Há tragédias que chegam sem aviso. E há outras que chegam porque, apesar de todos os avisos, nada foi verdadeiramente preparado para quando elas chegam.
O mau tempo que se abateu sobre o Centro do país não foi apenas um fenómeno meteorológico severo. Foi, sobretudo, um teste ao Estado. E esse teste revelou, mais uma vez, que em Portugal os planos existem - mas a decisão de os executar plenamente falha, o tempo perde-se, e a resposta surge fragmentada, tardia e insuficiente.
As imagens são claras e repetidas: quilómetros de floresta derrubada como palitos, casas destelhadas, estradas secundárias intransitáveis, povoações isoladas, centenas de cidadãos sem eletricidade, sem água potável, sem comunicações. Em pleno século XXI, em território de um Estado-membro da União Europeia, há pessoas que só voltarão a ter serviços essenciais dias depois da catástrofe. E, no entanto, dizem-nos que “os planos foram ativados”.
Formalmente, é verdade. Substancialmente, é quase irrelevante. Portugal dispõe de Planos de Emergência, nacionais, distritais e municipais. Dispõe de estruturas, de legislação, de doutrina. Dispõe, inclusive, de um Plano de Apoio Militar de Emergência que prevê exatamente aquilo que agora falta: engenharia pesada, desobstrução de vias, distribuição de água, apoio logístico direto às populações. O que não dispôs - ou não quis dispor - foi da decisão política de os acionar em força, de forma integrada, rápida e visível.
Em vez disso, assistiu-se a uma resposta casuística, reativa, dependente do esforço exausto de bombeiros e autarquias, enquanto problemas estruturais - energia, água, acessos, comunicações - se iam acumulando sem solução imediata. Planos aplicados aos bocados não são planos: são improvisos com carimbo oficial.
O Exército, que em qualquer democracia funcional é um pilar essencial em catástrofes desta escala, permaneceu maioritariamente aquartelado. Viu-se um pequeno destacamento, suficiente para uma fotografia, insuficiente para uma resposta. Não se viram colunas de engenharia, não se viram máquinas pesadas, não se viram cisternas a abastecer populações, não se viram cozinhas de campanha, nem acampamentos logísticos temporários. Viu-se, isso sim, o Ministro da Defesa na televisão. Viram-se membros do Governo em visitas de grupo para “avaliar estragos”.
Como se o país precisasse de mais olhos e menos mãos.
Como se a verificação política substituísse a ação operacional.
Como se o sofrimento das populações fosse um cenário a observar, e não uma urgência a resolver.
A sensação de abandono que ecoa nas televisões não é fruto de histeria coletiva. É o resultado direto de dias sem respostas concretas. Quando alguém não tem luz, nem água, nem telefone, nem estrada, a ajuda que não chega é tão real quanto o problema que existe. E essa percepção torna-se ainda mais dura quando se sabe que Portugal continua a enviar geradores e equipamentos energéticos para a Ucrânia - um país em guerra, sim, mas um país que conta com uma rede internacional de apoio robusta - enquanto cidadãos portugueses permanecem às escuras, literalmente.
A solidariedade internacional é um valor. Mas não pode servir de substituto à responsabilidade interna. Um Estado que não consegue, ou não quer, mobilizar plenamente os seus meios para proteger a sua própria população em situação de emergência perde autoridade moral quando fala de deveres, compromissos e causas externas. A prioridade de qualquer governo democrático é - ou deveria ser - garantir que ninguém fica para trás dentro das suas fronteiras.
Nada disto resulta da inexistência de meios. Resulta da ausência de decisão, do receio político de assumir a exceção, do medo de admitir que o sistema civil, sozinho, não chega. Resulta de uma governação mais preocupada com a gestão da imagem do que com a eficácia da resposta.
Uma desgraça nunca vem só. Vem acompanhada das fragilidades que se escondem nos dias normais: planeamento sem execução, estruturas sem comando, planos sem coragem política. E, no fim, sobra o essencial: cidadãos isolados, exaustos, esquecidos - à espera que o Estado que sempre lhes pediu confiança decida, finalmente, aparecer não para ver, mas para agir.
Autor: João Gomes in Facebook