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O fim da geração fundadora
Um alerta geracional.
Por Administrador
Publicado em 20/01/2026 14:00
Novidades

 

Tal como impõe o curso inexorável do tempo, vai-se extinguindo, lenta e inevitavelmente, a geração que, mesmo sem certificações académicas ou discursos pedagógicos sofisticados, soube formar seres humanos inteiros — inteiros de carácter, de limites, de deveres e de valores não negociáveis.

 

Uma geração pobre em bens, mas rica em densidade moral; austera nas posses, mas exigente consigo mesma; consciente de que a escassez material não degrada o espírito e de que a dignidade não depende do conforto, do estatuto ou da ostentação. Uma geração que não confundiu democracia com licenciosidade, nem direitos com a abolição dos deveres.

 

As suas mesas eram simples, por vezes frugais, mas nunca vazias de partilha; as casas, modestas, mas governadas pelo respeito; as vidas, duras, mas orientadas por princípios claros, estáveis e inegociáveis. A palavra era compromisso, a honra não era um conceito abstracto e a responsabilidade precedia qualquer reivindicação.

 

Foi essa geração que compreendeu — antes da pedagogia permissiva e da psicologia desculpabilizadora — que amar não é ceder e que educar não é abdicar. Antes de ensinar discursos, ensinou condutas. Antes de exigir resultados, formou consciências.

 

Começou pelo essencial, hoje perigosamente relativizado: a dignidade humana, o valor do trabalho, a hierarquia do esforço, o sentido do dever e o respeito pelo outro.

 

Ensinou aos homens o valor profundo da mulher — não como objecto, troféu ou posse, mas como igual em dignidade — e às mulheres o respeito por si próprias e pelos outros, num tempo em que a igualdade não se proclamava em slogans nem se instrumentalizava politicamente: praticava-se na vida concreta, no quotidiano, sem histerias nem engenharia social.

 

É a geração que soube viver com pouco brilho material sem cair na frustração crónica, na vitimização permanente ou na depressão performativa. Sabia, com uma clareza hoje rara, que o valor da vida não se mede pelo que se consome, mas pelo que se constrói; não pelo que se exibe, mas pelo que se é. Foram homens e mulheres moldados pelo trabalho árduo, que aprenderam, com o corpo e com as mãos, que tudo o que é útil tem dignidade, mesmo quando não tem preço. Nada era descartável: nem os objectos, nem as pessoas, nem a palavra dada.

 

Enfrentaram a adversidade sem a converter em espectáculo, sem transformar o sacrifício em capital simbólico nem o sofrimento em retórica identitária. Não exigiram reconhecimento, não pediram reparações morais, não reclamaram aplausos. Cumpriram.

 

Avançaram com sobriedade, disciplina e firmeza. É a geração das mãos gastas e da coluna direita; dos corpos cansados e da consciência limpa. Dos gestos silenciosos que sustentaram famílias, estruturaram comunidades e tornaram possível a própria continuidade social.

 

Hoje, essa geração afasta-se da vida activa e, com ela, dissolve-se uma forma de estar no mundo. O que se perde não é apenas um conjunto de indivíduos, mas um eixo civilizacional.

 

Porque esta retirada não é apenas biológica: é cultural, ética, política e cívica. Com ela esvai-se uma sabedoria que não se aprende em plataformas digitais, não se adquire por via administrativa nem se improvisa em discursos ocasionalmente inflamados. É a sabedoria do exemplo, da coerência entre palavra e acção, entre direitos assumidos e deveres cumpridos.

Foi essa geração que nos legou aquilo a que hoje chamamos “resiliência” — um termo moderno para uma virtude antiga, entretanto desprezada. E mesmo agora, no seu silêncio e no seu afastamento, continua a julgar-nos, não pelo que diz, mas pelo contraste que estabelece com aquilo em que nos estamos a tornar.

A sua retirada deixa-nos uma advertência que não é nostálgica, mas estrutural: quando o carácter deixa de ser central, as instituições tornam-se frágeis; quando a ética é relativizada, a vida colectiva degrada-se; quando o dever é substituído pela reivindicação permanente, a própria democracia se esvazia.

Está-se a perder uma geração de ouro — forjada na adversidade, moldada pela responsabilidade e sustentada pelo esforço — e a emergir, perigosamente, uma geração de ouro folheado: brilhante na superfície, frágil no interior; inflacionada em discurso, empobrecida em substância; convicta de direitos, mas analfabeta de deveres.

 

E em Cabo Verde, essa geração fundadora tem nome, rosto e pensamento. É a geração de Amílcar Cabral — a geração que fez da ética um método político, da cultura um instrumento de libertação e do dever um princípio revolucionário. Uma geração que não lutou para consumir mais, mas para dignificar o homem; que não confundiu independência com retórica, nem liberdade com irresponsabilidade; que colocou o carácter acima do poder e a responsabilidade acima do privilégio.

 

Publicado no Dia dos Heróis Nacionais, este texto não se curva à saudade; ergue-se como exigência. Honrar todos quantos tombaram na luta de libertação nacional, edificaram o Estado e governaram Cabo Verde, respetivamente, de 1975 a 2025, não é repetir palavras vãs, mas recusar a mediocridade moral, o facilitismo social e a erosão do dever público. Porque uma nação que abandona os valores da sua geração fundadora não perde apenas a memória — perde o rumo.

 

 

 

Autor: Coronel Adriano Pires in Facebook

 

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