constitucional para o qual foram convocados mais de 16 milhões de eleitores. No entanto, 50,7% dos votos foram contra as propostas governamentais e apenas 49,29% votaram a favor. Hugo Chávez reconheceu publicamente a derrota no referendo.

 

Outro exemplo de destaque é o caso do político opositor Henrique Capriles, que, em duas ocasiões, concorreu e venceu as eleições para perfeito do município de Baruta, tendo cumprido dois mandatos consecutivos, no ano de 2000 e 2008, respectivamente. De igual modo, Capriles concorreu e venceu as eleições para o cargo de governador do importantíssimo estado de Miranda, também por dois mandatos consecutivos, entre 2008 e 2017.

 

Henrique Capriles disputou as eleições presidências de 2012, tendo sido candidato vencido, com 44,31% dos votos contra os 55,07% obtidos por Hugo Chavez. Após a morte de Chavez, Capriles voltou a concorrer às eleições, em Março de 2013, nas quais obteve 49,1% dos votos e Nicolas Maduro reuniu 50,61%.

 

Em 2015, a oposição ao chavismo venceu a maioria parlamentar. Tinham-se passado 16 anos desde a implementação da Revolução Bolivariana e nas legislativas daquele período a coligação opositora MUD tinha conseguido 110 dos 167 deputados conforme a composição do Parlamento. Por seu turno, o PSUV, partido que constitui a base do processo revolucionário, obteve 55 assentos.

 

Outro aspecto, que é do desconhecimento da maioria dos acusadores do chavismo, é que, na Venezuela, a maioria dos meios de comunicação de grande expressão são propriedade da oligarquia que faz oposição à Revolução Bolivariana. Muitas vezes, o governo é considerado leniente por parte de alguns cidadãos, em relação à propagação de mentiras e desinformação contra o chavismo, pelos meios de comunicação pró-oposição, sem nenhum tipo de consequência legal, ao contrário de outras realidades latino-americanas (como o Brasil, por exemplo), onde a divulgação de fake news pode ser motivo de responsabilização judicial.

 

Para aqueles que defendem que o soberano é o povo, é importante esclarecer que, desde a sua instauração, a Revolução Bolivariana operou a devolução do poder de decisão ao povo, em que através da democracia plebiscitária os cidadãos têm participação directa, tanto na elaboração da Constituição, como na alocação de recursos para resposta às demandas sociais, desde o nível comunal até à esfera nacional.

 

A simpatia da larga maioria da população venezuelana para com o chavismo não traduz a personificação da política do país na imagem de Hugo Chávez ou de Nicolas Maduro, mas sim o resultado de um movimento social amplo, no qual convergem vários sectores das classes sociais, principalmente as camadas que sempre haviam sido marginalizadas durante mais de um século de governação das elites oligárquicas conservadoras e liberais. Os militares venezuelanos, enquanto elemento de equilíbrio, são parte deste processo emancipatório da população desfavorecida, num quadro específico da história e da cultura da Venezuela, não como importação de algum outro sistema ou de outra experiência revolucionária. Hugo Chávez nunca se declarou marxista e Nicolas Maduro não é nenhum comunista. Mesmo que a Revolução Bolivariana tenha inspiração na Revolução Cubana, os seus proponentes seguiram seu próprio caminho – o caminho da maioria da população da Venezuela. Basta ver o fenótipo da amalgama de gente que todos os dias inunda as ruas de Caracas e de outras cidades exigindo que lhes seja devolvido o seu Presidente.

Poucos políticos no mundo teriam a capacidade de governar um país sancionado pela potência imperial e seus satélites. Um país impedido de fazer trocas comerciais, um país com as reservas internacionais saqueadas por piratas tiranos travestidos de democratas. Nem os melhores economistas do mundo teriam esta capacidade. Este foi o contexto da vaga de emigração massiva de venezuelanos para o exterior. Exactamente o objectivo dos autores da guerra híbrida. O povo precisa de alimentos, o povo tem expectativas de vida, que se tornam mais difíceis de atingir num país sancionado. Não por incompetência do governo ou por culpa de um presidente, mas sim por uma crise gerada artificialmente por forças externas que pretendem neocolonizar a Venezuela.

