Ao longo da conversa, William I. Robinson (Nova Iorque, 1959) faz várias afirmações que não só dão uma boa manchete para a entrevista, como também uma previsão negra para os próximos anos.
Compensa isso com total fé nas massas e na sua capacidade de moldar a história. Como afirma no seu mais recente livro, publicado em Espanha, "Pode o Capitalismo Global Sobreviver?" (Traficantes de Sueños, 2025), para a humanidade sobreviver, não há alternativa senão derrubar o capitalismo global, "isto é, substituir o imperativo da acumulação a qualquer custo por um sistema baseado na necessidade social e na harmonia com o resto da natureza".
A entrevista decorre por videoconferência. Robinson está na Califórnia, um dos epicentros dos protestos de rua contra o projeto de Donald Trump, a que este sociólogo não hesita em chamar fascista. A publicação de *Can Global Capitalism Endure?* sucede ao seu anterior ensaio em espanhol, *Mano Dura* (Errata Naturae, 2023), no qual explicou a convergência económica e ideológica que levou à viragem autoritária dos Estados de todo o mundo. Parte desta "mano dura" é o que permitiu o crescimento e a expansão do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE), um verdadeiro terror para as comunidades migrantes e para a guarda pretoriana de Trump.
Como estão a decorrer os protestos contra o ICE nos Estados Unidos?
Estou em Los Angeles. Esta foi a primeira cidade invadida à força pelo ICE e também pela Guarda Nacional. Isso aconteceu em junho do ano passado. Desde então, têm ido de cidade em cidade, declarando guerra. Há protestos por todo o lado; todas as comunidades estão a organizar-se. Aqui e noutras cidades, organizamos patrulhas comunitárias, que já envolvem milhares e milhares de pessoas. E o mais interessante é que não são apenas os ativistas tradicionais, que sempre estiveram envolvidos em lutas sociais e atividades políticas, mas há um despertar em muitos segmentos da população que antes não participavam na política.
Como é que isso se está a desenvolver no contexto político dos EUA?
Existem divisões muito acentuadas dentro das classes dominantes e das suas organizações políticas, incluindo os dois principais partidos, Republicanos e Democratas. Ao mesmo tempo, em Los Angeles, Chicago, Minnesota, Nova Iorque, Seattle, Portland e São Francisco, existe uma certa aliança — não organizada, mas espontânea — entre as bases de todos os movimentos sociais. Não se trata apenas de movimentos pelos direitos dos imigrantes, mas também de movimentos populares de esquerda que se apoiam nos governos democratas nestas cidades. Sem utilizar este termo explicitamente, é uma expressão que adotei e que tem sido utilizada espontaneamente: está a surgir uma coligação antifascista. Todos usamos a palavra "fascista" hoje em dia, mas estas alianças surgiram espontaneamente e vão para além das alianças anti-Trump tradicionais; são antifascistas.
O que significa o ICE para o poder de Trump?
É muito claro que os ICE são os novos camisas castanhas. É uma organização paramilitar, de natureza fascista. E o importante no ICE é que responde diretamente à Casa Branca e a esta administração, a que chamarei regime, porque há agora um colapso progressivo do Estado de Direito nos Estados Unidos. Nem vamos falar de direito internacional. Trump disse não reconhecer o direito internacional em relação à sua própria moralidade. Mas aqui, nos Estados Unidos, existem ordens judiciais, e o ICE e este regime simplesmente ignoram tanto estas ordens judiciais como a Constituição. É muito claro que o ataque ou a guerra contra os imigrantes vai para além da questão migratória: é um ataque contra toda a classe trabalhadora.
A quem responde o ICE?
É muito evidente que esta força paramilitar, que está a crescer exponencialmente, já se tornou um exército privado para este regime. Ela responde perante o Departamento de Segurança Interna. Sabemos que, em qualquer Estado, e no processo de tomada de poder por um projeto fascista, existem disputas entre diferentes departamentos, divisões e ministérios. Neste momento, vemos claramente que o Departamento de Segurança Interna é o núcleo da formação deste projecto fascista dentro do Estado. Este exército fascista servirá para combater qualquer dissidência, não apenas em relação à imigração. O primeiro passo é a guerra contra os migrantes.
Como está a ser feito?
