Mais de quatro anos de conflito em solo europeu e a fumaça das explosões no Donbass parece turvar a visão dos analistas para o que realmente está sendo construído nos bastidores de Bruxelas, Frankfurt e Londres. Enquanto os grandes jornais focam em avanços territoriais e remessas de blindados, uma pergunta fundamental é sistematicamente ignorada: quem vai pagar por tudo isso?
Os números atuais são brutais. Segundo o Ministério das Finanças da Ucrânia, a dívida pública do país rompeu a barreira dos `US$ 213,3 bilhões` ao final de 2025, o equivalente a 98,4% do PIB (MINISTÉRIO DAS FINANÇAS DA UCRÂNIA, 2026).
O Instituto KSE, think tank ligado à Kyiv School of Economics, registrou que a dívida pública cresceu `US$ 47,2 bilhões` (28,4%) apenas no exercício de 2025, com a dívida externa saltando 39,6% para `US$ 160,4 bilhões` (KSE INSTITUTE, 2026). Já a dívida externa bruta total, que inclui o setor privado, atingiu `US$ 236,7 bilhões` no primeiro trimestre de 2026, segundo o Banco Nacional da Ucrânia (BANCO NACIONAL DA UCRÂNIA, 2026).
Mas o drama real não reside apenas em Kiev. O epicentro do risco sísmico está nos balanços dos bancos europeus, nos orçamentos dos Estados-membros da União Europeia e nos contratos de fundos de pensão que, silenciosamente, absorveram títulos soberanos ucranianos desprovidos de qualquer garantia externa formal.
A Europa não está apenas apoiando um aliado; ela se amarrou financeiramente a uma guerra que não pode mais se dar ao luxo de perder. Uma derrota ucraniana, ou mesmo uma paz que não siga os termos ocidentais, significaria um colapso de crédito comparável ao crash de 2008, mas com um agravante: desta vez, o buraco é geopolítico e o credor não tem para quem pedir socorro.
A narrativa oficial de que “o Ocidente apoia a Ucrânia o tempo que for necessário” esconde uma farsa contábil perigosa. O apoio financeiro tem duas faces, e a face que sustenta o mercado privado é a mais frágil de todas. Precisamos falar abertamente sobre a ausência de lastro nos instrumentos que financiam a resistência ucraniana.
Os War Bonds domésticos, que já captaram cerca de `US$ 48 bilhões` desde março de 2022, foram vendidos sob o apelo do patriotismo para cidadãos e empresas locais. Dados do Banco Nacional da Ucrânia indicam que só em 2025 o governo captou `UAH 569 bilhões` em leilões de títulos domésticos, e o total acumulado até janeiro de 2026 alcançou aproximadamente `UAH 2.027 bilhões` (BANCO NACIONAL DA UCRÂNIA, 2026a).
Mas qual a garantia desses papéis? O próprio Estado ucraniano. Se a Ucrânia entrar em colapso institucional ou territorial, o dinheiro simplesmente viraria pó (SOLVE FIXED INCOME, 2025; VOX UKRAINE, 2026).
Mas não para por aí: no mercado internacional, a situação é ainda mais cínica.
Gigantes como BlackRock, PIMCO, Fidelity e Amundi detinham posições expressivas nos `US$ 20,5 bilhões` em Eurobônus soberanos e garantidos pelo Estado ucraniano que foram reestruturados em agosto-setembro de 2024 (WHITE & CASE, 2024; REUTERS, 2024).
A reestruturação, implementada mediante exchange offer e consent solicitation, reduziu os pagamentos imediatos do serviço da dívida em 93%, gerando uma economia de `US$ 11,4 bilhões` nos primeiros três anos (MINISTÉRIO DAS FINANÇAS DA UCRÂNIA, 2024). Os novos títulos (das chamadas séries A, B e C) têm vencimentos escalonados entre 2029 e 2036, com cupons crescentes que começam em 1,75% ao ano.
