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Quem nos Salva de Nós
Publicado em 06/02/2026 20:53
Novidades

Se me pedissem que indicasse um, não mais do que um jornal cuja leitura merece, hoje, totalmente a pena, do primeiro ao último artigo, eu teria a resposta na ponta da língua: o Le Monde Diplomatique.

 

O número deste mês da edição portuguesa traz, como sempre, vários artigos de grande fôlego, convidando, como sempre, a uma leitura pausada, temperada, pensada. Um desses artigos, integrados num dossier absolutamente obrigatório sobre a "era das repressões", é o trabalho excepcional de reflexão da condição precária em que todos vivemos o nosso quotidiano, do cientista político francês, Laurent Bonelli, intitulado "A Mitologia da Segurança".

 

Neste artigo, o professor da Universidade Paris Nanterre explica, com meridiana clareza, os três grandes eixos em que se estrutura a experiência humana contemporânea da segurança: a militar, a policial e a social. Explica ainda como o neoliberalismo, que, aos poucos, se vem transformando em neofascismo, tem vindo a desequilibrar estes três eixos em favor dos dois primeiros, como se a segurança só devesse ou pudesse ser analisada sob um prisma de ameaças: a do inimigo, e a do suspeito. É isto que justifica a apropriação de recursos públicos e a sua crescente canalização para um securitarismo de Estado: para as forças armadas e para as forças policiais. Ou seja, para a guerra lá fora, e para a guerra cá dentro. Os média têm vindo a desempenhar, aliás, um papel fundamental na transmissão acrítica da mensagem neoliberal: não pára o bombardeamento diário mediático com estas ameaças.

 

A nossa segurança como actores sociais é tratada, por outro lado, pelo neoliberalismo, como crescentemente descartável, o que torna apetecíveis e potenciais alvos de rapinagem os fundos públicos que a sustentam. Onde estão os dispositivos que nos conferem segurança quanto ao futuro? Onde pára a nossa protecção no trabalho? Onde pára a nossa segurança na saúde? Onde anda a resposta estatal às catástrofes?

 

Não deixo de anotar que é, desde logo, no plano da pura manipulação linguística que a nossa (in)segurança colectiva cada vez mais se está a jogar.

 

Depois de ler o artigo de Laurent Bonelli no Le Monde Diplomatique, nem de propósito, leio no jornal digital Eco, de economia, que Portugal se prepara para contrair um mega-empréstimo para aplicar no reforço da actual paranóia militarista. As contas estão feitas: dos nossos impostos, dos meus, dos seus, hão-de sair qualquer coisa como 7.1 mil milhões de euros, só para pagar os loucos juros da aventura. O nome do empréstimo é o acrónimo, certamente criado por uma muito bem paga agência de comunicação estratégica, de Security Action For Europe: SAFE.

 

Com acrónimos destes, quem não se sente mais seguro?

Perguntem à malta da região de Leiria, àqueles a quem o ministro disse que não há razões para se sentirem inseguros porque, afinal, estavam a acabar de receber o salário do mês anterior.

 

 

Autor: Luís M. Loureiro (professor universitário) in Facebook

 

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