Peço desculpa pelo tema (sei que posso acionar gatilhos em alguns amigos), mas sinto que preciso de partilhar. Vai fazer-me bem. Desculpem-me também o egoísmo.
Acabo de ver algo na televisão que não só me deixou com um nó na garganta, como me ativou a mítica "síndrome do Bonga": aquela lágrima teimosa no canto do olho, na corda bamba, no sai-não-sai.
Foi no fecho do Jornal Nacional da TVI. O jornalista José Alberto Carvalho exibia aquele sorriso de quem sabe que vai largar uma autêntica bomba de oxigénio na casa de milhares de portugueses, habituados a quase duas horas de desgraças naquele formato. Anunciou solenemente: "E agora, uma boa notícia." Confesso que quase pensei que o Governo tinha caído. Não foi, mas foi muito melhor. Que notícia, meus amigos!
Talvez o estado em que fiquei se deva ao facto de esse maldito cancro me ter levado o meu pai em apenas um ano e meio. Era uma das pessoas que eu mais amava; aliás, o passado não se aplica aqui, porque continuo a amá-lo da mesmíssima forma. Pena já terem passado nove anos e a ferida ainda doer como dói e parecer longe de cicatrizar.
Por isso, ouvir falar de avanços na abordagem terapêutica do tumor do pâncreas, cabeça e pescoço mexeu comigo profundamente. Para quem sentiu na pele a dor de ver esse parasita biológico ditar o ponto final na vida de alguém tão próximo, o que vi há pouco no ecrã foi uma lição de que a humanidade está finalmente a aprender a vencer esta batalha.
Os dados deste novo tratamento experimental não são apenas animadores; são um autêntico soco no estômago da enfermidade, mostrando que um diagnóstico destes já não tem de ser uma sentença de morte. Falamos de algo que revelou o dobro ou o triplo do sucesso da velha e agressiva quimioterapia, duplicando o tempo médio de sobrevivência e reduzindo de forma drástica a taxa de mortalidade. De repente, a esperança, que há muito parecia estagnada no combate a estes tumores, renasceu com um vigor sem precedentes. O inimigo perdeu terreno, porque a ciência decidiu finalmente inverter as regras do jogo.
Mas o momento que me desarmou, e que só vendo se consegue digerir, foi a reação humana por trás da bata branca. Imaginem a cena: um congresso internacional de oncologia, uma sala cheia de mentes brilhantes, cientistas habituados à frieza dos gráficos e médicos que treinam o rosto para não vacilar diante dos piores cenários. Pessoas que, por norma, celebram descobertas com um aceno de cabeça e um sorriso polido. Pois bem, quando os resultados foram divulgados, a pose de "doutor" caiu por terra.
O protocolo científico foi esmagado por cinco minutos de aplausos de pé, abraços apertados e um choro coletivo de pura emoção. Ver os maiores especialistas do mundo a chorar como o Cristiano Ronaldo na Final do Campeonato da Europa em França é a prova de que a esperança é a coisa mais contagiosa do planeta. Eles, que tão bem sabem o que custa perder um paciente, celebraram ontem o prazer de dar um valente "mata-leão" no cancro.
Meus amigos, sabemos que o caminho da medicina é longo e prudente. Mas ontem, a humanidade marcou um golo de bicicleta aos 90 minutos de um jogo que parecia perdido. Se isto resolve tudo amanhã? Ainda não. Mas garante-nos três vezes mais eficácia e o dobro do tempo para os filhos chatearem os pais nas próximas décadas. E como eu gostava de chatear o meu... A escolha entre render-se ou lutar com estas novas armas tornou-se muito mais fácil. O vilão desta história começa a perder o pio.
O nó na minha garganta não foi só de tristeza. Foi uma mistura de saudade profunda do meu pai com a emoção de perceber que, num laboratório qualquer, alguém não desistiu de nós. Que venham mais boas notícias destas, José Alberto. O mundo e os nossos canais lacrimais agradecem. E que esta descoberta, mesmo que tardia, mande o cancro, definitivamente, para o inferno — o mesmo lugar para onde eu mandaria aqueles que hoje se manifestaram contra a greve e tentaram, por todos os meios, boicotá-la.
Mais uma vez, peço desculpa àqueles a quem fiz recordar situações tristes e indesejáveis. Um abraço muito apertado a todos os que, como eu, perderam os seus entes queridos, e também àqueles que passaram por isto e conseguiram ultrapassar.
Luís Santos in Facebook