Estes títulos NÃO possuem garantia externa. Como registrou a agência Scope Ratings (2025), a dívida soberana ucraniana permanece classificada em CCC, refletindo o risco elevado de novos estresses de liquidez. Os maiores gestores de ativos do planeta aceitaram perdas nominais massivas apostando em um risco soberano puro.
“A pergunta que fica no ar é: por que o capital privado aceitaria um risco tão assimétrico? A resposta é o fio condutor deste ensaio: eles sabem que a Ucrânia se tornou um passivo implícito do Ocidente. Os credores privados não são filantropos. Eles apostam que a UE e o FMI jamais permitirão um default total, pois isso transformaria a Ucrânia em um ‘buraco negro’ financeiro no coração do continente.”
Em contraste com a aventura dos fundos privados, a dívida oficial é onde o jogo se torna explícito. Aqui, a garantia existe, mas o garantidor é você, o contribuinte europeu.
O Ukraine Facility, programa quadrienal da União Europeia para o período 2024-2027, totaliza `€ 50 bilhões`, dos quais `€ 43,3 bilhões` em assistência macrofinanceira sob a forma de empréstimos e subvenções (CONSELHO EUROPEU, 2026). Em março de 2025, a Comissão Europeia e o Grupo BEI assinaram um acordo de garantia de `€ 2 bilhões` especificamente para projetos de reconstrução (COMISSÃO EUROPEIA, 2025a). Todo esse montante está diretamente lastreado no orçamento da União Europeia e nos seus 27 Estados-membros.
O programa do FMI no âmbito do Extended Fund Facility (EFF) soma `US$ 8,1 bilhões`. A Ucrânia tornou-se um dos maiores devedores do Fundo, atrás apenas da Argentina (FMI, 2025). O Banco Mundial, por sua vez, opera sob garantias bilaterais específicas — como os `US$ 3 bilhões` afiançados pelo Reino Unido através do mecanismo chamado SPUR (UK PARLIAMENT, 2023; BANCO MUNDIAL, 2024).
O que vemos é uma transferência massiva de risco. A cada novo pacote de “ajuda”, mais dívida soberana ucraniana é transferida para as costas dos cidadãos europeus. Bruxelas evita o termo, mas a Ucrânia já é, para fins práticos, um protetorado financeiro da zona do euro. O contribuinte de Berlim ou Paris já está na retaguarda de uma guerra que consome bilhões por mês, sem que tenha havido um debate transparente sobre o custo do “pós-guerra”.
Em abril de 2026, o Grupo de Credores da Ucrânia (GCU) assinou um Memorando de Entendimento com o governo ucraniano suspendendo o serviço da dívida bilateral até fevereiro de 2030, renovando as suspensões concedidas em 2022 e 2023 (GRUPO DE CREDORES DA UCRÂNIA, 2026). É o reconhecimento tácito de que a Ucrânia não tem, e não terá por muitos anos, condições de pagar.
A jogada mais ousada, e talvez a mais desesperada da engenharia financeira de guerra é o chamado Reparations Loan de `€ 210 bilhões`. O plano foi apresentado pela Comissão Europeia em dezembro de 2025 como parte de um pacote de duas soluções para financiar a Ucrânia em 2026-2027 (COMISSÃO EUROPEIA, 2025b). A ideia é sedutora no papel: usar os ativos do Banco Central Russo congelados na Euroclear, a câmara de custódia sediada na Bélgica, como lastro para um empréstimo gigantesco.
Segundo o Centre for European Reform (2025), a Euroclear detém aproximadamente `€ 210 bilhões` em ativos russos imobilizados. O mecanismo proposto funcionaria da seguinte forma: a UE toma emprestado nos mercados financeiros e repassa os recursos à Ucrânia, utilizando os rendimentos gerados pelos ativos russos como garantia de pagamento. Seria a tentativa definitiva de fazer o inimigo pagar pela própria resistência que ele enfrenta.
