O secretário-geral da Frente Polisário, Brahim Ghali, considera "pouco provável" que a iniciativa de mediação impulsionada pela Administração de Donald Trump para tentar encerrar o conflito do Saara Ocidental "chegue a bom porto", ao entender que Washington se alinhou com a postura de Marrocos e deixou em segundo plano o direito de autodeterminação do povo saharaui.
"A questão do Saara Ocidental não se trata de uma questão de otimismo, mas de descolonização, de aplicação do Direito Internacional", ressalta o também presidente da República Árabe Saharaui Democrática (RASD), ao ser questionado sobre as rodadas de diálogo patrocinadas pelos Estados Unidos junto com a ONU nos últimos meses, com a vista posta em uma saída para um contencioso que se prolonga há 50 anos.
"O sucesso de qualquer rodada de negociações depende precisamente de que se coloquem no centro os direitos do povo saharaui", sustenta Ghali, que adverte que "toda negociação que não esteja nesse marco está condenada a fracassar porque o Frente Polisário, como representante do povo saharaui, não renunciará aos seus direitos legítimos à autodeterminação e independência". "Não existe alternativa realista a isso", acrescenta.
Nessa linha, ressalta que "todo esforço que se faça em prol de alcançar a resolução do conflito, venha de onde vier, deve fundamentar-se na natureza jurídica da questão do Saara Ocidental", que, insiste, é a de "um território não autônomo e pendente de descolonização".
Desde outubro, os Estados Unidos promoveram pelo menos três rodadas de contatos — uma delas realizada em fevereiro em Madrid — com a participação de Marrocos, do Frente Polisário, da Argélia e da Mauritânia, e com o respaldo das Nações Unidas. Estas se apoiam na resolução 2797 da ONU, que chama as partes a manter negociações "sem condições prévias" tomando como base o plano de autonomia "com vistas a alcançar uma solução política definitiva e aceitável para todas elas que contemple a livre determinação do povo do Saara Ocidental".
No obstante, sublinha Ghali, "até o momento, a Administração Trump se posicionou a favor da proposta de autonomia marroquina" para o Saara Ocidental, formulada em 2007 e respaldada também por outros governos, entre eles Espanha e França. Convém recordar que Trump foi o primeiro dirigente a reconhecer a soberania marroquina sobre a antiga colônia espanhola em dezembro de 2020, a poucas semanas de concluir seu primeiro mandato.
Em consequência, o dirigente saharaui, que evita precisar se haverá novas rodadas de diálogo no curto prazo, conclui que "é pouco provável que seus esforços cheguem a bom porto". "No entanto, nunca é tarde para se posicionar a favor do Direito Internacional, seja por parte da Administração Trump, ou qualquer outra", acrescenta, em uma mensagem dirigida aos países que têm apoiado a linha marcada por Washington, entre eles Espanha.
Contato dos Estados Unidos com o MSP
Ghali se referiu igualmente à reunião realizada no passado 30 de junho entre o embaixador americano ante a ONU, Mike Waltz, e uma delegação do Movimento Saharauis pela Paz (MSP), organização criada em 2020 por antigos quadros do Polisário e liderada por Hach Ahmed Baricalla, presente no encontro.
"A Frente Polisário é o único e legítimo representante do povo do Saara Ocidental", reivindica seu líder, insistindo que "assim o reconheceram todas as organizações internacionais e instâncias judiciais, incluindo o Tribunal de Justiça da União Europeia".
Por isso, ressalta que, "como tal, é o único interlocutor que lidera o processo político, em representação do povo saharaui, ao longo destes 50 anos", restando assim legitimidade a um grupo que é percebido próximo às posições de Rabat.
Foi o próprio Walz quem tornou pública nas redes sociais a reunião com os representantes do MSP. "Estas são vozes saharauis comprometidas com a paz, o compromisso e uma solução duradoura", afirmou sobre os membros deste grupo opositor o embaixador, defendendo que "o mundo deveria ouvi-los".
Desde o Departamento de Estado, um porta-voz indicou à Europa Press que "os Estados Unidos estão comprometidos a apoiar o diálogo entre todos os atores", sem esclarecer se inclui agora o MSP nessa categoria, e assinalou que Waltz aproveitou "a oportunidade para ouvir perspectivas diversas sobre a forma de avançar" em direção à resolução do conflito.
Nesta linha, o porta-voz do Departamento de Estado reiterou que "os Estados Unidos se mantém firmes em seu apoio a uma solução duradoura e mutuamente aceitável com base na resolução 2797, a qual oferece o quadro para a negociação de uma solução política" e considera que "a proposta de autonomia de Marrocos oferece a base para isso".
Último ataque de Marrocos
Por outro lado, Ghali se pronunciou pela primeira vez sobre o ataque lançado no dia 7 de junho por Marrocos, no qual faleceram três membros do Polisário, entre eles Lehbib Mohamed Abdelaziz, filho do falecido presidente da RASD Mohamed Abdelaziz e apontado como um dos possíveis sucessores da atual direção.
Interrogado sobre se este novo ataque com drones marroquinos —o Polisário declarou rompido o cessar-fogo de 1991 em novembro de 2020 e desde então ocorrem confrontos esporádicos— busca torpedear o processo negociador, Ghali responde com firmeza que "o objetivo final de Marrocos com os ataques é causar o maior dano possível ao povo saharaui".
Por este motivo, aponta, "o território do Saara Ocidental é o mais minado do mundo", aludindo à enorme concentração de minas, sobretudo em torno do muro que separa a zona sob controle marroquino —duas terços do território— da área administrada pelo Polisário.
"No início da guerra", lembra Ghali, "foi muito mais visível essa intenção de infligir o maior dano possível ao povo saharaui". "No entanto, agora, pode dar a sensação de fatos isolados, mas em nenhum caso são esses ataques que afetam tanto a militares quanto à população civil saharaui", denuncia.
Em qualquer caso, o máximo responsável do Polisário evita definir como ataque seletivo a operação na qual morreu Lehbib Mohamed Abdelaziz. "Para Marrocos, todas as pessoas que integram o Polisário são alvos permanentes. Seja no âmbito militar como no diplomático, assim como também os defensores de Direitos Humanos na parte ocupada do Saara Ocidental", conclui.
Fonte e crédito da foto: https://www.democrata.es/pt/politica/brahim-ghali-duvida-que-a-mediacao-de-trump-prospere-enquanto-apoia-marrocos-no-saara-ocidental/