As declarações do Dr. Mustafa Barghouti (líder da Iniciativa Nacional Palestina) não são um alerta retórico ou um excesso de linguagem política: são um raio-X preciso da atual fase de agressão contra o povo palestino. A decisão de Israel de impedir o trabalho de 37 organizações humanitárias internacionais em Gaza e na Cisjordânia — incluindo Médicos Sem Fronteiras, Oxfam e o Conselho Norueguês para Refugiados — aliada ao bloqueio criminoso contra a UNRWA e ao ataque sistemático à sociedade civil palestina, constitui uma tentativa deliberada de destruir os próprios alicerces da vida.
Estas não são “medidas de segurança”, mas sim uma estratégia abrangente de aniquilação: impedir a ajuda humanitária, sufocar a assistência médica, criminalizar a solidariedade e desmantelar toda estrutura que permita a sobrevivência de uma população sujeita a punição coletiva. Tudo isso em flagrante e reiterada violação do direito internacional humanitário, das normas e leis que supostamente regem a coexistência entre os Estados.
Essa insolência não provém da força, mas da impunidade. Israel intensifica seus crimes porque lhe é permitido fazê-lo. Porque os governos ocidentais — que se proclamam defensores do direito internacional — abdicaram de sua responsabilidade de defender não apenas as resoluções e os órgãos das Nações Unidas, mas até mesmo as instituições humanitárias de seus próprios países quando estas ousam trabalhar com os palestinos. A mensagem é inequívoca: a vida palestina não merece proteção.
Mas a responsabilidade não recai apenas sobre o Ocidente. O mundo árabe, com honrosas exceções, optou pelo silêncio, pela inação ou pela cumplicidade. Enquanto Gaza é estrangulada e a Cisjordânia fragmentada, muitos governos árabes priorizam cálculos diplomáticos, normalizações vergonhosas ou a simples conveniência de ignorar a situação. O silêncio árabe não é neutro: faz parte do cerco.
Ainda mais grave é a conduta da Autoridade Nacional Palestina. A Autoridade Palestina (AP), longe de liderar uma estratégia nacional para defender o povo palestino e suas instituições, mostrou-se ineficaz, desconectada da realidade e presa a uma lógica administrativa que não confronta a ocupação nem protege seu povo. Não há legitimidade possível quando a ocupação é administrada em vez de ser confrontada política e juridicamente.
Este ataque contra organizações humanitárias e a sociedade civil não é um incidente isolado: é uma nova etapa em um projeto colonial que busca apagar o povo palestino não apenas do mapa, mas também da lei. Diante disso, a UPAL reafirma que o silêncio é cumplicidade. Exigimos uma posição clara e ações concretas dos Estados árabes; exigimos que a AP retome seu propósito nacional; e exigimos que a comunidade internacional ponha fim, de uma vez por todas, à impunidade que torna o direito internacional sem sentido.
A história julgará não apenas aqueles que cometem o crime, mas também aqueles que o permitem. E hoje, muitos permitem que a injustiça continue matando.
União Palestina da América Latina – UPAL
2 de janeiro de 2026