O declínio dos impérios raramente se anuncia com estrondo. Não começa, como a imaginação épica gostaria, com batalhas decisivas ou colapsos súbitos, mas com sinais discretos, quase banais: a intolerância ao contraditório, o desconforto perante a regra, a irritação perante quem insiste em recordar limites.
No Encontro Anual de Davos de 2026 — oficialmente a 56.ª Reunião Anual do World Economic Forum (WEF) — realizado entre 19 e 23 de Janeiro, em Davos-Klosters, na Suíça, ocorreu algo de verdadeiramente revelador. Enquanto Donald Trump se entregava à encenação de conselhos improvisados de “paz global”, reciclados entre a teatralidade e a banalidade de fórmulas gastas, o Canadá — seu vizinho e parceiro histórico — escolheu um caminho hoje quase subversivo na arena internacional: falou como um Estado adulto. Falou com sobriedade, responsabilidade e sentido histórico.
Em contraste, Volodymyr Zelensky optou por um registo de confronto verbal que não poupou nem a Europa nem os Estados Unidos — precisamente aqueles de cuja ajuda vital depende a própria sobrevivência do seu país. Um discurso mais próximo da agitação do que da diplomacia, mais próximo da repetição de um guião alheio do que da afirmação de uma estratégia soberana. Não soou a liderança; soou a alguém embriagado pela urgência, a recitar um panfleto escrito por terceiros, confundindo apoio com submissão e firmeza com ruído.
Quando a simples evocação da normalidade institucional passa a ser percebida como provocação, é porque algo de essencial já se encontra corroído.
Foi um desses momentos aparentemente menores — mas politicamente reveladores — que teve lugar no Encontro Anual de Davos de 2026.
Não houve ruptura formal nem declaração dramática. Houve apenas um discurso sereno. E uma reacção desproporcionada.
Em Davos, o primeiro-ministro canadiano proferiu um discurso que recusou o conforto dos aplausos fáceis e das frases fabricadas para a circulação mediática instantânea. Ao contrário do Chanceler alemão, não precisou de ressuscitar o papão russo nem de inventar cenários grotescos sobre uma suposta ambição de Moscovo em ocupar a Gronelândia.
Procurou algo bem mais exigente e, por isso mesmo, profundamente perturbador para o nosso tempo: atenção silenciosa e reflexão. Num palco habituado ao ruído, escolheu a clareza; num ambiente saturado de dramatismo, optou pela serenidade.
Sem excessos retóricos nem alarmismos, descreveu realidades que muitos líderes preferem contornar: o enfraquecimento progressivo da ordem internacional baseada em regras; a tentação crescente das grandes potências de tratarem a soberania como instrumento de conveniência; e a necessidade urgente de os países médios deixarem de simular uma submissão estratégica que já não lhes garante segurança, previsibilidade ou respeito.
Não citou nomes, mas descreveu comportamentos. Não elevou o tom, mas afirmou, com firmeza tranquila, princípios de responsabilidade e compromisso.
Recordou uma evidência que, no actual contexto geopolítico marcado por tensões e confrontos, soa quase deslocada pela sua simplicidade: a estabilidade internacional não nasce de líderes providenciais; nasce de instituições sólidas. A paz não resulta de vontades pessoais, impulsos momentâneos ou iniciativas avulsas, mas de compromissos duradouros, do direito internacional e do respeito mútuo entre Estados.
Foi, como alguns observaram, um discurso cuidadosamente elaborado num ambiente cada vez mais inclinado à simplificação e ao espectáculo, onde a política externa é frequentemente tratada como encenação mediática e a diplomacia reduzida a gestos simbólicos. Precisamente por isso, a sua mensagem atingiu o centro da questão.
Trump ouviu. E, como tantas vezes sucede quando um poder se sente interpelado nos seus próprios pressupostos, não respondeu com argumentos, mas com um gesto simbólico de afastamento: retirou ao Canadá o convite para integrar o seu anunciado “conselho global da paz”.
A sequência é elucidativa. Primeiro, a exaltação da liderança forte e personalista.
Depois, a marginalização de quem insiste em recordar que existem regras, limites e responsabilidades partilhadas. Não foi tanto o conteúdo do discurso que causou desconforto, mas o simples facto de alguém ainda afirmar que a política internacional não se rege por impulsos individuais, mas por normas e instituições.
Este é um traço clássico das fases tardias do poder hegemónico: a incapacidade de tolerar a normalidade. Tudo o que não reforça a narrativa da excepcionalidade passa a ser percebido como ameaça.
O episódio revela mais sobre o estado do sistema internacional do que muitos tratados académicos. Quando um discurso calmo provoca maior inquietação do que uma ameaça aberta, é porque tocou num ponto sensível. A reacção não traduz solidez, mas vulnerabilidade; não expressa confiança, mas dificuldade em aceitar a normalidade institucional.
Davos aplaudiu. Trump recuou. O mundo observou. E deve fazê-lo com atenção, porque este não é apenas um episódio sobre uma figura política ou sobre um país específico. É o sinal de algo mais profundo: a transformação gradual do poder hegemónico numa versão empobrecida de si próprio, incapaz de acolher limites, regras ou contraditório.
Como lembram os autores de Como Morrem as Democracias, os impérios raramente colapsam apenas por derrotas militares, golpes de Estado ou crises económicas. Muitas vezes começam a definhar quando deixam de suportar a simples lembrança de que governar o mundo exige instituições credíveis — não gestos de força nem retórica inflamável.
O que Davos expôs, de forma quase pedagógica, foi a tensão crescente entre dois modelos de poder: um, ancorado na previsibilidade institucional, no direito e na responsabilidade partilhada; outro, assente na personalização extrema, na lógica da força e na recusa de qualquer limite externo.
Nos capítulos seguintes, certamente, essa tensão tornar-se-á ainda mais visível no espaço europeu, onde a retórica da autonomia estratégica convive com uma dependência estrutural cada vez mais profunda, e onde a promessa de soberania se transforma, não raras vezes, numa ficção confortável. É aí, nesse território de contradições, que o declínio deixa de ser apenas observado — e passa a ser administrado.
Autor: Coronel Adriano Pires in Facebook