 

Trata-se do mesmo expediente que tem sido usado contra Cuba, que há mais de 60 anos é vítima de um embargo criminoso imposto pelos EUA e condenado diversas vezes pela Assembleia Geral da ONU. A desumanidade da democracia liberal norte-americana contra Cuba tem afectado não apenas a cúpula política, mas também e principalmente o pacato cidadão. Um mecanismo antipolítico, uma guerra assimétrica e sem regras, cujos efeitos são propagados por órgãos de desinformação massiva como sendo consequência de uma suposta inaplicabilidade do socialismo, uma falsidade que é posteriormente reproduzida por uma legião de incautos na internet. É lógico que não podem dizer o mesmo sobre a China ou sobre o Vietnam, que há várias décadas implementam experiências socialista sem bloqueios e sem sanções, e com resultados diferentes. Não podem dizer o mesmo, porque são imediatamente desmentidos pela realidade económica e social destes países.

 

Uma análise honesta sobre o caso da Venezuela deve abordar os factores atrás elencados. Imagine-se uma casa onde o chefe da família tem as contas bancárias congeladas, a habitação penhorada e o salário bloqueado. Como seria a vida desta família? A guerra híbrida com as sanções e bloqueios navais são a arma usada para atingir a Revolução Bolivariana por via da antipolítica, porque não a conseguiram derrotar através da vontade popular. Mas ainda assim, mesmo sob esta carga de hostilidade, o governo de Maduro adoptou medidas que permitiram a recuperação da produção local, o renascimento da agricultura, o reabastecimento do comércio e a normalização do mercado interno. Para desespero dos detractores, a Venezuela foi o país que mais cresceu a nível da América-Latina em 20254. A Venezuela chavista governada por Nicolas Maduro cresceu mais do que a Argentina governada pelo ultraliberal Javier Milei.

 

As populações de origem indígena, afrodescendentes e outras camadas desfavorecidas (que sempre representaram a maioria) estavam excluídas dos processos e mecanismos de administração da riqueza pública e da participação nas decisões para a solução dos problemas locais. A própria ascensão de Nicolas Maduro, um ex-motorista de transporte público, à presidência da República é, por si, fruto das transformações sociais geradas pela Revolução Bolivariana.

 

A maioria dos venezuelanos tem memória das consequências do regime neoliberal, que submeteu a população a um empobrecimento extremo. A maioria da população venezuelana sabe que da guerra antipolítica das forças internas e externas é beneficiário o neoliberalismo. Por isso, o chavismo resulta de um movimento revolucionário, uma democracia popular, participativa e plebiscitária. A Revolução Bolivariana é um processo de transição económica e política inacabado e obstruído por forças antagónicas.

 

A ``Democracia Participativa e Protagónica´´ adoptada pela Revolução Bolivariana vai além do simples exercício do voto. A questão é que muitos ditos políticos de outros países do mundo e seus cidadãos desinformados não reúnem estrutura mental para entenderem o que de facto o chavismo representa, isto porque vivem enclausurados na caverna da democracia liberal.

 

O fundo geopolítico

 

Tal como escrevi em artigos anteriores e tenho reiterado noutros espaços, o império norte-americano está em decadência. Perdeu a corrida económica com a China, acumulou uma dívida altíssima, atravessa um estágio de desindustrialização irreversível, vive uma crise social aguda, a sua administração sobrevive da impressão desregrada do dólar e perdeu o capital moral construído ao longo de oitenta anos e que influenciava uma parte do mundo.

 

Não se deve esperar um desmoronamento brusco dos EUA, a menos que ocorra uma guerra civil naquele país (uma possibilidade que não deve ser descartada). Porém, todos os diagnósticos honestos demonstram um processo gradual e acelerado de declínio da estrutura do império norte-americano. E as elites políticas deste país sabem-no.

 

O tempo corre e a realidade do quadrante económico e tecnológico do mundo impõe-se – o centro deslocou-se para a China. Existem mentalidades no seio da sociedade norte-americana que não estão preparadas para viver num mundo onde os EUA já não sejam a liderança hegemónica. Logo, qualquer cenário deve ser colocado sobre a mesa, incluindo uma guerra nuclear. O império sabe que está a ruir, mas não pretende cair sozinho.

 

Com a Estratégia de Segurança Nacional dos EUA de 2025, Donald Trump declara como prioridade a reinvenção de uma Doutrina Monroe 2.0 (mesmo que seja uma interpretação equivocada do que aludiu James Monroe em 1823), reivindicando o petróleo do mundo como propriedade dos EUA. Trata-se da mesma insanidade totalitária que já havia assolado o quadro psíquico das elites deste país noutros momentos da história, em que, diante de uma crise interna ou da ascensão de outro Hégemon, os norte-americanos removem o traje de guardiões das liberdades e dos direitos humanos e revelam sempre a sua verdadeira essência – um Estado tirânico.

 

São estas as lições deixadas pela história da Operação Condor e de 130 anos de intervenção dos EUA em países da América-latina.