Há uma explosão de gastos governamentais nesta guerra. Para isso, estão a retirar fundos à Marinha norte-americana — ou seja, de um orçamento aprovado pelo Congresso que o Pentágono destina a operações fora dos Estados Unidos. Recentemente, transferiram mais 40 mil milhões de dólares da Marinha para o ICE, sem autorização, para a construção de dezenas ou centenas — nem sabemos ao certo quantos — de centros de detenção por todo o país. Esta construção massiva de centros de detenção está planeada como uma infra-estrutura permanente, não simplesmente para acolher os imigrantes antes da sua deportação. Estão a lançar as bases para uma infra-estrutura de longo prazo para a detenção em massa. Por enquanto, posso falar sobre estas coisas com os meus alunos. Neste momento, graças à nossa resistência, estamos a atrasar um pouco o avanço deste projeto fascista, mas corremos um grande perigo aqui nos Estados Unidos. Tudo isto que estou a dizer reflecte uma questão muito maior: a crise histórica do capitalismo global e as suas dimensões políticas aqui nos Estados Unidos. Examinemos esta crise do capitalismo global, que é o tema deste livro.
Por que razão isso está a acontecer?
Existem várias dimensões determinantes; não se trata de apenas uma. A dimensão económica estrutural desta crise histórica é a primeira que referirei. O capitalismo global começa a enfrentar a impossibilidade de continuar a reproduzir-se. É uma crise histórica que pode durar anos e décadas, mas, na realidade, estamos a entrar no crepúsculo do capitalismo global. A questão crucial é se conseguiremos ultrapassar o capitalismo global antes que este arraste consigo toda a humanidade. Em primeiro lugar, precisamos de compreender que a dimensão estrutural da crise é a superacumulação. É uma estagnação crónica, a acumulação de quantidades enormes — triliões de dólares subutilizados — que não têm para onde ir; a classe capitalista transnacional não tem espaço nem meios para se desfazer de toda esta massa de capital superacumulado.
Como é que esses problemas foram resolvidos no passado?
Até à data, a classe capitalista transnacional (CCT) utilizou três mecanismos para continuar a descarregar este capital sobreacumulado e a impulsionar a economia global. Um deles, como sabemos, é a especulação financeira, que já atingiu — e o número está correto — triliões de dólares. Trata-se de capital fictício. Em segundo lugar, existe a dívida global. Esta dívida do consumidor e do Estado já totaliza 325 triliões de dólares. Por conseguinte, o crescimento impulsionado pela dívida não pode continuar. A terceira dimensão é aquilo a que chamo acumulação militarizada e acumulação por repressão. Esta guerra contra os migrantes nos Estados Unidos tem os seus objectivos políticos, como temos vindo a discutir, mas tem também um objectivo económico, que é o de proporcionar uma saída para o capital superacumulado. A guerra contra os migrantes é muito lucrativa, tal como o genocídio em Gaza é enormemente lucrativo, tal como os conflitos armados e os sistemas de repressão transnacional em todo o mundo durante períodos de estagnação crónica.
Isto está a acontecer num contexto marcado pela crise climática e ambiental. Qual a dimensão ecológica desta crise?
Para chegar ao cerne da questão ecológica, o sistema encontra-se agora numa nova ronda de expansão predatória e altamente agressiva, procurando romper com a estagnação. A concentração desta nova onda expansiva e agressiva do capitalismo global tem três objectivos: em primeiro lugar, a terra. Ou seja, a apropriação de terras. Em segundo lugar, a energia. Energia por diversas razões, mas sobretudo porque toda esta expansão predatória é impulsionada pela digitalização, que é central na questão ambiental. É necessário construir milhares e milhares de data centers que consomem enormes quantidades de energia. Isto tem a ver com a Gronelândia; por favor, pergunte-me sobre a Gronelândia mais tarde. E terceiro, os minerais necessários às novas tecnologias digitais e, sobretudo, à inteligência artificial. Estas três dimensões representam uma intensificação da apropriação não humana da natureza e têm efeitos catastróficos no ambiente. Mas quero ir mais longe: há uma acumulação de destruição e degradação ambiental, afetando tanto a natureza humana como a não humana, o que configura simultaneamente uma crise de reprodução social e de reprodução da natureza. Esta nova onda expansiva está a intensificar os efeitos catastróficos sobre o ambiente. Mas a destruição ambiental está a atingir um ponto em que impede a acumulação de capital.
Como assim?
A previsão é de que, entre 2030 e 2050, um terço do planeta estará tão quente que os humanos já não poderão viver em zonas como o Norte de África, o Médio Oriente e outras. Actualmente, o capital está a acumular-se nestas áreas, mas não poderá continuar a fazê-lo num futuro próximo. Outra dimensão é a das áreas de produção agrícola, por exemplo, aqui na Califórnia, onde existem áreas de agricultura intensiva destinadas ao mercado global. Haverá um colapso da agricultura devido às alterações climáticas. Poderia continuar a dar exemplos, mas a questão é que, até agora, o capital transnacional conseguiu continuar a acumular-se em todo o planeta sem se importar com os efeitos devastadores no ambiente, mas isso está a mudar muito rapidamente. Entre agora e 2050, chegaremos a um ponto em que o capital já não se poderá acumular em determinadas áreas.
