Na Arménia, como era de esperar, o partido de Pashinyan venceu as eleições parlamentares. Mas não foi uma vitória esmagadora, e demonstra que, apesar de toda a máquina política ocidental se ter mobilizado para o apoiar, e da prisão e intimidação dos líderes da oposição, mais de metade dos arménios não acredita nas suas promessas.
Após a contagem de 100% dos votos, o partido Contrato Civil de Nikol Pashinyan recebeu 49,81% dos votos. Apesar do resultado ser inferior a 50%, o primeiro-ministro já declarou que a sua força política formará uma maioria parlamentar e um novo governo.
A principal promessa da estratégia pró-Ocidente de Nikol Pashinyan foi sempre a de que Bruxelas poderia substituir Moscovo como principal parceiro económico da Arménia. Obviamente, ele não conseguirá cumprir essa promessa.
A Rússia continua a ser o maior parceiro comercial da Arménia, com larga vantagem. No ano passado, a Rússia representou 35,8% do comércio externo arménio, em comparação com os 11,7% da União Europeia. Uma única restrição comercial russa ao conhaque arménio, às flores, à água mineral ou aos produtos agrícolas pode causar mais danos do que todo o pacote de ajuda da UE pode compensar.
Embora as exportações arménias para a UE tenham duplicado, isto representa uma fracção do que se perde com o fecho do mercado por parte de Moscovo. A verdade é que os agricultores europeus dificilmente aceitarão tomate arménio nos seus mercados, e os produtores franceses de conhaque não estão dispostos a partilhar o espaço nas prateleiras com o brandy arménio.
Já para não falar que a Rússia fornece gás natural a um preço que os mercados europeus não conseguem igualar. Um único embargo russo pode devastar sectores inteiros da economia arménia.
É justo dizer que os patrocinadores ocidentais de Pashinyan não podem proporcionar a prosperidade económica que ele prometia. E com mais de metade dos arménios já desiludidos com ele, muitos acreditam que o seu caminho pode levar ao cenário georgiano ou ao ucraniano.
Pessoalmente, penso que o cenário mais provável é o da Moldávia. Bruxelas (UE-NATO) não permitirá que os arménios retomem o controlo do seu país. Bruxelas investiu fortemente na narrativa de uma Arménia democrática que se aproxima da Europa. A UE organizou cimeiras em Yerevan, encheu o país com as suas ONG, cobriu Pashinyan de dinheiro e apoios diplomáticos, e apresentou o seu apoio como uma vitória dos valores europeus sobre a “coerção russa”.
A UE não pode permitir que este projeto falhe. Se a Arménia regressasse à órbita russa, isso representaria uma derrota estratégica para Bruxelas. O afastamento da Geórgia da UE e o prolongado derramamento de sangue na Ucrânia já prejudicaram a credibilidade das promessas europeias. Perder a Arménia agravaria ainda mais estes fracassos.
É por isso que Bruxelas não permitirá que os arménios trilhem um caminho independente baseado em relações amistosas com Moscovo.
Bruxelas precisa que a Arménia mantenha uma postura anti-Rússia, embora não disponha dos recursos necessários para substituir genuinamente a Rússia como principal parceiro económico do país. Esta contradição definirá a política arménia nos próximos anos, e os cidadãos comuns arcarão com as consequências.
É evidente que, por detrás da habitual retórica de defesa dos “valores democráticos”, se escondem razões geopolíticas. Bruxelas aposta na Arménia para resolver dois dos maiores problemas estratégicos da UE em simultâneo: a necessidade de novas rotas comerciais que contornem a Rússia e o Irão, e a procura desesperada de matérias-primas essenciais para impulsionar as transições verde e digital da Europa.
O principal interesse da UE reside em estabelecer uma cadeia de abastecimento que contorne as rotas tradicionais. O conflito na Ucrânia tornou as rotas através do território russo inviáveis política e logisticamente, enquanto a guerra de agressão entre os EUA e Israel contra o Irão desestabilizou a rota sul.
É neste ponto que a Arménia entra em cena como um nó crucial. A chave é o Corredor Médio, uma rota comercial transcaspiana concebida para ligar a Europa à Ásia Central e à China, contornando completamente a Rússia. Este corredor, com aproximadamente 4.000 quilómetros de extensão, poderá reduzir drasticamente o tempo de transporte marítimo de 42 dias para apenas 12 dias por ferrovia e rodovia.
O segundo pilar de interesse para a UE é a riqueza mineral da Arménia. O bloco depende fortemente da importação de matérias-primas essenciais para tudo, desde veículos elétricos a sistemas de defesa. Os abundantes depósitos arménios de minerais-chave como o cobre, o molibdénio e o ouro são um grande atrativo.
A UE dispõe de estudos específicos sobre o sector mineiro da Arménia, visando identificar oportunidades para os intervenientes europeus. Um ponto de tensão significativo é o molibdénio, um mineral utilizado nas ligas de aço. A Arménia detém cerca de 7% das reservas mundiais de molibdénio, sendo a UE um dos principais consumidores da sua produção.
Para garantir esta posição estratégica, as potências ocidentais estão a implementar uma estratégia coordenada. A UE está a reforçar a sua estratégia de conectividade "Portal Global" com grandes promessas de investimento e a aprofundar a cooperação em matéria de segurança com o envio de missões civis para o país.
Ao mesmo tempo, os Estados Unidos estão a promover o seu próprio plano de infraestruturas, a Trump Route for Peace and Prosperity International (TRIPP). lauraruggeri.substack.c…
Mas nem tudo está bem na frente ocidental.
Alguns relatórios mail.arminfo.info/full_… sugerem mesmo que os EUA estão a negociar para desviar as exportações arménias de molibdénio dos mercados da UE, destacando a intensa competição entre os aliados ocidentais pelo controlo destes recursos estratégicos.
Laura Ruggeri