Entretanto, o risco jurídico é uma bomba-relógio. A Euroclear é apenas uma custodiante, não uma garantidora. O primeiro-ministro belga, De Wever, já sinalizou o perigo ao exigir garantias financeiras “on demand“ para cobrir eventuais processos judiciais contra a instituição (CENTRE FOR EUROPEAN REFORM, 2025).
Se os ativos forem descongelados por uma decisão judicial internacional, ou se as sanções forem suspensas em um eventual acordo de paz, o lastro simplesmente desaparece.
Se a Rússia não pagar, a conta recai integralmente sobre a União Europeia. A Europa apostou tudo em um cenário onde a Rússia perde, aceita a derrota e entrega o patrimônio. Não há Plano B. Como observou o Financial Times (2025), o problema de garantir o Reparations Loan é essencialmente político-jurídico: nenhum mecanismo de seguro privado cobre o risco de descongelamento de ativos soberanos por decisão geopolítica.
A última vez que os técnicos e diplomatas da União Europeia se reuniram para falar nos Reparations Loan terminou com a decisão de mater esse tema fora das opções atuais, na medida em que as resistências dentro da própria união foram enormes. Em troca disso, a União Europeia aprovou uma polêmica ajuda financeira de 90 bilhões de euros para a Ucrânia, a ser desembolsada nos anos de 2026 e 2027, e que seria financiada junto aos bancos europeus, o que só agrava a crise provocada e os riscos dessa suicida engenharia financeira. Não é por menos que após o término do 1º semestre de 2026, apenas 4 bilhões de euros foram desembolsados para a Ucrânia.
Chegamos ao cerne da questão. Por que os governos europeus resistem tão ferozmente a qualquer processo de paz que não envolva a capitulação financeira russa? Não é apenas por valores democráticos, mas por pura e simples sobrevivência contábil.
A seguir, os cinco motivos estruturais que transformaram a continuidade da guerra em imperativo financeiro para o continente.
Pode ser classificado como o principal problema. Se a guerra termina sem reparações russas, a Ucrânia quebra. Sem capacidade fiscal para honrar `US$ 213 bilhões` em dívidas, num contexto em que o custo anual da guerra já supera `US$ 100 bilhões` (KSE INSTITUTE, 2025), o default seria inevitável.
Isso arrastaria bancos europeus expostos via derivativos de crédito (Credit Default Swaps) e forçaria um resgate bancário generalizado.
Isso representaria a nacionalização das perdas da guerra pelo cidadão europeu, num movimento que a OCDE (2026) classifica como “risco fiscal contingente significativo” para o bloco.
O Reparations Loan de `€ 210 bilhões` foi desenhado sob a premissa do confisco dos ativos russos. Sem ele, a UE teria que reconhecer um passivo bilionário imprevisto, violando todas as regras fiscais do bloco, incluindo os critérios de Maastricht e o novo quadro de governança econômica europeia, e possivelmente implodindo a estabilidade do Euro. A União Europeia simplesmente não contabilizou publicamente o cenário de descongelamento dos ativos.
Uma paz desfavorável validaria a posição russa e destruiria a credibilidade da OTAN e da UE como garantidoras de qualquer ordem internacional, transformando o continente em um território de incerteza permanente. Mais do que isso: abriria um precedente letal para os países bálticos, para a Moldávia e para a Geórgia, que olham para o sistema de segurança europeu e se perguntam se ele funciona.
A exposição ao risco econômico vai além dos bônus. Fundos de pensão, seguradoras e bancos de investimento europeus estão entrelaçados em contratos de derivativos atrelados à dívida ucraniana, contratos de recompra e instrumentos estruturados cuja complexidade dificulta a mensuração do risco real.
Como reportou o Le Monde (2024), os detentores incluem desde a BlackRock até a Amundi, subsidiária do Crédit Agricole. Um default desordenado criaria um efeito dominó que, segundo projeções do FMI (2025), poderia superar a crise grega de 2010 em escala sistêmica, dada a magnitude do endividamento atual e sua intersecção com o sistema financeiro europeu.