Mais impactos.
Em 2025, uma das maiores seguradoras do mundo — e é importante lembrar que as seguradoras também fazem parte do capital financeiro transnacional — alertou que o setor global de seguros em breve deixará de poder funcionar. Isto porque o seguro, por exemplo, de casas, investimentos e outros bens, está a tornar-se muito caro devido aos impactos e riscos ambientais. Se uma tempestade de magnitude sem precedentes atingisse a Florida, algo que poderia acontecer, os danos poderiam ascender a triliões de dólares. As seguradoras já não conseguem suportar os custos de seguro para as indústrias, logística e outros setores. Nesta perspectiva, a crise ambiental representa não só uma ameaça de extinção para a humanidade, como também mina a capacidade do capitalismo global de continuar a acumular riqueza.
Há o fator da migração como causa do aquecimento global.
Os relatórios que temos sobre os refugiados climáticos e os deslocados pela devastação ecológica indicam que já são 200 ou 300 milhões de pessoas. De acordo com as previsões das Nações Unidas, o número de pessoas deslocadas pelas alterações climáticas ultrapassará os mil milhões. Isto levanta a questão de como o capitalismo global, e aqueles que controlam este sistema, serão capazes de lidar com um número tão grande de refugiados. Isto dá uma ideia das dimensões ambientais da crise.
Tal como a Amazónia, a Gronelândia é uma zona crucial para o resto do planeta. Até que ponto a pressão de Trump para explorar os recursos naturais da ilha é um sinal da sua visão curta?
Utilizou a palavra "visão curta" para se referir a Trump, mas isso não define apenas Trump; define todo o sistema capitalista. É importante relembrar: o capital tem apenas um objetivo, a acumulação infinita de capital. Qualquer outro objectivo é secundário e irrelevante quando comparado com a constante acumulação de capital. Portanto, todo o sistema capitalista tem uma visão de curto prazo e imediata. Houve restrições, certas medidas para atenuar este impulso para a acumulação, mas vieram dos Estados e dos movimentos de massas, não do próprio capital. Toda esta ameaça contra a Gronelândia faz parte da mesma fase expansionista que estamos a viver agora. O argumento de que se trata de segurança contra a China e a Rússia é, na verdade, uma cortina de fumo; trata-se, na realidade, de recursos minerais, petróleo e gás, mas também, em grande parte, de energia geotérmica, porque a Gronelândia tem um potencial incrível para a geração de energia geotérmica. Isto requer uma análise mais aprofundada.
Vamos em frente.
Um novo bloco hegemónico está a emergir nos Estados Unidos, mas também a nível global, dentro do capital transnacional, reunindo três sectores de capital que se estão a fundir. Estes três setores são: em primeiro lugar, as grandes empresas tecnológicas — chamemos-lhes Big Tech; segundo, o complexo militar-industrial, que não é apenas militar, mas também inclui todo o aparato de repressão, por exemplo, o ICE (Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA); e terceiro, o capital financeiro transnacional. Estes sectores — militar-repressivo, Big Tech e financeiro — estão a fundir-se e a formar um novo bloco hegemónico de capital transnacional à escala global. Trump não representa os interesses deste bloco; pelo contrário, é o contrário: este bloco utiliza o trumpismo como instrumento para expandir os seus interesses.
Voltemos à Gronelândia.
A Gronelândia tem a energia, a terra e os minerais, incluindo elementos de terras raras, de que este bloco necessita com o degelo dos glaciares. Há um quarto elemento que explica porque querem esta terra. Porque querem estabelecer estas empresas de extracção de energia, e assim por diante, com uma nova forma de governação — a governação directa pelo capital transnacional. Os leitores certamente se lembrarão das experiências com cidades corporativas nas Honduras, por exemplo. O Governo golpista hondurenho, que está agora de volta ao poder, entregou Roatán, uma ilha no Golfo do México, na costa atlântica das Honduras, a um grupo de empresários das áreas financeira e tecnológica — entre os quais Peter Thiel, da Palantir. Foi-lhes permitido controlar toda a ilha, com as suas próprias regras, os seus próprios impostos e o seu próprio governo. É o mesmo modelo que já temos no Texas: uma pequena cidade gerida por Musk, onde o governo, o Estado, não tem qualquer presença. Querem isso também na Gronelândia. Este bloco hegemónico, e especialmente o grupo das grandes empresas tecnológicas ligado à Palantir, já realizou investimentos iniciais e conduziu estudos preliminares sobre como construir estas cidades na Gronelândia. A emergência climática é má para a humanidade, para o planeta, mas é muito boa em certos aspetos para o capital, porque torna acessíveis áreas que antes eram inacessíveis. De certa forma, a Groenlândia se torna um microcosmo de tudo o que está acontecendo globalmente.
