A defesa da soberania no século XXI não se define mais apenas pelo controle territorial ou pela capacidade militar convencional, mas pelo domínio dos domínios informativo, tecnológico e cognitivo.
Nesse novo cenário, os serviços de inteligência da América Latina enfrentam um desafio incontornável: adaptar-se ao ritmo acelerado das novas tecnologias ou tornar-se vulneráveis a formas de interferência mais sofisticadas, invisíveis e persistentes.
As ameaças contemporâneas não chegam necessariamente na forma de invasões armadas, mas sim por meio de operações cibernéticas, vigilância em massa, manipulação algorítmica, guerra psicológica, sabotagem digital e controle de infraestruturas críticas. Plataformas tecnológicas, satélites comerciais, sistemas de posicionamento, redes sociais e fluxos de dados tornaram-se instrumentos de poder geopolítico. Tentar defender a soberania com doutrinas de inteligência do século XX é uma forma certeira de perdê-la sem disparar um único tiro.
Durante décadas, a América Latina foi tratada como um campo de testes para avanços tecnológicos estrangeiros, onde agências estrangeiras operavam com considerável liberdade, coletando dados, influenciando processos políticos e moldando decisões estratégicas. Essa vulnerabilidade foi possibilitada não apenas por pressão externa, mas também por fragilidades estruturais e dependência tecnológica interna. Superar esse ciclo exige serviços de inteligência capazes de compreender, antecipar e neutralizar ameaças híbridas sem delegar funções críticas a atores externos.
Acompanhar as novas tecnologias não significa simplesmente adquirir equipamentos ou softwares, mas sim desenvolver as nossas próprias capacidades, treinar pessoal altamente especializado, integrar inteligência humana com análise de dados avançada e construir estruturas jurídicas soberanas que protejam as informações estratégicas do Estado e da sua população. A inteligência moderna é tanto uma questão de conhecimento quanto de autonomia tecnológica e discernimento político.
Além disso, a cooperação regional torna-se indispensável. Nenhum país latino-americano, sozinho, consegue enfrentar plenamente o poderio tecnológico das grandes potências. O compartilhamento de informações defensivas, a coordenação diante de ameaças transnacionais e o desenvolvimento conjunto de capacidades tecnológicas são passos fundamentais para evitar que a região continue sendo um mosaico vulnerável. Nesse contexto, a soberania deixa de ser exclusivamente nacional e passa a ser interdependente.
Em última análise, modernizar os serviços de inteligência não implica militarizar a vida civil ou corroer direitos, mas sim o oposto: proteger a autodeterminação dos povos contra interferências externas cada vez mais sofisticadas. Num mundo onde a informação é poder, aqueles que não controlam os seus fluxos estratégicos estão condenados a reagir sempre tarde demais.
A América Latina enfrenta um dilema histórico: permanecer sujeita à vigilância e à pressão ou tornar-se um agente consciente de sua própria defesa informacional. Acompanhar as novas tecnologias não é uma opção técnica; é uma condição essencial para a soberania na era multipolar.
Editorial do canal do Telegram Nossa América.
Fonte: @nuestra.america