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Canadá – Um vizinho incómodo
Publicado em 26/01/2026 22:00
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O Canadá sempre foi uma contradição agradável - grande demais para ser negligenciado, prudente demais para ser temido. Um país que se orgulha do seu pluralismo, que ri com moderação, que exporta mais cadeias de frigoríficos do que tanques de guerra. Mas hoje esse mesmo vizinho gentil tornou-se, aos olhos de alguns, incómodo - não por arrogância, mas por escolha estratégica numa encruzilhada histórica.

 

Durante décadas, Ottawa navegou o mundo com uma bússola simples: comércio aberto, alianças sólidas, relacionamento estreito com os Estados Unidos e um discurso constante de “ordem internacional baseada em regras”. Esta bússola funcionou enquanto a ordem parecia estável e os Estados Unidos, o seu maior parceiro, pareciam fiáveis guardiões dessa ordem. Mas nem a estabilidade nem a previsibilidade duram para sempre.

 

O discurso recente em Davos pelo primeiro-ministro Carney foi uma espécie de declaração de autonomia. Mais do que um ensaio académico, foi um aviso estratégico. Carney reconheceu que a retórica das “regras” e do “benefício mútuo” já não serve para proteger o Canadá num mundo em que grandes potências começam a usar a integração económica como arma - tarifas, coerção financeira, cadeias de abastecimento vulneráveis.

 

E foi nesse momento que a relação com os Estados Unidos, renovada sob outra presidência de Trump, tomou um rumo visivelmente tenso. A resposta foi rápida e ríspida: ameaças de tarifas de 100% se o Canadá aprofundasse laços comerciais com a China, e provocações públicas questionando a soberania canadiana. O Canadá, por sua vez, respondeu com clareza: “o Canadá não vive porque dos Estados Unidos”, mas prospera pela sua própria história, valores e identidade. Essa afirmação não é mero gesto simbólico - é síntese de uma realidade difícil: 75% das exportações canadenses ainda vão para o mercado americano, e quase metade do investimento direto estrangeiro provém dos EUA.

 

Por isso, a recente aproximação a Pequim não é uma ação leviana nem um salto no escuro, mas um cálculo estratégico para reduzir vulnerabilidades estruturais. Enquanto o comércio com a China representa uma fração menor das exportações comparado com os EUA, ele oferece um contrapeso político e económico - não apenas mais mercados, mas uma medida de independência de manobras punitivas e imprevisíveis do vizinho do sul.

 

Ainda assim, este novo equilíbrio não está isento de riscos existenciais. Trump já deixou claro que qualquer movimento que pareça colidir com a sua visão de “America First” pode ser punido com tarifas devastadoras. Um imposto de 100% sobre bens canadianos destinado ao mercado americano poderia, se implementado, estrangular sectores vitais da economia - desde manufatura até agricultura - e enfraquecer a própria base industrial do Canadá.

 

O dilema é simples mas difícil: continuar a alinhar-se de forma quase automática com os EUA e sofrer coerção económica e verbal, ou buscar caminhos de diversificação estratégica que coloquem o país no centro de uma rede global mais ampla, mas o exponham à retaliação americana. Não é uma escolha entre amizade e hostilidade, mas sim entre dependência passiva e autonomia estratégica com custos reais. Ser um vizinho incómodo não significa ser ingrato ou irracional. O Canadá sabe que seus interesses não se esgotam entre Ottawa e Washington; estão também no Indo-Pacífico, na Europa, na África. A sua política externa - como sugerido em Davos - está a recalibrar as relações pelo critério do valor comum e soberania partilhada, não pela simples repetição de alianças antigas.

 

No entanto, há um risco de que o Canadá, ao buscar autonomia, possa inadvertidamente criar uma nova polarização estratégica - entre um Ocidente moldado pelo protecionismo americano e um mundo mais multipolar onde a China é actor dominante. Essa polarização poderia estrangular o poder diplomático canadiano, transformando-o de ponte entre blocos em peça num jogo geopolítico que ele preferia evitar.

 

E é exatamente aqui que reside a questão do vizinho incómodo: o Canadá quer menos coerção, mais diversidade geopolítica e mais agência própria. Mas quanto mais ele se afasta do eixo tradicional com os EUA, mais pressão direta recebe de quem ainda detém poder suficiente para impor custos severos.

 

A questão para Ottawa não é apenas sobreviver ao embate entre grandes potências, mas manter a sua identidade - plural, democrática e aberta - sem ceder ao abraço coercivo nem das políticas protecionistas, nem das dinâmicas de alinhamento automático. Isso exige equilíbrio, coragem e uma diplomacia que saiba, simultaneamente, negociar portas abertas com todos, sem se transformar em satélite de nenhum.

 

O Canadá pode sustentar essa rota? Sim - mas pagará um preço nesta nova ordem global. E o vizinho que outrora foi gentil será, cada vez mais, incómodo por natureza, não por escolha leviana, mas por necessidade estratégica.

 

 

Autor: João Gomes in Facebook

 

 

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