O bloqueio israelita à Faixa de Gaza impede a identificação de corpos soterrados sob os escombros, privando os residentes de reconhecerem os seus mortos e de realizarem funerais em sua memória.
Desde que o cessar-fogo parcial entrou em vigor, em Outubro passado, os palestinianos em Gaza começaram a vasculhar os escombros em busca de familiares desaparecidos durante os dois anos anteriores de bombardeamentos israelitas.
Estima-se que o número de desaparecidos no enclave se situe entre os 10.000 e os 14.000. Estão soterrados sob quase 61 milhões de toneladas de entulho, aproximadamente 20 vezes a quantidade gerada pelas guerras em todo o mundo desde 2008.
Devido à falta de equipamento pesado e de combustível para os operar, causada pelo bloqueio israelita, as escavações podem demorar anos.
De acordo com a Cruz Vermelha, “quanto mais tempo se demora a recuperar os restos mortais, mais difícil é identificá-los. Quanto mais tempo os corpos permanecem sob os escombros, maior é a probabilidade de estarem em avançado estado de decomposição, ou mesmo reduzidos a esqueletos, quando finalmente são encontrados” (*).
Cemitério dos Desaparecidos em Deir al-Balah
Para fazer face ao crescente número de corpos não identificados, foi criado, em outubro passado, um cemitério conhecido localmente como "Cemitério dos Desaparecidos" ou "Cemitério das Sepulturas Numeradas".
Ziad Obaid, chefe dos cemitérios do Ministério dos Assuntos Religiosos de Gaza, afirma que os corpos ali sepultados provêm de diversos locais: alguns foram recuperados debaixo de escombros, nas ruas ou nos pátios de hospitais e escolas onde tinham sido sepultados temporariamente durante os ataques israelitas; outros chegaram como parte de trocas organizadas.
Mais corpos são encontrados diariamente em todos os cantos de Gaza. "O principal desafio reside não só na quantidade de corpos, mas também no seu estado, pois muitos chegam em avançado estado de decomposição ou desfigurados, tornando a identificação visual praticamente impossível", destaca Obaid.
Sem o equipamento necessário para a análise de ADN, a identificação é um processo doloroso e ineficiente para as famílias.
Os peritos forenses fotografam, recolhem amostras e preservam objetos pessoais ou marcas distintivas dos corpos encontrados. Cada corpo recebe um código antes de ser exposto durante seis a dez dias em salas designadas do hospital, para que as famílias possam tentar identificá-lo. Se não houver identificação, são enterrados no cemitério de Deir Al Balah com um número.
“O mais difícil é que um ente querido é enterrado como um estranho, sem nome ou identificação oficial, sob um simples número… É uma dor profunda que ainda persiste no meu coração”, diz Lina Al Assi, viúva de um homem desaparecido que ela presume estar enterrado neste cemitério, de pé perto de uma sepultura marcada com um código que, segundo ela, corresponde à do marido. "Tudo o que quero é que o meu marido tenha um túmulo com o seu nome, para que eu possa visitá-lo com os meus filhos sempre que quisermos."
O tempo é o pior inimigo
No final de contas, o tempo é o pior inimigo da identificação. Quanto mais tempo passa, menores são as probabilidades de sucesso. Inicialmente, se um corpo estiver relativamente bem preservado, o rosto e outras características distintivas podem ainda ser reconhecíveis. Mas, com o tempo, muitas das características para uma identificação fiável desaparecem.
Para além do tempo, as condições ambientais como a humidade e a actividade animal podem apagar pistas essenciais, tornando cada vez mais difícil para os peritos forenses estabelecer a identidade das vítimas.
Os residentes temem também que as escavadoras do exército israelita, que operam nas áreas sob o seu controlo, removam corpos ainda enterrados sob os escombros.
Em Dezembro, a CNN publicou um conjunto de documentos, imagens de satélite e testemunhos que mostram abusos sistemáticos do exército israelita contra corpos de palestinianos após as suas mortes. A investigação constatou que os corpos eram, por vezes, enterrados por escavadoras em covas rasas e anónimas. Outras vezes, eram deixados a decompor-se a céu aberto. É uma forma de destruir provas de crimes de guerra, impedir investigações adequadas e privar as famílias do conhecimento do destino e do local de enterro dos seus entes queridos, o que constitui mais uma violação da dignidade humana.
Em Março, um estudo do EuroMed Monitor revelou que o exército israelita arrasou e destruiu completamente túmulos em 39 cemitérios (cerca de 63% do total) e danificou parcialmente outros 19 (cerca de 31%). Esta é mais uma tentativa genocida de apagar a memória e a identidade palestinianas. Priva os mortos da sua dignidade, reduzindo-os à condição de cadáveres não identificados, e priva as famílias do direito de conhecer o destino dos seus familiares e de realizar os ritos funerários.
(*) https://www.theguardian.com/world/2026/jun/14/growing-risk-thousands-buried-gaza-rubble-never-identified-red-cross
Fonte: https://diario-octubre.com/2026/06/23/en-palestina-no-hay-dignidad-ni-siquiera-para-los-cadaveres/