 

É neste contexto que o sequestro do Presidente Nicolas Maduro e sua esposa Cília Flores deve ser visto – como um sintoma do estado avançado da putrefacção dos resquícios civilizatórios que a sociedade norte-americana ainda podia exibir. Donald Trump chega a ser mais honesto que a maioria dos apoiantes dos seus actos. Para Trump, a questão na Venezuela não é e nunca foi sobre democracia ou ditadura. Para Trump, Maduro estava sentado sobre as maiores reservas de petróleo do mundo e os EUA já não pretendem continuar a obtê-lo por via de um processo normal de compra e venda como reza o capitalismo. Não! Os EUA decidiram apoderar-se do petróleo venezuelano por via da bala e do sequestro, bem ao estilo dos gângsteres do Far-West. Foi nisto que os norte-americanos converteram as Relações Internacionais em pleno século XXI – um Far-West.

 

`` (…) desde o início do ano, as relações internacionais desceram para um autêntico caos. (…) existem demasiados actores desequilibrados à nossa volta. E deve reconhecer-se que tais pacientes nunca são acalmados pelas suaves admoestações de psiquiatras amáveis - apenas por enfermeiros com punhos enormes e expressões impassíveis´´(Dmitri Medvedev, 2026).

 

 

A morte do Direito Internacional

 

É ponto assente, que vivemos numa época em que a ideia de Direito Internacional foi transformada num insulto à inteligência de pessoas avisadas. Porém, embora a morte do DIP tenha resultado de enfermidades que remontam ainda à invasão criminosa dos EUA contra o Vietnam, a que se seguiram outros actos desumanos do imperialismo contra diversos povos e nações, ainda assim, mesmo em ruínas, as paredes da ONU ainda aí estão e o DIP é uma das últimas cordas em que se tenta sustentar o paraquedas furado de uma ordem internacional em vertigem.

 

No dia 7 de Janeiro, peritos da ONU emitiram um pronunciamento inequívoco de condenação da agressão dos EUA contra a Venezuela. De acordo com os especialistas, o acto constitui uma violação grave do Direito Internacional. Os mesmos consideram que o uso não provocado da força armada contra o território soberano do Estado venezuelano atenta contra os pressupostos estatuídos no Artigo 2 da Carta da ONU.

 

Os peritos das Nações Unidas enfatizam, em relação ao acto bárbaro contra o país caribenho, que as violações do governo dos EUA, ``são agravadas por uma série de medidas coercitivas unilaterais anteriores contra a Venezuela´´, dentre elas ``um bloqueio naval e a apreensão armada de petroleiros, bem como a execução extrajudicial de, pelo menos, 115 civis supostamente ligados ao narcotráfico´´ (sem culpa formada, sem mandado e sem julgamento). Para os especialistas, os referidos actos contradizem, tanto o Direito Internacional quanto o Direito Humanitário, ``incluindo o direito inderrogável à vida´´.

 

As declarações de Trump, que apontam a pretensão de governar a Venezuela com a finalidade de extrair o petróleo, constitui ``um desrespeito ao direito dos povos à autodeterminação e à sua soberania sobre os recursos naturais, (…) consagrados no Artigo 1º do Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos, do qual os EUA são signatários desde 1992´´ (ou ainda eram parte, no momento em que foram cometidos os crimes contra a soberania da Venezuela).

 

Aos aspectos acima adiciona-se o facto da Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas (1961) conceder imunidade absoluta aos Chefes de Estado, na qualidade de representantes máximos do seu país no estrangeiro (excepto em casos relacionados com o TPI). Logo, o sequestro de Nicolas Maduro é ilegal de acordo com o Direito Internacional, para além de que, nenhum tribunal dos EUA está habilitado a julgar o Presidente da República Bolivariana da Venezuela.

 

O Direito Internacional foi assassinado pela impunidade que é admitida pela comunidade internacional aos actos dos EUA, principalmente desde o pós-Segunda Guerra Mundial. A indiferença ou a celebração diante da arbitrariedade cometida contra o povo e contra as instituições venezuelanas são também o retrato de parte da humanidade que comemora a sua própria morte. Somente lapsos de lucidez podem cegar o entendimento de que a extraterritorialidade autoatribuída às acções norte-americanas representa um perigo para todos, inclusive para os seus apologistas.