O projecto “Nova Gaza”, apresentado no Conselho de Paz de Davos, insere-se nesta visão de novas cidades empresariais?
Em primeiro lugar, não utilizemos este termo fascista, porque não se trata de um Conselho de Paz, mas sim de um conselho de genocídio, de um conselho de capital transnacional, de uma invasão e apropriação total de Gaza. De facto, o que querem fazer na Gronelândia, já o estão a fazer na Faixa de Gaza. Isto demonstra o processo genocida do capitalismo global nesta fase: precisam de eliminar as populações excedentárias — aquilo a que chamo humanidade excedentária — para obter acesso a recursos e transformar estes territórios em zonas de acumulação intensiva para o capital transnacional. Sabíamos que Gaza tem gás e petróleo, e zonas ao longo da costa do Mediterrâneo que são muito valiosas para a especulação imobiliária. Mas não é só; o projecto visa transformar Gaza num centro para aquilo a que os grupos dominantes chamam agora Pax Silica. Ou seja, um pólo regional de alta tecnologia e centros de dados. Kushner, genro de Trump, deixou isso claro no seu discurso em Davos: Gaza é um caso de teste. Se este modelo for bem-sucedido, poderá ser aplicado a outras áreas. Querem transformar toda a Faixa de Gaza numa zona empresarial. Tudo isto está ligado a outros acontecimentos que estão a acontecer no Médio Oriente.
Em que sentido?
A transformação radical de toda a geopolítica do Médio Oriente, começando com o genocídio dos palestinianos e agora com a destruição de Rojava pelo novo governo sírio, visa formar um novo bloco geopolítico que una os Estados do Golfo a Israel, impulsionado pelo capital transnacional. Especificamente, trata-se de um plano do bloco hegemónico que referi. Este é o novo cenário geopolítico que prepara o terreno para a expansão do capital transnacional no Médio Oriente, através de Gaza, liderada pela alta tecnologia e pelas criptomoedas. Lembremo-nos que as criptomoedas representam a fusão perfeita entre alta tecnologia e finanças. Gaza é um símbolo, um modelo, um alerta do que espera todo o planeta.
Até que ponto os artifícios teóricos do trumpismo, representados por figuras como Peter Thiel ou Curtis Yarvin, são relevantes, ou são meramente uma fachada para o impulso predatório do capital?
Têm peso, mas o problema é que o equilíbrio de poder ainda não é suficientemente favorável para consolidar o projeto fascista, porque ainda há muita resistência, muitas contradições. Mas a resposta é que este é um projeto fascista no sentido sociológico. Estudando a história e o conceito sociológico, analítico e teórico do fascismo, percebe-se que é um projeto fascista que se está a incubar com Yarvin, com Thiel, com o trumpismo. Mas antes de prosseguir, quero fazer uma observação.
Vamos lá.
Hoje vemos Trump diariamente nos ecrãs, e vemos os representantes políticos, os ideólogos e os estrategas do projeto fascista nos ecrãs, nas redes sociais e por aí fora, mas não vemos o que está por detrás de tudo isto. No mês passado, a revista The New Yorker publicou que Trump acumulou quatro mil milhões de dólares usando a presidência como um multibanco para a sua própria família. Trump pode roubar e ser corrupto. Enquanto o seu narcisismo for ignorado, como se costuma dizer, ele continuará a ser um fantoche, um instrumento deste bloco de poder. No primeiro mandato de Trump, a classe capitalista transnacional mostrou-se muito cautelosa em aderir a um projecto fascista. Trump é há muito fascista e racista, mas o capital transnacional não queria inicialmente participar num projecto deste tipo; agora quer.
Por quê?
Por causa do poder deste novo bloco hegemónico. Este bloco está cada vez mais dependente dos contratos estatais. A Palantir, por exemplo, unificou as bases de dados de dezenas e dezenas de agências estatais diferentes numa única base de dados. Isto é muito importante porque, na guerra contra os migrantes, estes estão a utilizar um único ficheiro. A capacidade repressiva do Estado aumenta dezenas ou centenas de vezes através deste sistema centralizado controlado pela Palantir. Por um lado, o bloco hegemónico está cada vez mais dependente dos contratos estatais. Em segundo lugar, está cada vez mais dependente dos subsídios estatais. Tomemos o exemplo do petróleo. Trump prometeu milhares de milhões de dólares aos produtores para irem à Venezuela. É isto que está a acontecer com o bloco hegemónico: contratos, subsídios e, em terceiro lugar, a criação das condições, das políticas, necessárias para a acumulação deste bloco, através da desregulação da inteligência artificial, através da desregulação de todas as regulamentações para estas novas tecnologias digitais.
