Pode parecer comum um fato de que, para aqueles que estão minimamente familiarizados com o fenômeno sionista, o enxergarem como um simples movimento político nacionalista e secular.
Mas o sionismo tem profunda influência rabínica, e, nos últimos anos, o estudo e a divulgação desses estudos vem se aprofundando. Para se ter ideia, existem registros de que pelo menos 6 rabinos tem forte influência na condução e na construção da “ideologia” sionista, sendo os mais importantes dos séculos XIX e início do XX: Yehudah ben Shlomo Alkalai (1798–1878), Zvi Hirsch Kalischer (1795–1874), Samuel Mohliver (1824– 1891), Jacob Reines (1839–1915), Abraham Isaac Kook (1865–1935) e Judah Leib (Fishman) Maimon (1875–1962). Essas figuras representaram no seio da comunidade judaica de suas épocas fortes influência na construção de um estado judeu, e esses rabinos combinaram a vida e o pensamento judaico tradicional com o sionismo prático.
O pioneiro e mais velho, o rabino Yehudah Ben Shlomo Chai Alkalai, foi nada mais nada menos que o guru do avô paterno de Theodor Herzl, (Simon Loeb Herz), que frequentava a sinagoga de Alkalai em Semlin e os dois se visitavam com frequência. O avô de Herzl “tinha em mãos” uma das primeiras cópias da obra de Alkalai de 1857, que prescrevia o “retorno dos judeus à Terra Santa e a glória renovada de Jerusalém”. Vários estudos apontam que a própria implementação do sionismo moderno por Herzl foi, sem dúvida alguma, influenciada por esse relacionamento rabínico.
Foi o mesmo Alkalai, contemporâneo de Kalischer e líder da comunidade judaica autônoma na Terra de Israel, cuja influência foi marcada pela sua alcunha de “profeta” do sionismo no meio rabínico. Ele desenvolveu o conceito de “teshuvá” a ideia de que com o arrependimento quanto retorno à Terra de Israel, cuja combinação poderia levar à redenção completa. Alkalai também escreveu propostas práticas para o retorno do povo judeu à sua terra, que prenunciaram desenvolvimentos futuros dentro do próprio sionismo.
Mas, nesse ilustre rabinato, a figura de maior destaque é Abraham Isaac Kook. Para esse influente rabino, o sionismo era bastante diferente. Segundo ele, a aquisição e o estabelecimento de terras em Israel eram um “imperativo haláchico.” Ele acreditava que a insatisfação com a natureza secular da maioria dos assentamentos não eximia o povo judeu de seu dever haláchico de desenvolver a terra.
Abraham Isaac Kook foi o rabino-chefe da Palestina Ashkenazi sob o mandato britânico. Kook, no entanto, teve que empreender uma interpretação radical de toda a tradição religiosa para transformar uma esperança messiânica religiosa passiva na base da colaboração com um movimento político secular ativista.
Podemos dizer que Kook está para o sionismo como Ibn Al-Wahhab está para o Salafismo. Uma dessas características é o sh’virat ha-kelim, alerta tradicional contra inovações na religião. Porém, Kook sabia que estava entrando em território perigoso, o Pomar Proibido (parça), e teve que seguir um curso delicado entre inovação e permanecer dentro dos limites da tradição normativa enquanto a mudava radicalmente. Por essa razão, é possível referir-se apenas aos aspectos do pensamento do rabino Kook que têm uma relação direta com a transformação do judaísmo religioso do antigo inimigo implacável do sionismo em um dos principais ingredientes no desenvolvimento do próprio movimento sionista.
Por razões políticas e públicas óbvias, os sionistas religiosos atuais nem sempre estão muito ansiosos para apontar os retardatários do movimento sionista que foram e que o sionismo foi inicialmente perseguido pela liderança religiosa tradicional. Qualquer que seja a motivação política para essa reescrita da história, ela menospreza a conquista intelectual do rabino Kook, fazendo a ponte entre o sionismo e a tradição religiosa. Compreender a importância histórica da reconciliação do rabino Kook entre o sionismo e a tradição religiosa judaica requer uma consciência da profundidade e intensidade da inimizade e ódio entre sionistas e judeus ortodoxos no início do desenvolvimento do sionismo.
