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O cerco a Cuba e a agressividade de um imperialismo em declínio
Que Deus proteja a terra de José Martí e de Fidel Castro da fúria de um imperialismo que, em sua fase derradeira, parece confundir poder com castigo e liderança com imposição.
Publicado em 03/03/2026 14:00
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A recente escalada de pressão dos Estados Unidos contra Cuba, com ameaças explícitas a qualquer país que forneça petróleo ou derivados à ilha, recoloca no centro do debate internacional uma questão antiga: até que ponto a política externa de uma grande potência pode recorrer à asfixia económica como instrumento legítimo de pressão?

 

Sob a liderança de Donald Trump, Washington voltou a classificar Havana como “ameaça excepcional à segurança nacional” e endureceu o discurso contra parceiros comerciais dispostos a manter relações energéticas com o país caribenho.

 

O resultado imediato é uma crise energética que já afeta transporte, fornecimento de eletricidade, funcionamento de hotéis e operações aéreas.

Em termos práticos, cortar combustível a uma nação insular altamente dependente de importações significa mais do que uma disputa diplomática. Significa hospitais com geradores racionados, cadeias de abastecimento fragilizadas, dificuldades na distribuição de alimentos e água. A energia, que deveria ser base da vida económica e social, transforma-se em arma geopolítica.

 

Defensores da linha dura argumentam que a pressão económica é uma alternativa menos violenta do que a intervenção militar. Contudo, quando as sanções atingem setores essenciais à sobrevivência cotidiana, o debate deixa de ser apenas estratégico e passa a ser moral. O alvo declarado pode ser o governo cubano, mas o impacto recai inevitavelmente sobre a população civil.

 

É nesse ponto que a política assume contornos mais inquietantes. O uso sistemático de sanções como mecanismo de coerção revela uma lógica de poder que privilegia o castigo coletivo como ferramenta de negociação. Trata-se de uma prática que muitos consideram contraproducente: ao invés de enfraquecer exclusivamente a elite governante, tende a consolidar discursos de resistência interna e a reforçar alianças externas alternativas.

 

A eventual entrada da Rússia como fornecedora de petróleo à ilha ilustra precisamente esse efeito colateral. Ao tentar isolar Havana, Washington corre o risco de aprofundar a presença de potências rivais na região. A geopolítica não tolera vazios: onde um ator se retira ou pressiona excessivamente, outro encontra oportunidade de influência.

 

Do ponto de vista histórico, o recurso crescente à coerção económica costuma acompanhar momentos de declínio relativo de poder. Já no século XIX, Karl Marx analisava como as grandes potências capitalistas, diante de crises e limitações estruturais, intensificavam a expansão e o controle externo para compensar tensões internas. Quando a capacidade de convencimento diminui, cresce a tentação de impor.

 

Isso não significa ignorar os problemas internos de Cuba, nem absolver suas próprias responsabilidades. Significa reconhecer que políticas de estrangulamento económico raramente produzem transições estáveis ou soluções duradouras. Ao contrário, tendem a agravar crises humanitárias e a ampliar polarizações internacionais.

 

O mundo assiste, assim, a um cenário em que a energia se converte em instrumento de disputa ideológica e estratégica. O cerco a Cuba não é apenas um capítulo isolado da política americana; é um reflexo de uma ordem internacional em transformação, na qual antigas hegemonias enfrentam novos limites.

 

Se o império recorre cada vez mais à ameaça e à sanção para reafirmar sua influência, talvez esteja revelando não sua força, mas sua insegurança. E quando a coerção substitui a diplomacia como linguagem dominante, o custo humano deixa de ser um efeito colateral e passa a ser parte central do problema.

Que Deus proteja a terra de José Martí e de Fidel Castro da fúria de um imperialismo que, em sua fase derradeira, parece confundir poder com castigo e liderança com imposição.

 

Porque, no fim das contas, as disputas entre Estados passam; os impérios ascendem e declinam; mas os povos — com sua memória, sua cultura e sua dignidade — permanecem.

 

 

Autor: Coronel Adriano Pires in Facebook

 

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