 

 

O falso paralelo com o caso russo-ucraniano

 

Em 1999, sob a alegação de procurar deter o que consideravam abusos de direitos humanos no Kosovo, a OTAN realizou vários ataques contra a Jugoslávia sem autorização do Conselho de Segurança da ONU, na decorrência de um conflito étnico entre a população sérvia e a de origem albanesa. Dentre as várias consequências atinentes à perda de vidas humanas e à destruição de património, a intervenção da OTAN deu origem à separação e à proclamação da independência do Kosovo, até então território pertencente à Sérvia e por sua vez à República Federal da Jugoslávia. A independência do Kozovo foi reconhecida pelos EUA, França, Alemanha, Dinamarca e Turquia.

 

Em virtude do debate internacional causado pela actuação da OTAN na Jugoslávia em 1999 e visando evitar tragédias como o genocídio do Ruanda em 1994, a ONU adoptou, em 2005, por unanimidade, a norma designada por Responsabilidade de Proteger, também conhecida por princípio R2P.

 

A Responsabilidade de Proteger (R2P) tem no seu substrato a protecção das populações ``contra o genocídio, crimes de guerra, crimes contra a humanidade e limpeza étnica´´. Contra os referidos crimes, o R2P estipula a responsabilidade de todo Estado e da comunidade internacional em auxiliar. Em caso de falha da parte do Estado nacional em proteger a sua população, a comunidade internacional tem o dever de ``tomar medidas oportunas e decisivas´´. Foi com base nestes princípios que se justificou a intervenção da OTAN na Líbia, assim como os ataques contra a Síria.

 

Em 2014, Víktor Yanukóvytch, presidente ucraniano legítimo, que tinha relações equilibradas com o Ocidente e procurava preservar os laços de boa vizinhança com a Rússia, foi destituído. Yanukóvytch entrou em desgraça a partir do momento em que discordou das pretensões estrangeiras, que visavam a introdução da Ucrânia na OTAN. Como punição, o Ocidente financiou e realizou a sublevação, que ficou conhecida como protestos da Praça Maidan, e colocou em acção grupos neonazistas armados. A própria embaixadora dos EUA na Ucrânia à época, Vitória Nuland, participou na distribuição de víveres aos insurreccionistas, assim como determinou quem devia assumir a presidência depois da destituição de Yanukóvytch.

 

O que se seguiu na Ucrânia foi a instauração de um regime de corte neonazista, que institucionalizou a perseguição contra a população russófona, a proibição da utilização da língua russa, o banimento da igreja ortodoxa, a destruição de símbolos, elementos culturais e históricos russos, que fazem parte da identidade de uma franja considerável de cidadãos ucranianos que são de etnia russa. Ou seja, passou a presidir a Ucrânia um governo que perseguia e permitia o assassinato de parte da sua população por motivações étnicas. Um dos momentos mais macabros ocorreu quando dezenas de cidadãos ucranianos russófonos, que se haviam refugiado na sede de um sindicato em Odessa, foram queimados vivos por milícias neonazistas armadas pelo Ocidente e respaldadas pelo governo de Kiev.

 

 

Perante do alto risco a que as suas vidas haviam sido expostas, a retirada da protecção que lhes era devida e o abandono governamental, algumas populações rossófonas do Leste da Ucrânia realizaram referendos, declararam independência e solicitaram o apoio da Rússia para a protecção da vida de milhares de pessoas, dentre elas civis e crianças. Em resposta, o governo ucraniano deu início a bombardeamentos e ataques com armas de fogo contra as referidas regiões. Foi desta forma que começou a guerra no Donbass.

 

No intuito de se colocar fim a guerra no Donbass, altos representantes da Ucrânia, Rússia, França e Alemanha reuniram-se em Minsk, capital da Bielorrússia, sob a mediação da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), no que ficou conhecido como os Acordos de Minsk, que decorreram em 2014 (Minsk I) e em 2015 (Minsk II). Dentre as medidas estipuladas constam: o cessar-fogo, a retirada de armas pesadas, a concessão de autonomia às regiões de Donestk e Luhansk, a realização de uma reforma constitucional na Ucrânia que atendesse as especificidades das regiões do Leste do país, a reposição das condições técnicas que salvaguardassem os direitos económicos e financeiros das populações do Donbass, dentre outras. Porém, a Ucrânia violou os acordos. Mais recentemente, Angela Merkel, que foi a representante da Alemanha, confessou que ``a assinatura dos Acordos de Minsk deu à Ucrânia tempo para se desenvolver, entre 2014 e 2015, e serviu para permitir que o Ocidente desse a Kiev o apoio necessário´´. Ou seja, o governo da Ucrânia nunca teve intenção de pôr fim ao massacre da população russófona do leste do país.

