A carta aberta do líder histórico do Fatah, Tawfiq Tirawi, dirigida ao presidente Mahmoud Abbas, marca um ponto de virada sério e doloroso na história recente da Palestina. Não se trata de uma denúncia externa ou de um ataque de adversários políticos: é uma acusação direta vinda do próprio centro do poder, do Comité Central do Movimento Fatah.
Quando um membro dessa hierarquia declara publicamente que a corrupção, a pilhagem, a grilagem de terras e a intimidação se tornaram um sistema protegido pela impunidade, a mensagem é clara: a decadência atingiu níveis insuportáveis.
Corrupção estrutural, não incidentes isolados
A carta de Tirawi descreve algo muito mais sério do que meras irregularidades administrativas.
Ele fala de:
- Captura das instituições públicas por redes de interesses pessoais;
- Politização e neutralização do judiciário;
- Ameaças diretas contra especialistas, académicos e funcionários honestos.
- Uso do Estado como escudo para proteger os corruptos.
Isso confirma o que a diáspora palestina vem denunciando há anos: a Autoridade Nacional Palestina (ANP) deixou de ser um instrumento de libertação e transformou-se num aparato burocrático ao serviço de uma elite fechada, desconectada do sofrimento real de seu povo.
Nepotismo: a afronta final
A indignação aumenta ainda mais quando, em meio ao genocídio em Gaza e à destruição sistemática na Cisjordânia, são anunciadas nomeações baseadas em laços familiares: noras, filhas de ex-embaixadores e figuras recicladas do círculo íntimo em cargos diplomáticos e administrativos.
A pergunta é inevitável — e legítima:
Não há jovens qualificados, profissionais honestos, indivíduos treinados e comprometidos na Palestina para preencher esses cargos? O nepotismo não é apenas corrupção econômica:
- é corrupção moral,
- é uma traição ao sacrifício dos mártires,
- é um tapa na cara dos prisioneiros e da juventude palestina.
O silêncio é cumplicidade. Tirawi afirma isso claramente: “Ocultar a verdade é crime. Encobrir a corrupção é traição.”
Nós, da UPAL (União Palestina da América Latina), endossamos integralmente esta declaração. Hoje, o silêncio não é neutralidade.
O silêncio é perpetuar um sistema que:
- Despojou a Autoridade Palestina de sua legitimidade;
- Enfraqueceu a unidade nacional;
Enquanto Gaza arde e a Cisjordânia é exaurida dia após dia, gerir a crise a partir de escritórios fortificados é tão criminoso quanto o próprio saque.
Conclusão: A carta de Tawfiq Tirawi não é apenas uma denúncia: é uma acusação histórica.
Se o Presidente Abbas não agir imediata e transparentemente, a Autoridade Palestina será definitivamente exposta como uma estrutura exaurida e moralmente falida, incapaz de representar as aspirações de libertação do povo palestino.
A Palestina não precisa de mais burocratas obedientes. Ela precisa de dignidade, responsabilidade e renovação genuína, ou a história julgará duramente aqueles que escolheram o privilégio em detrimento da pátria.
União Palestina da América Latina – UPAL
21 de janeiro de 2026