Isto leva à assimilação do programa fascista pelo capital.
Há uma fusão do Estado com o capital em torno de um projeto fascista. A fusão do grande capital com o Estado faz parte da definição clássica de fascismo, e é o que estamos a ver nos Estados Unidos neste momento. O terceiro ingrediente para o fascismo — e é aqui que entra a questão ideológica que referiu — o que distingue o fascismo de uma simples ditadura, é a mobilização fascista no seio da sociedade civil. E é isso que estamos a ver nos Estados Unidos. Assiste-se a uma mobilização fascista de um segmento da população, não só dos Proud Boys, mas também da ala direita do Partido Republicano, que mobilizou uma base fascista. Esta base tem diminuído; pode rondar os 20% ou 25% da população hoje, mas há uma mobilização aberta desta base também através do cristianismo nacionalista de extrema-direita. Tudo isto é mobilização fascista. Isto é claro com o ICE, que é o núcleo militarizado e coercivo do projecto fascista. Outra questão é qual a ideologia deste projeto. E é aí que Yarvin entra em cena. Trata-se de uma ideologia mística, uma ideologia de ultranacionalismo xenófobo. Qualquer projeto fascista precisa de racismo, mas também de milenarismo. É daí que vem o "Make America Great Again", essa promessa de restaurar a grandeza da América.
Este ultranacionalismo não é exclusivo dos EUA.
Também o temos na Rússia. A Rússia não é fascista, é outra coisa, mas Putin também baseia as suas políticas nesta ideia de restaurar uma grande Rússia. Também na China — e não estou a dizer que a China é fascista — tudo gira em torno do ultranacionalismo. Em todo o mundo, existe um ultranacionalismo que é a resposta autoritária à crise. Yarvin fala de um rei, de um sistema monárquico, mas Thiel fala também de um Estado administrado, dirigido e controlado por tecnobilionários, não por eleições democráticas. É confuso porque é uma mistura de tudo, mas estamos a assistir ao surgimento de uma ideologia fascista com as suas diferentes dimensões. Tudo isto é um projeto que se está a consolidar de uma forma assustadora, mas a resistência também está a crescer inesperadamente, e é isso que nos dá esperança.
Talvez a pergunta seja demasiado simplista, mas como explicar a alguém que não percebe de economia que os multimilionários estão cada vez mais ricos enquanto, ao mesmo tempo, podemos estar a falar de uma crise final para o capitalismo?
Não é uma questão simples. Esta é uma questão de primordial importância. Comecemos pela natureza do capitalismo, que não é evidente. A natureza do capitalismo, quando opera sem contratendências, é produzir riqueza e polarizá-la. Ou seja, uma camada cada vez mais pequena de capitalistas acumula todo o dinheiro enquanto as massas se empobrecem. Esta é a tendência natural do capitalismo. A única forma de o capital gerar lucro é a classe trabalhadora — isto é, as pessoas que trabalham para o capital — produzir valor, sendo que a maior parte possível desse valor vai para o capital e a menor parte para o trabalhador. Isso é bem conhecido. Não é novidade. O importante aqui é que, historicamente, esta é uma contradição inerente ao capitalismo e sempre levou a crises.
Que tipo de crises?
As crises cíclicas são recessões que ocorrem de dez em dez anos, aproximadamente, mas as crises estruturais acontecem de 40 ou de 50 em 50 anos, e são grandes crises de sobreacumulação. Ocorrem quando o capital se acumula tanto que não tem onde investir, e inicia-se uma estagnação muito mais profunda. Atualmente, estamos numa crise estrutural. A última crise estrutural foi na década de 70; voltarei a este assunto mais adiante. Lembremo-nos da outra grande crise estrutural, que foi a Grande Depressão dos anos 30. Antes disso, houve uma enorme crise estrutural nos anos 80. E antes disso, em 1830. Portanto, sempre que há uma crise estrutural não cíclica e não recessiva, ocorrem grandes convulsões, guerras internacionais e até mundiais, grandes reorganizações dentro do capitalismo, lutas de classes, lutas sociais... tudo muda. Estamos num desses momentos de crise estrutural, que se está a tornar uma crise sistémica. Mas antes de abordarmos isso, aquilo a que chamou a crise final, deixe-me recordar o que aconteceu após a grande crise estrutural dos anos 70.
Certo.