 

Em 7 de Abril de 2014, foi declarada a soberania da República Popular de Donestk (RPD) e, em 27 de Abril, da República Popular de Luhansk (RPL), actos que foram confirmados em Maio do mesmo ano através dos referendos em ambas as regiões, onde 89% de eleitores de Donestk e 96,2% de Luhansk votaram a favor do estatuto das referidas regiões. As decisões adoptadas estão devidamente consagradas pelo princípio da autodeterminação dos povos, garantida pela Carta da ONU. De igual modo, o apelo para o reconhecimento das respectivas independências, dirigido pelos líderes das citadas Repúblicas ao presidente da Rússia, a 21 de Fevereiro de 2022, são actos devidamente legais à luz do Direito Internacional.

 

No dia 1 de Fevereiro de 2022, os serviços secretos das forças de defesa de Donestk interceptaram a informação sobre a finalização, por parte do Estado-Maior ucraniano, de um plano operacional que visava o lançamento de uma mega ofensiva nas regiões do sudeste da Ucrânia.

 

As autoridades russas, que durante 8 anos (2014 - 2022) esperaram que o conflito fosse resolvido por via diplomática, não podiam permitir que a chacina do governo de Kiev contra a população russófona continuasse e atingisse proporções de genocídio, uma situação pela qual a própria Rússia podia ser responsabilizada por leniência. Aliado a isto está o facto de que, por via da Ucrânia, as forças da OTAN chegaram à fronteira da Rússia, dando a Moscovo a percepção legítima de ameaça à sua soberania, para além de a expansão da Aliança do Atlântico Norte para o Leste constituir um incumprimento das garantias dadas por James Baker (ex-secretário de estado dos EUA) a Mikail Gorbachev, em 1990. O amplo apoio da Aliança do Atlântico Norte à Ucrânia, em armamento, satélites, financiamento, e a quantidade de militares dos referidos países mortos e detidos não deixam dúvidas – trata-se de uma guerra da OTAN contra a Rússia, em que o território ucraniano foi previamente preparado como palco.

Foram estas as bases da Operação Militar Especial russa na Ucrânia, cujo respaldo pelo Direito Internacional (quer em termos da Carta da ONU, quer a nível do princípio R2P) é um facto e não deve ser negado pela mera antipatia contra o governo da Rússia, antagonismo ideológico ou pelo ódio.

 

Nesta conformidade, não existe nenhum paralelo possível entre a acção da Rússia na Ucrânia e o ataque dos EUA contra a Venezuela. O sequestro de Nicolas Maduro por parte do governo de Trump não encontra nenhum fundamento legal e muito menos justificação cabível. Pelo contrário, abre um precedente gravíssimo nas Relações Internacionais.

 

O niilismo da incoerência política e a desonestidade intelectual

 

O ódio irracional contra o chavismo transpõe as fronteiras da Venezuela, encontra amparo junto de grande parte da direita conservadora e neoliberal ocidental e, por incrível que pareça, reverbera inclusive em alguns cérebros na periferia do mundo, como é o caso de Angola.

 

A notícia sobre o sequestro do presidente Nicolas Maduro e de sua esposa Cília Flores deu origem a reacções apressadas de sectores ligados à oposição em Angola, assim como determinados actores sociais que, não assumindo publicamente um posicionamento partidário explicito, actuam de forma implícita no sentido contrário à governação. A postura dos referidos actores face a um acto hediondo como o ocorrido, oscilou entre a responsabilização de Maduro pelo sucedido, em virtude de supostas ``práticas ilegais para a manutenção no poder´´, até celebrações efusivas e irracionais, inclusive de uma mulher que não teve a mínima decência de se solidarizar com Cília Flores - mulher sequestrada e submetida a um tratamento vexatório aos olhos do mundo. Em qualquer um dos casos, estava-se diante de reacções emotivas de pessoas que desconhecem a história da Venezuela e as questões de fundo da realidade objectiva deste país. Os actores em causa não estão minimamente interessados na verdade. São simplesmente movidos por antipatias ideológicas, ódio e desejo de transferência casual, em que a agressão contra as instituições venezuelanas fosse vivida igualmente pelas instituições angolanas.

 

Foi deveras estarrecedor constatar a forma como a Venezuela foi trazida para o interior de apetências do cenário político angolano por parte de actores com responsabilidades sociais, que de forma explicita e implícita emitiram sinais de desistência da competição política nos marcos científicos e legais, e desejaram praticamente que o seu próprio país fosse invadido por uma potência estrangeira. Por outro lado, o facto revelou igualmente algumas mentes niilistas, que sendo pró-ocidentais, diante da indefensável acção praticada pelos EUA, adoptaram a estratégia de acomodação no muro dos fraudulentos ``imperialismos generalizados´´, tentando afirmar que não existe culpa na Casa Branca.

