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Armas imaginárias, guerras muito reais: quando o Império recicla as suas mentiras
Porque por trás da retórica civilizadora reside uma força motriz muito menos poética, porém ancestral: a hegemonia. Controlar rotas de energia, assegurar recursos estratégicos, impedir o surgimento de potências rivais. Petróleo iraquiano ontem, Golfo Pérsico e Estreito de Ormuz hoje. Impérios jamais cruzam oceanos para oferecer buquês de flores.
Por Administrador
Publicado em 20/05/2026 12:30
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Imagem gerada por IA no ChatGPT

 

Às vezes, basta mudar o nome do país e a cor da bandeira para repetir exatamente a mesma história. Em 2002, era Saddam Hussein e as suas míticas "armas de destruição em massa". Em 2026, o roteiro reciclado veste uma roupagem diferente: o Irão e o seu programa nuclear, apresentado como um apocalipse iminente que precisava de ser neutralizado a qualquer momento. Hollywood chama isso de reinício. Washington chama de doutrina estratégica.

Vamos ouvir George W. Bush. O Iraque era supostamente uma ameaça existencial: Saddam estava "a desenvolver armas de destruição em massa", havia invadido países vizinhos, estava a envenenar o seu próprio povo e não respeitava nem a liberdade nem a dissidência. A fórmula era elegante: um tirano absoluto + uma arma absoluta = uma guerra moralmente obrigatória. Não importava que as evidências se assemelhassem a um castelo de areia em meio a um furacão. O importante era a atmosfera.

A história, porém, já deu o seu veredito. Em março de 2003, os Estados Unidos invadiram o Iraque sob o pretexto de alegadas armas químicas e biológicas. O resultado? O Relatório Duelfer, encomendado pela CIA em 2004, concluiu que o Iraque não possuía um arsenal ativo de armas de destruição em massa. Até mesmo o Relatório Chilcot britânico (2016) admitiu que as informações de inteligência foram apresentadas com uma certeza injustificada e que as alternativas pacíficas não haviam sido esgotadas. Uma guerra vendida como prevenção, que terminou como um monumento à instabilidade.

E eis que Donald Trump desempoeira o velho manual do Império: o Irão poderia adquirir armas nucleares, portanto devemos agir rapidamente, atacar com força, salvar o mundo livre — aquela franquia geopolítica em que as bombas americanas sempre chegam acompanhadas de retórica sobre liberdade. A parte mais irónica? As próprias agências americanas frequentemente complicam essa narrativa simplista. Durante anos, as avaliações da inteligência americana indicaram que Teerão não estava necessariamente desenvolvendo um programa ativo de armas nucleares, enquanto a AIEA monitorava, documentava, negociava e alertava sobre as capacidades, sem concluir automaticamente que uma bomba era iminente.

Mas o Império nunca vende uma guerra como uma guerra. Não. Ele vende uma cruzada moral. Ontem as armas de destruição em massa de Saddam, hoje a bomba iraniana, amanhã outra coisa. O pretexto muda; o reflexo permanece: intervenção do outro lado do mundo, uma moralidade universalista com geometria flexível e os mercados aplaudindo nos bastidores.

Porque por trás da retórica civilizadora reside uma força motriz muito menos poética, porém ancestral: a hegemonia. Controlar rotas de energia, assegurar recursos estratégicos, impedir o surgimento de potências rivais. Petróleo iraquiano ontem, Golfo Pérsico e Estreito de Ormuz hoje. Impérios jamais cruzam oceanos para oferecer buquês de flores.

Os lucros, porém, sempre encontram um jeito: indústrias de defesa, especulação energética, reconstrução, contratos privados. Enquanto isso, o resto do mundo herda os "efeitos colaterais": inflação, preços exorbitantes da energia, refugiados, caos regional e polarização global.

O Império adora guerras preventivas: permite que bombardeie hoje para justificar amanhã por que foi absolutamente necessário bombardear ontem. E quando as provas desaparecem? Sem problema. A narrativa muda. A democracia foi salva. Em algum lugar. Provavelmente.



@BPARTISANS

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