Nesta crise estrutural, a taxa de lucro estava a cair, enquanto o poder e a capacidade de resistência das classes populares em todo o mundo, e não apenas nos Estados Unidos, aumentavam. Era a era das lutas de libertação nacional e decolonial no Terceiro Mundo; basta pensar na vaga revolucionária de 1968. Assim, a nível global, o capital transnacional emergente que surgiu na década de 1970 e, posteriormente, enfrentou uma crise de hegemonia capitalista. Precisava de recuperar a legitimidade, recuperar a rentabilidade, aumentar a taxa de lucro e, para isso, lançou a globalização. Isto é de suma importância. Porque o que aconteceu desde a Segunda Guerra Mundial até às décadas de 1970 e 1980 foi que as lutas de massas obrigaram muitos Estados a fazer duas coisas: primeiro, regular o mercado, intervir na economia para regular o mercado e, segundo, intervir na economia para redistribuir a riqueza de cima para baixo. Estas duas coisas, estas intervenções estatais, contrariavam a tendência para a polarização da riqueza. Por outras palavras, a luta de massas obrigou os Estados a tomarem medidas que, ironicamente, salvaram o capitalismo da sua própria crise.
Este colapsou na década de 1970.
Quando o capital lançou a globalização no final do século XX, o Estado deixou de poder intervir para regular o mercado a nível nacional; não pôde mais intervir para redistribuir a riqueza para baixo. Depois, o processo de polarização recomeçou, de tal modo que, como bem sabe, hoje 1% da humanidade controla mais de metade da riqueza do planeta; 20% (e cada vez menos de 20%) controlam 95%. 85% da população mundial já não tem condições sequer para consumir. Esta é a população excedente. São as pessoas que não constituem um mercado para o capital transnacional: não produzem mais-valia. O genocídio é perpetrado contra esta população excedentária.
Esta é uma crise provocada pelo capital que ameaça o próprio capital.
Temos esta polarização incrível que representa uma crise para o sistema. Quando vemos nas manchetes que Musk será o primeiro bilionário, precisamos de perceber que esta massa de capital é fictícia. Basicamente, a economia global atingiu um valor entre 105 e 110 biliões de dólares em 2025. Isto inclui a produção de bens e serviços, as coisas de que precisamos, desde o computador com que estou a falar até à comida que vamos comer hoje. Enquanto isso, o sistema financeiro lastreado em ativos ronda os 150 triliões de dólares. Mas o sistema financeiro não garantido por activos soma 1,7 biliões de dólares. Isto significa que uma massa de capital fictícia não corresponde à realidade. Isto torna o sistema não só insustentável, como também nos permite prever uma crise catastrófica e uma desvalorização colossal.
Quando acontecerá?
Talvez aconteça no próximo ano, talvez em 2031, mas um colapso financeiro catastrófico está a caminho. Mas atenção, esta não é a crise final. Essa é a dimensão estrutural. A crise final decorre da combinação da dimensão estrutural com a dimensão social do colapso de grande parte da humanidade e da impossibilidade de reprodução social, juntamente com o colapso da biosfera. Tudo se conjuga, e o resultado final é que o capital enfrenta agora a impossibilidade de continuar a reproduzir-se; atingiu os limites da sua capacidade reprodutiva.
Não haverá crescimento económico?
A minha previsão é que, se evitarmos uma terceira Guerra Mundial, haverá uma nova era de prosperidade. Dependendo da forma como os acontecimentos se desenrolarem nos próximos anos, é possível que as tecnologias digitais aumentem tanto a produtividade que a produção real volte a prevalecer sobre a especulação financeira durante algum tempo. Assim, poderíamos ter um período de prosperidade como o que tivemos após a Segunda Guerra Mundial, mas não para as massas da humanidade, não para 4 ou 5 mil milhões de pessoas. Pela lógica do sistema, seria um período de estabilização com um estado policial global nos anos 1930 e 40 deste século. Para mim, a crise final do capitalismo global — repito, se evitarmos a Terceira Guerra Mundial — desenrolar-se-á e terminará na segunda metade do século XXI. Estou ciente de que isto é especulativo. Analítico, mas especulativo.
Referiu o estado policial global, o punho de ferro como negócio e prática de disciplina social, tema que abordou no seu livro anterior. Desde então, acontecimentos como a invasão russa da Ucrânia e o genocídio em Gaza corroboraram a hipótese de que o capital está a virar-se para o caminho das armas na sua corrida desenfreada. Acredita que a acumulação militarizada é suficiente para gerar o ciclo de valorização de que o capital necessita neste momento?