 

Quando a maior parte do mundo repudia os actos do regime despótico dos EUA, adeptos angolanos do totalitarismo de Washington adoptam um malabarismo desonesto da generalização da culpa, que inventa um imperialismo russo (pela Ucrânia) e um imperialismo chinês (por Taiwan). Um exercício de falsidade histórica, cujo objectivo é unicamente não admitir quão hediondo e condenável foi o acto dos seus mentores norte-americanos diante de tudo que pode ser considerado democrático ou de Direito.

 

Dentre várias dezenas de políticos e representantes de governo de vários países do mundo que condenaram o sequestro de Nicolas Maduro, Marine Le Pen, líder da extrema-direita francesa, não sentou no muro. Lepen condenou o acto bárbaro de Trump contra a Venezuela. O senado dos EUA votou uma medida no sentido de impedir novos ataques de Donald Trump contra a Venezuela, inclusive cinco senadores republicanos votaram a favor da determinação. Vários governos da Europa Ocidental condenaram o ataque norte-americano contra a República Bolivariana.

 

Nem Marine Le Pen, muito menos os governantes ocidentais que condenaram o sequestro de Nicolas Maduro e sua esposa o fizeram porque nutrem amores pelo presidente venezuelano. A líder da extrema-direita francesa e os demais políticos europeus certamente odeiam o chavismo. Porém, quem navega a alta esfera da política tem consciência que existem linhas vermelhas que não devem ser ultrapassadas, sob pena de se destruir o mínimo razoável de ordem necessária para a preservação do mais elementar pacto civilizatório, mesmo quando os actores se posicionam em campos ideológicos antagónicos.

 

Quando uma dirigente de extrema-direita da Europa tem maior clarividência sobre estes princípios humanitários e elementares minimamente aceites para a preservação da coexistência civilizatória do que actores políticos e sociais de um país como Angola (cuja história conhece as consequências da violência), então estamos diante de uma realidade, em que os referidos políticos não estão no nível de estadistas, assim como os actores dos aplausos e relativização do acto criminoso de Trump, por despeito de questões inerentes à política nacional, e demonstram não possuir superioridade moral em relação aos alvos das suas críticas no quadro da política interna.

 

Por outro lado, assim como é desonesto forçar um suposto imperialismo russo decorrente da operação na Ucrânia, tal como demonstra o DIP, a história moderna comprova que Taiwan é parte da China. Dizer o contrário apenas para ``fatiar´´ as culpas que pertencem exclusivamente a Donald Trump é um acto de falseamento dos factos, assim como o é fazer crer que Trump ameaça invadir a Colômbia, bombardeou a Nigéria e promete anexar o Panamá e a Groelândia, porque são países governados pelo chavismo e por Nicolas Maduro. A isto chama-se desonestidade intelectual.

 

Até Dezembro de 2025 contabilizavam-se 70.400 palestinos mortos por Israel, desde Outubro de 2023, e 171.064 feridos. Em Novembro de 2024, o Tribunal Penal Internacional emitiu mandados de prisão contra o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, e outros membros do seu governo, por crimes de guerra e crimes contra a humanidade cometidos em Gaza.

 

 

Em 2025, os EUA impuseram sanções contra dois juízes do TPI, responsáveis pelo processo contra Israel. De recordar que, em 2020, o governo norte-americano já havia aplicado sanções económicas e restrições de viagens a funcionários envolvidos na investigação de tropas americanas e agentes dos serviços secretos por crimes de guerra cometidos no Afeganistão.

 

Estranhamente, os mesmos actores políticos e sociais angolanos, que acusam Nicolas Maduro de ser um ditador, nunca emitiram qualquer pronunciamento a condenar os massacres de civis na Faixa de Gaza protagonizados por Israel com apoio dos EUA, muito menos lhes é conhecida alguma palavra de repúdio contra o governo norte-americano pelo reiterado abuso de autoridade contra funcionários de tribunais internacionais. Nicolas Maduro nunca foi acusado por nenhuma instituição judicial internacional, muito menos terá orientado retaliação contra procuradores do TPI.

 

Em 2024, durante as eleições na Roménia, o candidato Calin Georgescu, que defendia a normalização de relações com a Rússia, venceu o pleito derrotando os candidatos pró-OTAN. Como resultado da ingerência e pressão da União Europeia, o Tribunal Constitucional da Roménia anulou as referidas eleições sob a alegação de graves irregularidades e possível interferência estrangeira. Foi marcada uma segunda volta das eleições, mas Calin Georgescu, o candidato vencedor do pleito anulado e que liderava as intenções de voto, foi impedido de concorrer. Milhares de cidadãos romenos saíram às ruas para protestar, mas a democracia naquele país europeu havia sido ferida mortalmente. Pavel Durov, fundador do aplicativo Telegram, anunciou posteriormente que tinha sido contactado pelo director dos serviços secretos de um país da Europa ocidental para exercer interferência nas eleições na Roménia.