Podemos resumir seu trabalho em três princípios principais do conceito do rabino Kook em relação entre o pensamento religioso tradicional e o nacionalismo judeu moderno:
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Conferir um significado essencialmente religioso à centralidade da Terra de Israel terrestre e não meramente celestial;
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Desenvolver uma percepção dialética sobre a relação entre a religião judaica e a praxis sionista secular; e
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Conferir significado universal ao renascimento judaico dentro da estrutura de uma filosofia religiosa.
Para Kook, viver na diáspora significa levar uma vida de impiedade, e somente viver na Terra de Israel pode libertar uma pessoa dessa situação. Com um radicalismo sem precedentes, Kook vê a necessidade de um retorno a Sião não como um mero postulado messiânico, A criatividade original judaica, seja no campo das ideias ou na arena da vida e das ações diárias, é impossível, exceto na grande Israel, ou Eretz Yisrael. Um judeu não pode ser tão devotado e fiel às suas próprias ideias, sentimentos e imaginação na diáspora quanto em Eretz Yisrael. Revelações do Santo, de qualquer grau, são relativamente puras em Eretz Yisrael; fora dela, eles são misturados com escória social e muita impureza…
Na Terra Santa, a imaginação do homem é lúcida e clara, limpa e pura, capaz de receber as revelações da Verdade Divina e de expressar na vida o sublime significado do ideal da soberania da santidade; ali a mente está preparada para entender a luz da profecia e ser iluminada pelo esplendor do Espírito Santo. Nas terras gentias, a imaginação é obscura, obscurecida pela escuridão e obscurecida pela profanidade, e não pode servir como o vaso para o derramamento da Luz Divina.
É óbvio que, se essa não fosse apenas a pregação do judaísmo ao longo das gerações, mas também sua práxis histórica, a vida judaica na diáspora não teria se desenvolvido da mesma forma e a simbiose entre religiosidade e exílio não teria emergido. O que o rabino Kook está tentando aqui é um ataque radical a toda a tradição religiosa judaica de se acomodar à vida no exílio, de aceitá-la e aprender a viver com ela. Ao mesmo tempo, é claro que um ataque religioso tão radical ao quietismo religioso judaico só poderia surgir depois que o sionismo, com sua abordagem secular e mundana, abriu novos caminhos para a identidade judaica.
O principal legado de Kook, no entanto, foi um centro de estudos chamado Mercaz HaRav, o “Centro do Rabino”. Essa instituição tornou-se um foco da versão mais extrema do sionismo: uma mistura de ideias messiânicas e racismo flagrante contra os palestinos, juntamente com um desprezo declarado pelo judaísmo secular e reformista.
Seu filho, Zvi Yehuda HaKohen Kook (1891-1982), foi o verdadeiro pai ideológico do movimento messiânico Gush Emunim (”Bloco dos Fiéis”), que judaizou a Cisjordânia e a Faixa de Gaza após 1967. Ao longo dos anos, esse movimento passou das margens do sistema político israelense para o seu centro. Mas qual é a importância desses rabinos para Israel atualmente? É simples, um grupo paramilitar conhecido como “Juventude da Colina” (Noar Havat em hebraico) intimidava constantemente os vizinhos palestinos, incendiando propriedades e plantações, arrancando oliveiras e entrando em confronto com os agricultores que cultivavam suas terras, isso é um pequeno exemplo da radicalização desse discurso.
Esses colonos se tornaram a vanguarda do sionismo religioso, um novo movimento de massas que se transformou em uma força política a ser considerada. Os sionistas religiosos não querem simplesmente colonizar a Cisjordânia: eles querem transformar Israel em uma teocracia judaica, totalmente. Na medida que Israel se deslocava para a direita com uma velocidade bem aguda nos últimos anos, a vida dos palestinos, tanto dentro do Estado judeu quanto nos territórios ocupados, só piorou. Entre 1972 e 1989, os residentes palestinos podiam circular livremente entre Gaza, a Cisjordânia e Israel; mais de 100.000 habitantes de Gaza trabalhavam no país. Atualmente, após décadas do “processo de paz”, os palestinos têm menos direitos do que nunca.
“Kook Jr.” promoveu a colonização da Cisjordânia e da Faixa de Gaza como um imperativo religioso para acelerar a redenção do povo judeu. Sua voz foi, de certa forma, silenciada durante os anos 1967/1968–1977 do governo do Partido Trabalhista Israelense, com governos que estenderam diretamente a colonização, particularmente nas áreas palestinas menos densamente povoadas. Os discípulos de Kook, no entanto, não se contentaram com esses esforços: eles queriam colonizar as cidades bíblicas da Cisjordânia, então densamente povoadas por palestinos.
