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40 mil bombas para Israel: O rearmamento de uma guerra que Trump diz estar a acabar
Na prática, Washington está a contribuir financeiramente para que Israel reconstitua uma enorme capacidade ofensiva.
Publicado em 17/09/2026 18:00
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Trump disse ontem esperar que a guerra com o Irão esteja «a chegar ao fim». Ao mesmo tempo, a sua administração prepara para Israel um pacote militar de 2,8 mil milhões de dólares, que inclui 40 000 bombas de 2 000 libras - cerca de 907 quilos cada, metade MK-84 e metade BLU-117, além de outras munições destinadas a penetrar estruturas fortificadas.

 

Israel gastou enormes quantidades de munições em Gaza, no Líbano e na guerra com o Irão e precisa de recompor os seus stocks. Um exército que combate em várias frentes não pode esperar pelo próximo conflito para começar a fabricar as munições de que necessita. E é precisamente aí que começa a questão interessante. Repor stocks para quê? Para voltar simplesmente a ter capacidade defensiva? Para continuar as operações em Gaza e no Líbano? Para manter a capacidade de dissuasão perante o Irão? Ou para estar preparado para uma nova fase da guerra caso a atual trégua militar seja apenas uma pausa?

 

Não sabemos. E é justamente por não sabermos que 40 000 bombas de quase uma tonelada cada uma merecem mais atenção do que a palavra «venda» sugere. Porque isto não é apenas uma encomenda comercial. O pacote é financiado, em grande parte, através do Foreign Military Financing, isto é, através de dinheiro público norte-americano destinado a financiar a aquisição de equipamento militar por países aliados.

 

Na prática, Washington está a contribuir financeiramente para que Israel reconstitua uma enorme capacidade ofensiva.

 

E aqui aparece uma hipótese que não deve ser transformada em certeza, mas que também não deve ser ignorada: poderá Washington estar a garantir que Israel conserve capacidade militar para voltar a enfrentar o Irão se a guerra não terminar como Trump agora anuncia?

 

Seria uma espécie de seguro estratégico. Se a diplomacia funcionar, Israel fica com os stocks repostos. Se a guerra regressar, Israel não parte do zero. E se o confronto com o Irão voltar a escalar, os Estados Unidos terão um aliado regional já armado e preparado para suportar parte importante da pressão militar.

 

É neste ponto que a palavra proxy pode ser discutida - não no sentido simplista de afirmar que Israel é «um exército americano», mas no sentido estratégico de perguntar se Washington está a reforçar a capacidade de um aliado que pode funcionar como instrumento militar avançado dos interesses norte-americanos na região.

 

Não é uma conclusão demonstrada. É uma hipótese. Mas não é uma hipótese absurda. E há uma contradição que merece ser observada: se a guerra com o Irão está realmente a terminar, por que razão é precisamente agora que Washington prepara uma das maiores transferências de bombas de 2 000 libras para Israel?

 

Talvez seja apenas reposição de stocks. Talvez seja dissuasão. Talvez seja preparação para Gaza e para o Hezbollah. Talvez seja preparação para uma eventual segunda guerra com o Irão. E pode ser tudo isso simultaneamente.

 

Aliás, a presença de munições penetradoras no mesmo pacote torna particularmente difícil olhar para esta operação apenas como uma simples reposição do que foi utilizado em Gaza. Estas armas têm também utilidade contra estruturas subterrâneas e fortificadas, precisamente um tipo de alvo associado ao Hamas, Hezbollah e às infraestruturas militares iranianas.

 

E entretanto surgiu uma pequena fissura dentro do próprio sistema americano. Gregory Meeks, principal democrata da Comissão de Negócios Estrangeiros da Câmara dos Representantes, anunciou que não dará o seu apoio ao pacote, levantando preocupações sobre a utilização destas bombas em zonas densamente povoadas e sobre o respeito pelo direito internacional. A sua oposição não encerra o processo, mas introduz uma dificuldade política no caminho da transferência.

 

Portanto, talvez seja precipitado afirmar que estas 40 000 bombas representam a preparação de uma nova guerra. Mas também seria ingénuo olhar para elas como simples caixas de munições a substituir outras caixas de munições.

 

São a reconstrução de uma capacidade militar. E capacidade militar é, por definição, capacidade para utilizar essa força quando as circunstâncias políticas o determinarem. É aqui que a frase de Trump passa a uma mentira voluntária: «A guerra está a chegar ao fim.»

 

Talvez. Mas enquanto se anuncia o fim da guerra, alguém está a preparar as próximas 40 000 bombas. E, neste caso, a verdadeira notícia talvez não seja saber contra quem serão lançadas. É saber por que razão se considera necessário garantir que estejam disponíveis.

 

 

João Gomes in Facebook

 

 

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