Há um momento particular na vida das sociedades em que uma emoção coletiva começa a mudar de lugar. O medo deixa de estar apenas do outro lado da fronteira e passa a atravessar também as próprias ruas, as casas, as conversas familiares. Quando isso acontece, o medo ganha um sabor estranho: o sabor da descoberta.
Durante décadas, os habitantes da Faixa de Gaza viveram sob uma realidade marcada por bloqueios, bombardeamentos periódicos, destruição de infraestruturas e uma sensação permanente de vulnerabilidade. Para muitos palestinianos, o medo não era um episódio - era uma condição quotidiana.
Do outro lado, em Israel, grande parte da sociedade habituou-se a olhar essa realidade como uma consequência inevitável da segurança nacional. A narrativa dominante sustentava-se na ideia de sobrevivência histórica, profundamente marcada pelo trauma coletivo do povo judeu. Esse trauma moldou políticas, justificou estratégias e construiu uma percepção de ameaça permanente.
Mas a sociologia das emoções coletivas mostra algo importante: o medo não é estático. Ele circula, transforma-se e, por vezes, regressa.
Nos últimos dias, muitos israelitas começaram a sentir de forma mais direta aquilo que durante décadas esteve concentrado sobretudo na experiência palestiniana: a sensação de insegurança, de imprevisibilidade, de vulnerabilidade diante da violência. Esse deslocamento da experiência do medo produz inevitavelmente perguntas novas dentro da própria sociedade. O medo, quando atravessa fronteiras psicológicas, pode tornar-se um espelho cruel. Nesse espelho, algumas sociedades começam a reconhecer que a segurança construída apenas sobre a força dificilmente gera estabilidade duradoura. Pelo contrário, tende a alimentar ciclos de violência em que cada geração herda o ressentimento da anterior.
Ao mesmo tempo, a política israelita continua profundamente influenciada por correntes do Sionismo que, em certas interpretações religiosas e nacionalistas, procuram legitimar reivindicações territoriais ou políticas através de uma leitura de “mandato divino”. Para muitos críticos - dentro e fora de Israel - essa mistura entre religião e poder político tem servido para justificar práticas que agravam o conflito em vez de o resolver.
A história mostra que nenhuma sociedade permanece indefinidamente imune às consequências das suas próprias escolhas políticas. Quando o medo começa a ser partilhado, abre-se também a possibilidade de reflexão coletiva. Talvez seja precisamente esse o momento que começa agora a emergir: o momento em que uma parte da sociedade israelita pode reconhecer que a segurança verdadeira não nasce da dominação permanente de outros povos, mas da construção de um horizonte político em que os povos possam existir sem que um viva eternamente no medo do outro.
Se esse reconhecimento surgir, o medo - esse medo de sabor estranho - poderá transformar-se em algo diferente: uma oportunidade rara para quebrar um ciclo que dura há gerações. Mas, para isso, os israelitas tem que tirar o sionismo do poder.
João Gomes in Facebook