Do ponto de vista histórico, se a desclassificação da correspondência entre Stalin e Mao se vier a confirmar nos moldes anunciados, estaremos perante um dos mais relevantes conjuntos documentais do século XX. As mensagens diretas entre Stalin e Mao, sobretudo no período decisivo entre 1943 e 1953, permitiria compreender com muito mais precisão como a vitória comunista chinesa foi pensada, apoiada e enquadrada pelo centro soviético.
Não se trataria apenas de afinidade ideológica, mas de tutela estratégica concreta: aconselhamento militar, desenho institucional, planeamento económico, logística e até gestão de crises sanitárias e infra estruturais. Isso desmonta a ideia de uma revolução chinesa totalmente autónoma e reforça a noção de que a URSS foi um ator estruturante no nascimento da China popular.
Nesse sentido, a “gratidão histórica” chinesa para com a Rússia (enquanto herdeira da URSS) ganha fundamento material. Não é apenas memória simbólica ou retórica diplomática: é o reconhecimento de um apoio que ajudou a transformar um movimento revolucionário num Estado funcional e num ator central do sistema internacional. Mesmo com os conflitos sino-soviéticos posteriores, a origem comum e a dívida fundacional nunca desapareceram completamente.
No plano geopolítico atual, o momento da divulgação é tudo menos neutro. A abertura dos arquivos surge num contexto de aproximação estratégica Moscovo–Pequim e de confronto prolongado com o Ocidente. Ao tornar pública essa correspondência, Rússia e China não estão apenas a fazer história: estão a reafirmar uma narrativa de continuidade, legitimando a sua parceria atual como algo enraizado, antigo e estrutural - não oportunista nem circunstancial.
Há também um recado implícito para os Estados Unidos e aliados: enquanto o Ocidente revisita o passado sobretudo para julgar e fragmentar, Moscovo e Pequim apresentam-no como fundação de legitimidade e de solidariedade histórica. A mensagem é clara: este eixo não nasceu ontem, nem depende de conjunturas; foi forjado no fogo do pós-guerra.
Em síntese, se confirmados, estes documentos não apenas enriquecerão a historiografia do século XX, como ajudam a explicar por que razão a China contemporânea olha para a Rússia com um respeito estratégico que vai além do interesse imediato. A política internacional, afinal, também se constrói com memória - e quem controla os arquivos, muitas vezes, controla o sentido da história.
Autor: João Gomes in Facebook