A acumulação militarizada e a acumulação por repressão — conceitos muito semelhantes, mas não idênticos — têm três funções. Em primeiro lugar, ela é muito lucrativa em si mesma, como já discutimos anteriormente. Trump já propôs um orçamento de 1,5 biliões de dólares para as despesas militares estatais até 2027. Isto representa praticamente 2% de toda a economia global apenas para a acumulação de capital militarizado. É extremamente rentável. O genocídio é lucrativo, a guerra contra a droga — que não tem a ver com a droga — na América Latina é lucrativa, e a guerra contra os migrantes é lucrativa. O segundo aspecto a destacar sobre a acumulação militarizada é que a repressão militar é como um martelo que abre violentamente espaços para a acumulação. Por exemplo, a acumulação militarizada de recursos congoleses no Ruanda enriquece algumas pessoas no Congo, mas, acima de tudo, abre espaço para a pilhagem de minerais. Assim, a segunda dimensão do Estado policial global é que abre espaço ao capital através da violência. E, finalmente, toda esta crise gera uma enorme resistência. Portanto, a terceira função do Estado policial global é reprimir e controlar a resistência. A questão que colocou é se a acumulação militarizada através da repressão pode sustentar a economia global face à estagnação e à crise. E a resposta é um rotundo não, de todo.
Por quê?
Porque apresenta contradições internas; não gera novo valor, ou é escasso. Passo a explicar: gera valor novo no sentido em que os trabalhadores produzem um míssil, um tanque ou um avião de guerra, mas estas armas não têm um mercado de massas; só têm mercado com Estados e grupos paramilitares, armados e policiais, e só continuam a ser produzidas se forem utilizadas nas guerras, na destruição. Isto é o que [Joseph] Schumpeter chamou de destruição criativa. É tão contraditório que se torna simplesmente uma medida de curto e médio prazo para manter a economia global à tona. Não é uma solução.
Referiu a possibilidade de uma Terceira Guerra Mundial. Estaríamos perante o que tem sido chamado de "guerra civil global" ou um conflito como as grandes guerras do século XX?
Uma guerra mundial, por um lado, sim, poderia ser um acumular de guerras civis e regionais e, nesse sentido, caminhamos muito rapidamente para esta Terceira Guerra Mundial. O que a torna tão perigosa é o seu poder destrutivo. Não me refiro apenas às armas nucleares, mas também às armas subnucleares, que têm um tremendo poder destrutivo, especialmente para o ambiente, pois deixam vastas áreas sem qualquer capacidade de cultivo e, por conseguinte, de sobrevivência. Mas se uma Terceira Guerra Mundial envolver ou colocar directamente os Estados Unidos contra a Rússia ou os Estados Unidos contra a China, então estamos a falar de um nível completamente diferente. E a este nível, vejo como muito, muito difícil sobrevivermos. A não ser que seja muito limitada e o seu fim seja negociado desde o início.
Muito se fala sobre o império emergente versus os EUA, o império em declínio, mas qual o papel da China neste momento?
Não sou contra a ideia de um império em declínio e um em ascensão, mas prefiro uma estrutura analítica diferente. O capital chinês é capital transnacional e funde-se com o capital de todos os outros países do Oriente, ficando indissociavelmente ligado ao capital transnacional. Mas os Estados operam a um nível diferente. Cada Estado tem o seu próprio projecto baseado na manutenção do seu território, na atracção de capital transnacional e na tentativa de convencer esse capital transnacional a defender os seus interesses estatais e políticos. No caso específico da China, estamos a falar de um modelo diferente de capitalismo. O Estado chinês desempenha um papel central na economia chinesa, uma vez que controla o sistema financeiro. Há bancos privados, há capital financeiro privado. A maior parte do capital financeiro é privado, na verdade, mas a China controla o sistema financeiro internamente, ao contrário dos Estados Unidos e da maioria dos outros países do mundo. Em segundo lugar, a China pode direcionar o investimento através das suas políticas estatais. Nos Estados Unidos, o modelo puramente neoliberal do Ocidente impede isso. E em terceiro lugar, a China tem e pode mobilizar recursos, por exemplo, para as infra-estruturas; possui infraestruturas do século XXI, enquanto o Ocidente, e especialmente os Estados Unidos, têm infraestruturas do século XX, até mesmo do século XIX, que se está a deteriorar. É outro modelo de capitalismo que, por um lado, dá alguma vida a um capitalismo do século XXI com crises menos intensas e, por outro lado, é um modelo diferente.
Por quê?
Existe um sector do capital, o do trumpismo global, que representa um segmento da elite, ligado a Israel, a Daniel Noboa, Nayib Bukele e Javier Milei na América Latina, e a alguns movimentos ultranacionalistas na Europa. O Fórum Económico Mundial representa outro sector, um sector reformista, que elogiou o capitalismo chinês e afirmou ser o tipo de capitalismo de que o mundo necessita no século XXI. Isto diz-nos muito sobre a estratégia dos intelectuais orgânicos desta elite iluminada e como eles vêem a China. Mas é aqui que entram as contradições do modelo chinês. A primeira é que o capitalismo se rege pela lei do valor, pela rentabilidade e pela urgência da rentabilidade. Rege-se por uma contradição, ainda que mediada pelo Estado, entre o capital e o trabalho. Não esqueçamos que a China acaba de anunciar um défice comercial com o mundo de 1,2 biliões de dólares até 2025. Isto é sem precedentes e reflecte a enorme sobrecapacidade da economia global. Esta sobrecapacidade indica que a acumulação do desenvolvimento capitalista na China depende cada vez mais da abertura dos mercados, da apropriação de recursos e da expansão global. E isso gera tensões comerciais, políticas e geopolíticas em todo o mundo.
