Amanhã, 24 de Agosto, a Ucrânia celebra o seu Dia da Independência. É essa a designação oficial. Mas, olhando para a realidade dos últimos quatro anos e meio, talvez fosse mais apropriado chamar-lhe o Dia da Dependência.
A Ucrânia é um Estado soberano no sentido jurídico. Mas está dependente quanto a sobrevivência militar, financeira e económica, numa dimensão extraordinária. Dinheiro, armas, munições, sistemas de defesa aérea e garantias políticas estão dependentes de nações ocidentais. Sem isso a Ucrânia já não funcionava há muito tempo. nem como nação, nem como economia.
E amanhã essa dependência estará particularmente visível. Kyiv receberá dirigentes europeus e outros representantes dos países que sustentam o esforço de guerra ucraniano. António Costa estará entre os convidados, enquanto a chamada “Coalisão da Boa Vontade” reunirá para reafirmar (pela undécima vez) o apoio à Ucrânia e discutir precisamente mais defesa aérea, assistência militar e garantias de segurança.
Ou seja: no próprio dia em que a Ucrânia celebra a sua "independência", estarão em Kyiv os representantes daqueles de quem essa independência militarmente depende. É uma ironia histórica que talvez merecesse mais reflexão.
A "independência" que precisa de armas estrangeiras
Não é possível ignorar uma realidade elementar: sem o gigantesco apoio ocidental, a situação militar da Ucrânia seria totalmente diferente. Washington e os países europeus forneceram, ao longo destes anos, armamento, munições, defesa antiaérea, financiamento e apoio de inteligência. A própria necessidade ucraniana de sistemas Patriot continua a ser uma questão central, numa altura em que Kyiv reconhece dificuldades para proteger-se dos mísseis balísticos russos.
É legítimo que os ucranianos agradeçam esse apoio. Mas também é legítimo perguntar: quando é que um país deixa de estar apenas a ser apoiado e passa a depender estruturalmente daqueles que o apoiam? Porque uma coisa é receber ajuda para reconstruir um país destruído. Outra, muito diferente, é depender permanentemente de terceiros para conseguir continuar a ser nação. E é precisamente aqui que a palavra “independência” começa a adquirir um significado bastante mais complexo.
Moscovo não olha para amanhã como uma festa
Há, porém, outra questão que os discursos oficiais provavelmente não abordarão. A Rússia não considera que a guerra seja exclusivamente uma guerra com a Ucrânia. Moscovo considera há muito que está a enfrentar também aquilo que classifica como o envolvimento direto ou indireto do Ocidente.
Podemos concordar ou discordar dessa interpretação. Podemos considerar injustificáveis as decisões russas. Podemos considerar que a "operação especial" de 2022 foi uma ruptura da "ordem europeia" (questão cada vez mais contestada por outros projetos e conflitos). Mas não podemos fingir que a Rússia não vê a guerra dessa maneira. E isso é essencial para perceber o risco de amanhã.
Se os dirigentes europeus estão em Kyiv para reafirmar que a Europa continuará a financiar, armar e apoiar militarmente a Ucrânia, então a mensagem política é precisamente a de que o Ocidente continua envolvido no conflito.
Ora a pergunta seguinte é inevitável: que significado terá essa presença aos olhos de Moscovo? Não significa que Moscovo veja os dirigentes estrangeiros como "alvos legítimos". Mas também não significa que qualquer ataque a Kyiv possa ser injustificado.
Significa que ninguém deve cometer o erro perigosíssimo de imaginar que a presença de personalidades estrangeiras transforma uma cidade em território protegido por uma espécie de imunidade militar. Uma guerra não deixa de ser uma guerra porque nela entra um cortejo diplomático.
A Rússia pode escolher não atacar. Mas ninguém pode exigir que Kyiv passe a "zona de segurança"
Há uma diferença fundamental entre duas afirmações. A primeira seria: “A Rússia tem o direito de atacar os convidados estrangeiros.” Não. A segunda é: “A presença de convidados estrangeiros não cria, por si só, uma garantia de que não haverá ataques.”
Essa é uma realidade muito diferente. E, aliás, a própria Ucrânia parece perfeitamente consciente dela. As autoridades ucranianas já alertaram a população para a possibilidade de ataques russos durante as comemorações da "independência". Porquê? Porque a guerra não entra em férias. Porque os mísseis não respeitam calendários festivos. Porque Kyiv continua a ser uma capital em guerra. E porque Moscovo tem demonstrado recentemente que a capital ucraniana é um "alvo de guerra". Portanto, se amanhã a Rússia decidir não atacar Kyiv, será uma decisão política apenas sua.
Mas se atacar, não será a presença de António Costa, de Friedrich Merz, de Alexander Stubb ou de qualquer outro dirigente estrangeiro que transforme subitamente a guerra numa situação juridicamente diferente. O que mudará será, isso sim, o significado político de um eventual ataque. E esse significado poderá ser enorme.