 

A respeito, durante uma reunião em Berlim com líderes europeus, em 2025, o vice-presidente dos EUA, JD Vance, proferiu críticas contundentes contra a União Europeia por actos como ``a anulação das eleições presidenciais da Roménia sob alegações de interferência estrangeira e o uso de leis para silenciar a oposição política´´.

 

Em contexto das eleições nas Honduras, Donald Trump fez pronunciamentos de apoio ao candidato conservador Tito Asfura e proferiu ameaças contra aquele país caso o mesmo não vencesse. Realizadas as eleições, contra todos os prognósticos, a contagem dos votos dava uma estreita vitória ao candidato apoiado por Trump. A comissão eleitoral denunciou irregularidades graves que favoreceram o candidato apoiado por Trump e recusou-se a publicar os resultados. Os demais concorrentes (Salvador Nasralla e Rixi Moncada) não reconheceram os resultados das eleições. A interferência de Trump nas eleições hondurenhas é tão evidente, que os EUA tiveram de se justificar (desmentir mentindo) numa sessão da OEA, que reuniu para abordar o assunto.

 

De igual modo, vários elementos indiciam a ingerência do governo Trump nas eleições que reconduziram Daniel Noboa (de extrema-direita) à presidência do Equador, assim como a vitória do partido de Javier Milei (de extrema-direita), durante as legislativas de 2025 na Argentina, tal como vem sendo observado por diversos analistas.

 

Os mesmos actores políticos e sociais angolanos que, repetindo apenas a narrativa da imprensa de desinformação ocidental, acusam Nicolas Maduro de supostamente ``alterar procedimentos para se manter no cargo´´, e aplaudiram o acto vil do governo dos EUA contra a Venezuela, estes mesmos actores, nunca proferiram qualquer crítica contra a União Europeia por violação da democracia na Roménia, muito menos a Donald Trump por interferência nas eleições nas Honduras, no Equador e na Argentina.

 

Seja pela veneração que os mesmos prestam ao Ocidente e a Trump, ou porque simplesmente tais factos não são noticiados, nem condenados nas plataformas mainstream que constituem a única fonte de ``informação´´ dos referidos actores, de qualquer modo, o silêncio cúmplice destes personagens amantes da extrema-direita, em alguns casos pessoas físicas e noutros milícias digitais, revela a incoerência dos mesmos e a matéria cognitiva de que são feitos.

 

A oposição política, seja contra uma determinada corrente ideológica, ou contra o status quo governativo, parte, regra geral, da crítica contra certas práticas, às quais os opositores são antagonistas, e da defesa de ideias tidas como valores e princípios que, no quadro da competição política, os concorrentes consideram correctos e que entendem que deveriam ser observados.

 

É neste âmbito que vimos, repetidas vezes, da parte tanto de políticos, quanto de activistas e outros actores sociais, a referência crítica contra a falta de liberdades, a não observância dos direitos fundamentais e o não cumprimento da lei por quem exerce o poder. Portanto, a não condenação de um acto criminoso como o sequestro de um Presidente da República e de uma Primeira Dama, a celebração diante da violação de princípios universais e da negação de direitos a outrem, e mais, a culpabilização da vítima e os aplausos a favor do criminoso, constitui uma prática grave de niilismo conveniente que necessariamente se voltará contra os seus autores.

 

Este niilismo conivente e selectivo revela de forma flagrante uma incoerência irracional e anula de imediato quaisquer pretensões de superioridade moral dos opositores em relação ao status quo que vem sendo alvo de críticas. Os mesmos direitos e valores que defendemos, em alto e bom som, a nosso favor não devem ser negados a ninguém, mesmo a um oponente ideológico.

 

O panteão dos imortais

 

A compreensão da essência da luta de classes e da sacralidade das causas defendidas por uma revolução anti-imperialista não estão ao alcance de todas as mentes, principalmente nestes tempos de atomização, guerra cognitiva e alienação, em que vigora a ``cultura´´ do lacaísmo e da rendição.