A guerra reindustrializou a base militar europeia. Orçamentos de defesa dispararam em toda a OTAN, com vários países comprometendo mais de 2% do PIB. Uma paz prematura deixaria um parque industrial de defesa hipertrofiado e sem justificativa política para manter orçamentos elevados. Como assinala a OCDE (2026) em sua análise sobre a gestão da dívida ucraniana, o complexo industrial-militar europeu tornou-se um stakeholder da continuidade do conflito. Manter a tensão é, ironicamente, o que mantém a economia de defesa girando.
A Europa construiu uma arquitetura financeira tão complexa e interdependente em torno da guerra da Ucrânia que, hoje, qualquer recuo se torna inviável e é sinônimo de implosão da própria União Europeia. A dívida ucraniana não é apenas um número em um balanço; é uma âncora que mantém o continente preso a uma estratégia de “vitória total” da qual ele não pode se desviar sem se autodestruir financeiramente.
O que começou como apoio legítimo a uma nação invadida transformou-se numa teia de passivos explícitos e implícitos que prendem a Europa a um beco sem saída estratégico. A dívida oficial está nos livros da UE e do FMI. A dívida comercial está nos portfólios dos maiores fundos do mundo. E o Reparations Loan, a grande aposta, depende de um cenário geopolítico que pode não se concretizar.
Os governos europeus não resistem a uma paz desfavorável por mero idealismo. Eles resistem porque tornaram a derrota da Ucrânia impagável. No xadrez geopolítico, a Europa pode até acreditar que está movendo as peças, mas financeiramente, ela está encurralada pelo próprio tabuleiro.
A fatura da guerra está vencendo. E a pergunta que realmente importa para o futuro do continente não é se a Ucrânia pode vencer a Rússia no campo de batalha.
A pergunta é: a Europa pode pagar para perdê-la?
BANCO MUNDIAL. World Bank Group Support to Ukraine. Washington, DC, 2024. Disponível em: https://thedocs.worldbank.org/en/doc/e3f1180759cce7f52826058517d542b5-0080012024/original/World-Bank-Group-Support-to-Ukraine-April-2024.pdf
BANCO NACIONAL DA UCRÂNIA. External Debt as of the End of Q1 2026. Kyiv, 2026. Disponível em: https://bank.gov.ua/files/ES/ExDebt_q_en.pdf
BANCO NACIONAL DA UCRÂNIA. Ukraine’s Government Borrows Equivalent of Over UAH 569 Billion through Auctions to Sell Domestic Government Debt Securities in 2025. Kyiv, 2026a. Disponível em: https://bank.gov.ua/en/news/all/u-2025-rotsi-uryad-zaluchiv-vid-prodaju---obminu-ovdp-na-auktsionah-ponad-569-mlrd-grn-a-zagalom-uprodovj-voyennogo-stanu--mayje-2-027-mlrd-grn
CENTRE FOR EUROPEAN REFORM. The Ukraine Reparations Loan: How to fix Europe’s financial plumbing. London, 2025. Disponível em: https://www.cer.eu/insights/ukraine-reparations-loan-how-fix-europes-financial-plumbing
COMISSÃO EUROPEIA. European Commission and EIB Group sign €2 billion guarantee under Ukraine Facility to support country’s reconstruction and resilience. Brussels, 2025a. Disponível em: https://www.eib.org/en/press/all/2025-124-european-commission-and-eib-group-sign-eur2-billion-guarantee-under-ukraine-facility-to-support-country-s-reconstruction-and-resilience
COMISSÃO EUROPEIA. Commission unveils two solutions to support Ukraine’s financing needs in 2026-2027. Brussels, 2025b. Disponível em: https://ec.europa.eu/commission/presscorner/detail/en/ip_25_2903
CONSELHO EUROPEU. Assistência financeira da UE à Ucrânia. Bruxelas, 2026. Disponível em: https://www.consilium.europa.eu/pt/policies/ukraine-solidarity-financial-support/
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Autor: Marco Coutinho
Publicado em: https://marcoutinho.substack.com/p/a-divida-que-acorrenta-a-europa?r=2bqpc6