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A Moral Seletiva da Ordem Nuclear
Tal como Sócrates nos ensinou, uma sociedade que deixa de questionar as suas próprias certezas acaba por confundir a força com a justiça e o poder com a verdade.
Publicado em 25/06/2026 14:00
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Verdade seja dita, caro leitor: não nos deixemos iludir pela ingenuidade ou pela ignorância. Na política, e sobretudo na geopolítica, não há viúvas virgens. Nem à direita nem à esquerda, nem no poder nem na oposição. A pureza absoluta é uma confortável ficção, geralmente brandida por aqueles que se arrogam donos da verdade e guardiões da moral, enquanto julgam os outros por critérios que raramente aplicam a si próprios.

 

É precisamente por isso que analistas e comentadores como o Major-General Agostinho Costa fazem hoje mais sentido do que nunca. À maneira socrática, o seu mérito não reside em apresentar verdades acabadas ou em proclamar certezas absolutas, mas antes em formular as perguntas incómodas, desafiar as narrativas dominantes e obrigar-nos a examinar as contradições do mundo em que vivemos. Afinal, como ensinava Sócrates, o primeiro passo para a sabedoria consiste em desconfiar das falsas evidências e submeter todas as convicções ao crivo da razão.

 

Os Estados Unidos voltaram a justificar ações hostis contra o Irão com base na possibilidade de o país vir a desenvolver armas nucleares, reacendendo, uma vez mais, a lógica da dupla moral e da verdade seletiva.

 

O argumento é conhecido: impedir a proliferação nuclear e preservar a segurança internacional. Contudo, esta narrativa esbarra numa contradição moral e política difícil de ignorar.

 

Os próprios Estados Unidos são o único país na História que utilizou armas atómicas contra populações civis, em Hiroshima e Nagasaki, provocando uma devastação humana sem precedentes. Ainda assim, apresentam-se como árbitros da legitimidade nuclear, reivindicando para si o direito de determinar quais os países que podem ou não possuir este tipo de armamento.

 

Perante esta realidade, impõe-se uma pergunta tão inevitável quanto incómoda, digna do método socrático: de onde emana essa autoridade moral? Quem a concedeu? E com que fundamento se arrogam alguns o direito de estabelecer regras que eles próprios violam ou ignoram quando lhes convém?

 

A incoerência torna-se ainda mais evidente quando se observa a atitude de Washington e dos seus aliados em relação a Israel. Embora seja amplamente reconhecido que Israel possui um arsenal nuclear, o país nunca foi submetido ao mesmo nível de pressão, de sanções ou de ameaças que recaem sobre o Irão. Pelo contrário, beneficia de apoio político, diplomático e militar dos Estados Unidos e de muitos países da União Europeia, apesar das acusações de expansionismo, de intervenções em países vizinhos e de ações militares contra Estados terceiros, incluindo o próprio Irão.

 

Esta disparidade revela uma moral seletiva na aplicação dos princípios do direito internacional. Se o objetivo fosse, de facto, construir um mundo mais seguro e livre da ameaça nuclear, o desarmamento e a não proliferação deveriam ser exigidos de forma universal, sem exceções ditadas por interesses geopolíticos ou alianças estratégicas.

 

A legitimidade de qualquer norma internacional depende, precisamente, da sua aplicação igual para todos.

 

Não se trata de defender a proliferação de armas nucleares, que constituem uma ameaça existencial para a humanidade, nem de ignorar as legítimas preocupações de segurança existentes no Médio Oriente. Trata-se, isso sim, de denunciar um duplo critério que enfraquece a própria ideia de uma ordem internacional assente em regras.

 

Quando alguns Estados são punidos por intenções hipotéticas, enquanto outros são tolerados ou apoiados apesar de possuírem arsenais nucleares efetivos, a mensagem transmitida ao mundo é clara: o poder sobrepõe-se ao princípio e a força prevalece sobre o direito.

 

A humanidade precisa de memória histórica. Precisa de desintoxicar a mente. Precisa de recordar que a maior tragédia nuclear da História não foi cometida por um Estado suspeito de pretender obter a bomba atómica, mas por aquele que hoje se apresenta como guardião da segurança nuclear global.

 

E precisa, sobretudo, de exigir coerência moral e jurídica nas relações internacionais. Porque a paz não se constrói sobre a seletividade, nem sobre pretensões de superioridade racial, política ou moral. Constrói-se, antes, sobre a igualdade de critérios, a universalidade do direito e a aplicação imparcial dos princípios que a comunidade internacional afirma defender.

 

Tal como Sócrates nos ensinou, uma sociedade que deixa de questionar as suas próprias certezas acaba por confundir a força com a justiça e o poder com a verdade. E é precisamente contra essa perversão moral que importa fazer como o Major-General Agostinho Costa: continuar a interrogar, a pensar pela nossa própria cabeça e a recusar como inevitável aquilo que não passa do resultado da conveniência dos mais fortes.

 

 

Adriano Pires – Coronel do Exército de Cabo Verde na Reforma in Facebook

 

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