 

Em 1999, coincidentemente no mesmo ano em que Hugo Chávez ascendeu ao poder, foi lançado o Matrix, uma obra cinematográfica escrita e dirigida por Lilly Wachowski e Lana Wachowski. Um dos elementos centrais deste filme distópico é o significado da pílula azul e da pílula vermelha. ``A pílula azul representa a ignorância confortável e a permanência na ilusão da Matrix, enquanto a pílula vermelha simboliza a verdade dolorosa e o despertar para a realidade, libertando o indivíduo da simulação´´.

 

Quando o cidadão de um país periférico, principalmente de um país africano, defende as acções terroristas do império norte-americano e nutre estima por um personagem tirano e racista como Donald Trump, neste caso estamos diante de uma questão que vai além da ciência política e entra para o fórum psiquiátrico. Cabe a quem deseja verdadeiramente libertação mental, tomar a pílula vermelha e descobrir a verdade fora da Matrix.

 

A luta emancipatória dos povos é muito anterior ao chavismo. Neste percurso histórico, a Revolução conheceu derrotas em algumas guerras, combatentes tombaram de arma na mão, líderes foram traídos, mas a Revolução prosseguiu.

 

Ainda que Nicolas Maduro seja mantido sequestrado por 20 anos, ou que inclusive seja assassinado, Delcy Rodriguez, Diosdado Cabello, Jorge Rodriguez e Vladmir Padrino López continuarão com a Revolução Bolivariana. Mesmo que todos eles já cá não estejam, outros seguirão a luta.

 

Entre a morte de Simon Bolivar e o nascimento de Hugo Chávez passaram-se 124 anos. Independentemente do desfecho do sequestro, Nicolas Maduro já tem garantido o seu lugar no panteão dos imortais, assim como Bolívar, Fidel Castro, Ché Guevara, Hugo Chávez e outros.

 

Durante a guerra contra o Afeganistão, em que tropas norte-americanas e aliados invadiram o país, em 2001, ``um comandante talibã avaliou o enorme poder de fogo que o Ocidente reuniu na ocasião e, mesmo vendo as suas próprias forças perderem batalha após batalha, permaneceu impassível´´, e disse a Rick Hillier (antigo chefe do estado-maior da defesa do Canadá), o seguinte:

``Vocês têm os relógios, mas nós temos o tempo´´.

Vinte anos depois, a resistência Talibã permaneceu de pé. Os norte-americanos tiveram de abandonar o Afeganistão fugindo às pressas e o Talibã retomou o poder.

 

Em 1973, o presidente socialista do Chile, Salvador Allende, eleito democraticamente, foi derrubado e morto por acção da CIA. Anos mais tarde, no contexto da luta de guerrilha, a esquerda venezuelana capturou William Frank Niehous, um agente secreto que actuava com o disfarce de empresário norte-americano em Caracas e que havia participado do golpe contra Allende. Jorge Antonio Rodriguez, um guerrilheiro marxista, que foi dirigente do Movimento de Esquerda Revolucionária e fundador da Liga Socialista, liderou a captura do referido agente. Em 1976, Jorge Antonio Rodriguez foi detido e torturado até à morte pela CIA, nas instalações do então serviço de inteligência da Venezuela. Jorge Antonio Rodriguez morre assim aos 34 anos de idade, deixando uma viúva, uma filha de 7 anos e um filho de 11 anos de idade. Volvidos 50 anos, a filha deixada pelo revolucionário marxista torturado até a morte é Delcy Rodriguez, vice-presidente da Venezuela e actual Presidente interina em substituição de Nicolas Maduro, e o filho é Jorge Rodriguez, actual Presidente da Assembleia Nacional.

 

O império tem os relógios, mas a Revolução tem o tempo!...

 

Luanda, ao 13 de Janeiro de 2026.

 

Orlando Victor Muhongo.

 

1 Jordan Goudreau, ex-mercenário norte-americano que participou em actos contra a estabilidade da Venezuela, confessou, em Outubro de 2025, a sabotagem, em 2019, de centrais elétricas, que causou apagões em Caracas, e o incêndio de uma refinaria, que resultou na morte de várias pessoas. Foram acções praticadas pela CIA com a participação de sectores da oposição venezuelana.

[(Muhongo, O. (2025) - Angola e o olhar deturpado sobre as relações internacionais contemporâneas - 4ª parte. Kesongo].

 

2 Venezuela. Ciberataque al CNE fue ordenado desde Macedonia del Norte

By Resumen Latinoamericano on 29 julio, 2024

3 Goudreau, que fez parte do sistema, garante que existe uma estreita relação entre a CIA e a oposição venezuelana.

[(Muhongo, O. (2025) - Angola e o olhar deturpado sobre as relações internacionais contemporâneas - 4ª parte. Kesongo].

4 Comissão Económica para a América-Latina e o Caribe

 
Comentários