O homem nunca soube viver sozinho. Tentou cavernas, tribos, aldeias, impérios. Tentou deuses, reis, generais e, mais tarde, parlamentos. A política não nasceu de um ideal elevado - nasceu do medo, da fome e da necessidade de decidir quem manda quando a sobrevivência aperta. Mas não há super-homens políticos. Há, isso sim, povos divididos por eles.
Durante séculos acreditámos que o problema estava na forma: monarquia ou república, esquerda ou direita, fé ou razão. Mudámos os nomes, os símbolos, as bandeiras - mas o enredo manteve-se assustadoramente familiar. Poucos decidem, muitos obedecem. Poucos acumulam, muitos esperam.
Hoje, o poder já não usa coroa nem farda. Usa gráficos, "likes" e palavras cuidadosamente escolhidas. Não impõe - sugere. Não censura - distrai. A política moderna não quer convencer toda a gente; basta dividir o suficiente para que ninguém se una. O cidadão contemporâneo acredita que escolhe, mas reage. Acredita que opina, mas repete. Vive permanentemente em campanha, mesmo quando não há eleições. Discute o acessório enquanto o essencial passa silenciosamente de mão em mão, de mercado em mercado, de servidor em servidor.
A uma cruel ironia: nunca tivemos tanto acesso à informação e nunca fomos tão fáceis de manipular. Nunca falámos tanto de liberdade e nunca delegámos tanto o nosso pensamento. A política tornou-se um mal necessário porque o homem continua imperfeito. Continua ambicioso, tribal, inseguro. Mas tornou-se também um mal perigoso quando deixa de ser instrumento coletivo e passa a ser espetáculo permanente - um palco onde o povo discute enquanto os bastidores decidem.
Talvez o verdadeiro avanço político não esteja em novos sistemas, mas em cidadãos menos previsíveis. Menos fanáticos. Menos disponíveis para odiar sob encomenda. Porque enquanto o homem preferir pertencer a um lado em vez de compreender o todo, a política continuará a ser isso mesmo: necessária, inevitável… e profundamente falha. A história parece repetir a lição que insistimos em esquecer: sociedades não caem por falta de ideologia, mas por excesso de cegueira. E nenhum sistema resiste quando o homem abdica de pensar por si.
Autor: João Gomes in Facebook