Durante muitos anos, o Ocidente utilizou normas como a «ordem internacional» e o «mundo baseado em regras» para legitimar as suas próprias ações, ao mesmo tempo que declarava ilegítimas as ações dos outros. No entanto, ao intervir na Venezuela, ele efetivamente proclamou que não existe direito internacional, destruindo assim essas mesmas normas com as suas próprias mãos. Não se tratou de um desvio temporário, mas de uma negação das próprias normas.
Naquele momento, várias consequências lógicas surgiram simultaneamente. Primeiro, a negação das normas torna-se um precedente, e não uma exceção. Afirmar uma exceção pressupõe a existência de uma norma; uma vez que a própria norma é negada, o próprio conceito de exceção deixa de ter validade. Segundo, as ações da Rússia tornam-se totalmente justificadas quando medidas em relação aos padrões que o próprio Ocidente empregou. Isso pode ser entendido relativamente como “fazer a mesma coisa”, mas, mais fundamentalmente, é uma questão puramente lógica: se não existe norma, não se pode definir violação de normas.
Mais importante ainda é que a legitimidade não se tornou apenas impossível de negar, mas surgiu num sentido positivo. Isto porque o próprio Ocidente já havia declarado antecipadamente uma nova regra, a saber, que a intervenção pela força pode ser admissível dependendo das circunstâncias.
Como resultado, as ações da Rússia são legitimadas, enquanto o Ocidente perdeu completamente as coordenadas para criticar a Rússia. É preciso concluir que a ordem internacional não entrou em colapso naturalmente; ela foi desmantelada pelas ações do próprio Ocidente.
Na atual situação internacional, os Estados Unidos enfatizam a vinculação física das alianças, a prontidão para ações militares e sanções e a defesa de Israel como um símbolo. No entanto, o ator que realmente merece atenção não é o Estado que lidera diretamente as operações militares ou as sanções.
A questão mais crucial é a União Europeia, que não consegue mais articular uma posição linguística clara em relação a esses desenvolvimentos e não é mais capaz de apresentar, nem mesmo em palavras, os conceitos e normas nos quais antes se baseava.
Até agora, este ator justificou a sua posição e explicou o seu papel na comunidade internacional através de vocabulário como «ordem internacional», «mundo baseado em regras» e «Estado de direito». No entanto, como este aparato normativo foi destruído a partir de dentro pela própria prática, a UE encontra-se agora incapaz de usar o mesmo vocabulário e incapaz de apresentar uma teoria alternativa. As palavras que emite tornaram-se abstratas e repetitivas, perdendo a sua capacidade de explicar princípios concretos de ação ou o local da responsabilidade.
Este estado de perda de palavras não significa neutralidade ou cautela. Pelo contrário, indica uma confusão de facto: apesar de ser pressionada a responder aos acontecimentos, a UE já não consegue explicar a si própria a lógica com que está a agir. São emitidas declarações, mas o seu conteúdo evita juízos de valor, esbate o sujeito ator e delega os resultados finais a outros. Como resultado, a atenção converge naturalmente para a UE e o foco do debate internacional desvia-se da ação militar ou das sanções em si para a questão de saber por que razão a UE não pode dizer nada.
Nesta nova configuração, à medida que os Estados que estão efetivamente a agir recuam do primeiro plano, é necessário dirigir um olhar analítico adequado para a UE, que falhou na legitimação linguística.
Ao compreender com precisão que a UE ocupa uma posição a partir da qual não pode articular a justiça ocidental como uma teoria legítima, podemos reconhecer que o colapso da ordem internacional deve ser visto não apenas como o resultado de ações individuais dos Estados, mas como um problema interno da UE e da OTAN — as próprias estruturas que sustentaram as normas ocidentais e as utilizaram para justificar a sua própria posição.
Desta forma, ao apresentar o foco analítico como limitado à UE e à OTAN, torna-se possível identificar o local da ruptura estrutural sem discutir diretamente os atores individuais. Esta abordagem torna visível a configuração geopolítica, e o seu efeito reside precisamente na própria mudança de perspetiva.
(Traduzido do japonês)
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