A grande questão que ninguém quer colocar
Durante anos, ouvimos dizer que a Ucrânia tem o direito de escolher as suas alianças. É verdade. Mas todas as escolhas geopolíticas têm as suas consequências. Se Kyiv escolhe aproximar-se da NATO, se solicita armas ocidentais, se recebe sistemas de longo alcance, se permite que os seus parceiros forneçam assistência militar e se transforma as suas ações numa causa política central da Europa, então essa escolha produz uma consequência inevitável: a Rússia passa a interpretar a Ucrânia não apenas como um adversário militar, mas como a plataforma avançada de um confronto muito mais vasto com o Ocidente.
Nesta fase é muito difícil que a interpretação russa pode ser contestada ou possa ser considerada abusiva. São já muito claras as justificações políticas ocidentais para decisões que jamais deveriam ter sido tomadas. E nem sequer se chamam "sanções". Chamam-se "Dependência da Ucrânia em todos os setores".
E isso não pode ser simplesmente ignorado. Porque a História não se faz apenas com aquilo que nós pensamos. Faz-se também com aquilo que o adversário pensa que estamos a fazer.
E chegamos finalmente ao Donbass
Durante anos, a questão da identidade das populações do Donbass foi tratada frequentemente como uma simplificação grosseira entre “ucranianos bons” e “separatistas russos”. Mas a realidade é muito mais complexa. Havia populações profundamente ligadas à língua russa, à cultura russa e à sua própria memória histórica. Havia também uma profunda disputa política sobre o estatuto desses territórios e sobre o futuro das suas populações.
A Rússia de forma firme apresentou a proteção dessas populações, a defesa dos seus interesses e a resistência à integração euro-atlântica da Ucrânia como componentes fundamentais da sua justificação política para a guerra. Uma análise séria não pode apagar as razões que Moscovo invoca simplesmente porque não se gosta delas. E é precisamente esse tipo de simplificação que nos trouxe até aqui.
Amanhã, portanto, haverá comemorações de uma "independência" que está dependente. A Ucrânia quererá celebrar 35 anos desde a declaração de independência de 1991 - que só foi possível por decisão politica da URSS. Podia ter sido diferente e é esse argumento que parece ter ficado esquecido pelo regime de Kiev. E foi um ucraniano, Presidente do Comité Central do Partido Comunista da URSS que assim propôs. E propôs para que a Ucrânia, sendo independente, não esquecesse a sua História russa. Não que se tornasse uma inimiga da Rússia - como se tornou.
E fá-lo-á enquanto depende de dezenas de países para financiar o seu Estado, sustentar a sua economia e, sobretudo, manter a sua capacidade militar. E fá-lo-á enquanto os dirigentes desses mesmos países se deslocam a Kyiv para reafirmar que continuarão a apoiá-la.
A fotografia será bonita. As bandeiras serão bonitas. Os discursos serão previsivelmente solenes. Mas por baixo das bandeiras existe uma realidade muito menos bonita: a Ucrânia continua em guerra e continua a depender do Ocidente para sobreviver económica, militarmente e territorialmente. Depende do ocidente para se continuar a chamar "nação".
E amanhã haverá ainda outra fotografia possível. A fotografia de uma capital em guerra onde dirigentes estrangeiros decidiram estar presentes precisamente no momento em que Moscovo poderá querer demonstrar que nenhuma cerimónia, nenhuma bandeira e nenhum convidado estrangeiro lhe impõem uma trégua que não aceitou.
Espero que não aconteça. Espero, sobretudo, que ninguém sofra consequências. Mas não confundo esperança com garantia. A Rússia poderá decidir não atacar. Poderá entender que um ataque amanhã seria politicamente errado. Moscovo seguido uma inteligência politica que outras nações não seguem. E temos os exemplos dos Estados Unidos e de Israel, capazes de atacar e ameaçar, aliados, vizinhos, amigos e inimigos.
Moscovo pode, mais uma vez, deixar que se faça a leitura de que ainda quer negociar nos seus termos - por que os seus termos são os que resolvem o problema.
É por isso que a presença ocidental em Kyiv amanhã não é apenas uma fotografia diplomática. É também uma mensagem estratégica. E numa guerra, todas as mensagens estratégicas têm um preço e todos os riscos têm de ser assumidos por quem os cria.
A Ucrânia pode celebrar a sua independência. Mas os seus aliados também têm de perceber que, ao transformarem essa celebração numa demonstração pública de apoio político e militar, estão a entrar numa cidade que continua a ser um teatro de guerra.
Não existe imunidade diplomática para uma cidade inteira. Não existe feriado numa guerra. E não existe independência plenamente exercida quando a sobrevivência de um Estado depende, para continuar a combater, das armas, do dinheiro e da vontade política de outros.
Amanhã será o "Dia da Independência" da Ucrânia. Mas talvez seja também o dia em que alguém deveria ter a coragem
de perguntar: independência de quem - e dependência de quê?
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