A América Latina enfrenta uma realidade histórica que não admite mais ambiguidades: o sistema internacional passa por uma profunda reestruturação, e antigas relações de subordinação continuam a operar sob novas formas. Nesse contexto, a região precisa reconhecer que a fragmentação estratégica é uma fragilidade estrutural e que a defesa comum não é mais uma aspiração ideológica, mas uma necessidade política de longo prazo.
Durante décadas, a Europa e a América do Norte projetaram poder sobre a América Latina não apenas por meio de intervenções militares diretas, mas também por meio de mecanismos mais sofisticados: sanções, pressão diplomática, controle tecnológico, restrições financeiras e operações híbridas. Essa realidade demonstrou que a região carece de instrumentos coletivos eficazes para dissuadir, resistir ou mesmo negociar em igualdade de condições. Sem unidade defensiva, cada país fica exposto e isolado.
Falar sobre a defesa militar da América Latina não implica uma postura agressiva ou um desejo de confronto permanente. Implica, sobretudo, capacidade de dissuasão — ou seja, a possibilidade real de proteger a soberania regional contra interferências externas. A experiência histórica demonstra que as regiões politicamente desarmadas são as mais visadas. A paz no sistema internacional não se garante por boas intenções, mas sim pelo equilíbrio de poder.
A Europa e a América do Norte operam a partir de blocos consolidados, com doutrinas comuns, interoperabilidade militar e objetivos estratégicos compartilhados. A América Latina, por outro lado, foi empurrada para uma lógica de segurança fragmentada, dependente e subordinada. Romper com esse padrão exige pensar a defesa como um recurso regional, não como uma questão estritamente nacional ou como uma extensão de alianças extra-hemisféricas.
Uma arquitetura defensiva latino-americana deve basear-se em princípios claros: caráter defensivo, respeito absoluto pela soberania interna de cada Estado, não intervenção entre nações irmãs e proteção conjunta de recursos estratégicos, infraestrutura crítica e espaços compartilhados. Não se trata de copiar modelos externos, mas de construir os nossos próprios, adaptados à história, geografia e realidades sociais da região.
Além disso, uma defesa comum fortaleceria a posição diplomática da América Latina. Um bloco capaz de se proteger é um bloco capaz de negociar. Sem essa capacidade, qualquer diálogo com potências externas ocorre a partir de uma posição de vulnerabilidade. A unidade defensiva não anula o diálogo internacional; ela o equilibra.
Num mundo que caminha para a multipolaridade, a América Latina precisa decidir se permanecerá uma esfera de influência estrangeira ou se assumirá seu papel como ator estratégico coletivo. Construir uma defesa militar regional contra a Europa e a América do Norte não é um gesto de hostilidade, mas um ato de maturidade política. É uma afirmação de que a soberania não pode ser delegada e que a unidade, quando se trata de sobrevivência regional, é condição indispensável para o futuro.
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