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'Israel a juntar os cacos da sua arrogância profundamente enraizada'
O acordo de Trump com o Irão destrói o sonho de 40 anos de Israel de uma mudança de regime.
Publicado em 23/06/2026 11:00
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O acordo-quadro de desanuviamento entre o Irão e os EUA foi assinado. Como sempre, chegar a acordo sobre um quadro é uma coisa, mas preservá-lo de atores disruptivos ou de distorções maliciosas do texto é outra bem diferente.

 

Quem sabe por quanto tempo permanecerá intacto?

 

O memorando de entendimento representa ainda uma fase importante – embora apenas uma etapa – numa longa viagem que o Irão tem pela frente.

 

O acordo, no entanto, pode também provocar mudanças geoeconómicas mais vastas. O Irão conseguiu pressionar um relutante Trump a atravessar o Rubicão. Danny Citrinowicz, antigo analista sénior da inteligência militar israelita para o Irão, afirma que, para Trump, “chegar a um acordo com o Irão e terminar o actual ciclo de escalada não é apenas uma opção, mas um objectivo estratégico claro…

 

Ele vislumbra agora uma visão mais ampla das relações EUA-Irão”.

 

Um dogma inquestionado foi por água abaixo: “A expectativa de longa data em partes de Jerusalém e Washington era de que a pressão sustentada pudesse levar a uma mudança de regime em Teerão… [No entanto,] o anúncio sugere uma [nova] realidade fundamental: a campanha que muitos esperavam que enfraquecesse ou mesmo desestabilizasse a República Islâmica terminará, em vez disso, com o regime intacto, fortalecido e formalmente comprometido pelo acordo com os EUA… [Isto] equivale ao colapso de uma premissa estratégica mais ampla: a de que a pressão coordenada entre americanos e israelitas poderá gerar condições propícias a uma mudança política fundamental dentro do Irão.

 

Em vez disso, o resultado provável é o oposto… [é] um resultado que provavelmente reforçará a confiança entre a elite governante [do Irão] em vez de a enfraquecer…”.

 

Este momento representa um grande feito estratégico para o Irão: está a emergir uma imagem heróica em todo o mundo – enquanto o isolamento de Israel na questão iraniana, mesmo entre os seus aliados do Golfo, aumentou drasticamente.

 

A nível pessoal, a popularidade de Netanyahu em Israel caiu catastroficamente. É claro que o "Entendimento" pode desfazer-se rapidamente – Trump é propenso a mudanças repentinas de opinião, e toda a força da classe bilionária sionista dos EUA está a ser desencadeada contra ele, forçando-o a mudar de rumo (talvez através da mobilização da oposição no Congresso e no Senado).

 

 

Ambas as possibilidades são plausíveis, mas o facto de Trump ter chegado a um acordo – ainda que provisório – com o Irão evidencia uma crescente divergência entre ele e Israel.

 

E a tentativa de Netanyahu de quebrar o vínculo entre o Memorando de Entendimento e qualquer cessar-fogo no Líbano (ao realizar um ataque em Dahhiya, Beirute, no domingo) teve paradoxalmente o efeito oposto – Trump melhorou prontamente os termos do Memorando de Entendimento para o Irão.

 

E se o Acordo se desfizer, o Irão tem a opção de simplesmente fechar o Estreito de Ormuz – e potencialmente também a passagem de Bab el-Mandeb.

 

E o que pode Trump fazer? Quanto mais os EUA se aproximarem do "abismo económico" e das eleições intercalares, menos atraente será para ele reiniciar a guerra.

 

De qualquer forma, o Irão está plenamente à espera e a preparar-se para uma retoma dos ataques militares.

 

Para além dos impactos locais da priorização do entendimento com o Irão por parte de Trump em detrimento do interesse de Israel em manter a guerra no Líbano, o Acordo pode prenunciar consequências geopolíticas mais vastas – o Irão, durante quatro décadas, esteve envolto nas espirais cada vez mais apertadas de sanções, estrangulamento energético e exclusão do dólar, refletindo os esforços incessantes dos supremacistas judaico-israelitas em Israel e nos Estados Unidos para manter o domínio americano sobre o Médio Oriente. Os EUA exerceram a máxima pressão durante quarenta anos para quebrar o Irão, mas, paradoxalmente, através da sua animosidade, forjaram esse mesmo adversário (o Irão) para que este exerça agora a sua influência de forma a desembaraçar-se gradualmente das amarras que o envolvem, permitindo-lhe respirar mais facilmente.

 

A resistência iraniana cativou a imaginação de grande parte do mundo – precisamente porque é vista como uma luta moral para reafirmar uma visão iraniana para o seu próprio futuro.