Esses dois tipos de colonização da Cisjordânia, o primeiro ditado pelas considerações estratégicas do Partido Trabalhista (que são a ala de esquerda do sionismo) para a segurança de Israel; o segundo alimentado pelas aspirações religiosas do Gush Emunim, movimento liderados por seguidores de Kook como os Kahanistas de Meir Kahane, tornaram-se uma política de Estado unificada (interesses estratégicos do estado profundo judeu) com a ascensão do partido Likud ao poder em 1977, sob a liderança de Menachem Begin.
Sob o novo governo, o primeiro de Israel liderado por um partido de direita, Kook Jr. ascendeu à proeminência como líder espiritual dos colonos que ocupavam grandes partes da Cisjordânia, construindo seus postos avançados em áreas palestinas densamente povoadas. Em Jerusalém, militantes israelenses têm tentado repetidamente invadir o complexo da Mesquita de Al-Aqsa, onde se localiza o Monte do Templo. Eles esperam que isso desencadeie um conflito regional que culmine na construção do Terceiro Templo sobre as ruínas da Mesquita de Al-Aqsa (nível de delírio). Isso, supostamente por razões de segurança, tem sido acompanhado por repetidas intervenções da polícia israelense no Monte do Templo enquanto palestinos oram dentro da Mesquita de Al-Aqsa .
Após as eleições de 2022, dois partidos pró-colonos — Otzma Yehudit (” Poder Judaico”) e HaTzionut HaDatit (”Sionismo Religioso”) ajudaram Netanyahu a formar um governo no qual dois de seus representantes Itamar Ben-Gvir e Bezalel Smotrich, este último conhecido por declarar que “ não existe um povo palestino” — tornaram-se Ministro da Segurança Nacional e Ministro das Finanças, respectivamente bem como ministro responsável pela Cisjordânia dentro do Ministério da Defesa. Esse figurão do radicalismo que é Ben-Gvir incitou o ódio ao primeiro-ministro Yitzhak Rabin poucas semanas antes de seu assassinato, foi condenado por incitar o racismo e, aos dezoito anos, foi considerado perigoso demais para ser convocado para as Forças de Defesa de Israel.
Portanto, tendo o Rabino Kook, o Ancião do sionismo, não podemos cair mais no erro de achar que Israel possui uma oposição “interna” secular. Foi Kook que lançou as sementes da concepção do Estado de Israel sobre os judeus seculares. Em sua visão, eles cumpririam o papel do jumento do Messias, uma alusão a Zacarias 9:9:
“Alegra-te muito, ó filha de Sião! Exulta, ó filha de Jerusalém! Eis que o teu rei vem a ti. Justo e vitorioso é ele, humilde, montado num jumento, num jumentinho, cria de jumenta.”
Os judeus seculares realizaram o trabalho árduo, o trabalho do jumento, de estabelecer o Estado de Israel, um esforço que durou décadas, começando em 1892, quando os primeiros colonos sionistas chegaram a Jaffa. Mas seu papel histórico acabou. Agora, os sionistas ultra religiosos tomando o poder buscam transformar a antiga pátria em um Estado verdadeiramente religioso - nas palavras do velho e bom historiador judeu Flávio Josefus, uma teocracia. Kook, o Ancião, herdou essa visão e tornou-se seu defensor, agora Netanyahu e seu gabinete no auge da loucura querem toda terra da Eretz Yisrael, mesmo que isso custe o fim de Israel.
Autor: Renzo Souza Santos: formado em História, tradutor e professor de Geopolítica
Notas:
[1] - Artigo publicado originalmente no Substack pessoal do autor em 09/04/2026. O editor-chefe se reservou ao direito de realizar ajustes no texto para efeitos de padronização.
Referências utilizadas neste artigo:
PAPPÉ, I.. El final de Israel: Ocho revoluciones que podrían conducir a la descolonización y la coexistencia. Madrid: Akal, 2026.
AVINERI, S.. The Making of Modern Zionism: the Intellectual Origins of Jewish State - ed. 2017 - Nova York: Basic Books, 2017.
GOLDWATER. R.. Pioneers of Religious Zionism: Rabbis Alkalai, Kalischer, Mohliver, Reines, Kook e Maimon. Jerusalém: Urim Publications, 2009.