Faz parte do mesmo sistema em crise.
A China, por ser capitalista e ter supercapacidade, necessita de se expandir globalmente, tal como os Estados Unidos. Isto significa que é um projeto repleto de conflitos e com um futuro muito negro. A esquerda internacional, ou sectores da esquerda internacional, insistem que a China é o futuro da humanidade; alguns até dizem que é socialista, mas isso é ridículo. Falando como sociólogo, nem sequer como esquerdista, é capitalismo, claramente capitalismo. Dizem que não há problema e que isso beneficia o Sul Global, mas quando estudamos cada caso em que operam empresas público-privadas chinesas, há destruição ambiental, expropriação e conflitos com as comunidades. Há uma apropriação voraz de recursos. Noventa por cento do cobalto no Congo é extraído por empresas chinesas através de pilhagens indizíveis. Na América Latina, a situação é comparável à dos Estados Unidos: extracção de minerais, expropriação das populações locais, indígenas e camponesas, e abertura de minas. E contam com os exércitos e as forças policiais latino-americanas para reprimir a resistência. A China é um parceiro comercial de Israel. Forneceu a Israel tecnologia de reconhecimento facial e drones. Não participa diretamente no genocídio, mas torna-o possível. A ideia de que a China é o futuro de um capitalismo humanizado é ridícula; dizer que é o socialismo do futuro é ridículo; dizer que a China é a grande amiga das massas empobrecidas do Sul Global contradiz a realidade empírica.
Há três anos, disse que um projeto de esquerda transnacional era uma necessidade. Vê algum progresso?
Até que ponto devemos avançar no sentido de falar de um projecto antifascista transnacional para enfrentar esta policrise? Sim, precisamos de uma frente antifascista unida que precisa de ser transnacional. Os detalhes de quem esta frente antifascista unida inclui, como se formaria, se precisamos ou não de entrar em alianças com a chamada elite iluminista de Davos, porque também são capitalistas selvagens hoje em dia, são questões a que não posso responder. Mas acredito que esta frente antifascista unida é urgente. Mas sempre disse, e penso que tocámos um pouco nisso na última entrevista, que existe um enorme fosso global entre os levantamentos populares e as rebeliões em todo o mundo, especialmente entre a Geração Z. As massas estão prontas para se levantar e desafiar este sistema.
O que te leva a dizer isso?
O capitalismo global está a sofrer uma crise de legitimidade política entre as massas. O Cato Institute, de orientação conservadora, realizou um inquérito em 2025 a jovens dos 18 aos 29 anos nos Estados Unidos. O inquérito consistia em duas perguntas: “Gostaria de ter socialismo?” 62% responderam que sim. A segunda questão era: “Tem uma opinião favorável ou desfavorável sobre o comunismo?” Não o socialismo, o comunismo. 34% disseram ter uma opinião favorável. E isto está a acontecer em todo o mundo, em maior ou menor grau, país a país, especialmente entre a Geração Z. A massa da humanidade, biliões de nós, não consegue viver neste sistema; não o consideramos legítimo; estamos a insurgir-nos. Enquanto isso, a esquerda organizada e institucional continua em crise. Ela não conseguiu renovar-se para o século XXI; não conseguiu fornecer liderança ou uma visão mais ampla para as massas que querem desafiar o sistema. Esta desconexão persiste e é mais urgente do que nunca acabar com ela. O que estamos a ver aqui nos Estados Unidos é que as pessoas já estão no meio de uma revolta e estão a formar coligações. Mas não há esquerda. O Partido Democrata é um partido falido que não oferece nada. Alguns indivíduos oferecem, como Zohran Mamdani, mas o partido em si não oferece nada. Portanto, temos este enorme desafio de como dar alguma coerência a toda esta resistência. Não tenho a resposta, não tenho a solução. Eu só tenho este diagnóstico do problema.
Entrevista feita por Pablo Eloydur
Publicado originalmente em https://www.elsaltodiario.com/pensamiento/william-i-robinson-guerra-migrantes-es-un-ataque-toda-clase-obrera?&utm_medium=social&utm_campaign=web&utm_source=telegram