 

Na verdade, o exemplo iraniano abriu os olhos do mundo para o projecto dos EUA de coagir à força os Estados a ceder às exigências americanas de alinhar com a imposição da hegemonia sionista no Médio Oriente.

 

Os Estados que já se apercebem da extensão do controlo sufocante imposto ao Irão procuram formas de se protegerem de uma instrumentalização semelhante do comércio externo de alimentos, petróleo, fertilizantes – e praticamente tudo o que os EUA possam controlar – contra eles.

Será que a assinatura do Memorando de Entendimento representará, de facto, um ponto de viragem?

 

É demasiado cedo para afirmar, mas é preciso colocar uma questão inicial: será que a súbita mudança de posição de Trump representou um golpe irreversível para Israel?

 

Lazar Berman, correspondente militar do Times of Israel, observa que a “vitória total” e as suas ilusões terminaram: “As guerras pós-7 de Outubro, que vieram acompanhadas de expectativas e promessas de ‘vitória total’, terminaram – assim como as suas ilusões. Os palestinianos não vão deixar Gaza. O Hamas não vai desarmar, nem o Hezbollah. Trump não vai retomar a guerra com o Irão, que pode agora ameaçar retirar-se de um acordo para que Trump interrompa qualquer grande operação israelita contra o Hamas ou o Hezbollah… O Médio Oriente mudou certamente.”

 

O objectivo de Trump, ao que parece, é chegar a um acordo com o Irão – aparentemente também acredita que esta medida servirá os interesses de Israel.

 

Isto pode ser realista ou não. Pois, como escreve Aluf Benn no Haaretz, “a ideia de que Israel e Irão sejam capazes de reconciliação após décadas de hostilidade, que culminaram em bombardeamentos e ataques com mísseis no ano passado, nunca foi sequer discutida em Israel”.

 

Foi esta lacuna que deu origem à arrogância e à ilusão no establishment israelita. Como sublinha o conceituado comentador israelita Nahum Barnea, Israel nunca colocou a hipótese de o Irão sobreviver a um ataque liderado pelos EUA: "Provavelmente, ninguém da Inteligência Militar, do Conselho de Segurança Nacional ou da Mossad levantou, nas reuniões, a possibilidade de o regime iraniano sobreviver e sair reforçado. Mesmo que houvesse alguns cépticos na sala, eles calaram-se." Em Israel, o sentimento de derrota é palpável.

 

O que Trump provavelmente procura agora é mais espaço para manobrar na sua visão de paz no Médio Oriente.

 

As suas declarações sobre a adesão do Irão aos Acordos de Abraão, o seu desejo de conversar com o Hezbollah e os seus comentários (ainda mais absurdos) de que Jolani e a Síria deveriam "cuidar" do Hezbollah no Líbano, no entanto, corroboram a afirmação de Citrinowicz de que, por enquanto, Trump nutre uma visão (possivelmente implausível) mais ampla de para onde as relações EUA-Irão podem levar.

 

Neste cenário estratégico israelita reconfigurado, talvez até os pusilânimes europeus possam iniciar alguma acção correctiva, insistindo num regresso às concepções ancestrais de guerra – em que os ataques com decapitação e as campanhas de assassinato em massa de mulheres e crianças estão fora de qualquer norma civilizada de guerra, e muito menos de moralidade humana.

 

Os negociadores iranianos insistiram, durante as negociações, que quaisquer assassinatos ou mortes acabariam de vez com as relações com os EUA.

 

Outra questão crucial decorrente destes acontecimentos é: qual será o efeito da assinatura do Memorando de Entendimento no panorama político dos EUA? Será este um ponto de viragem estratégico e distinto? Os Estados Unidos, no seu conjunto, começarão a distanciar-se de Israel?

 

Há uma clara segmentação no eleitorado americano. A faixa etária acima dos 55 anos demonstra, de um modo geral, simpatia por Israel; no entanto, os jovens mudaram radicalmente. Mesmo entre os judeus americanos, 61% concluíram que Israel cometeu crimes de guerra em Gaza, e 39% consideram a conduta de Israel em Gaza como genocídio.

 

É claro que os defensores de Israel, em primeiro lugar, não mudarão a sua posição e insistirão para que o Congresso siga a sua linha. Mas um recente artigo de opinião do Wall Street Journal – Netanyahu perdeu a classe média americana – conclui: “À medida que Israel se aproxima das eleições deste Outono, estou confiante de que, se os seus eleitores optarem por manter o actual governo, apesar dos erros fatais cometidos, muitos americanos concluirão que o Israel que apoiaram durante décadas já não existe.”

 

 

Alastair Crooke - antigo diplomata britânico, fundador e diretor do Fórum de Conflitos, sediado em Beirute.

 

https://strategic-culture.su/news/2026/06/22/israel-picking-up-the-pieces-of-its-deep-seated-hubris/

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