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Nos anos 1980 e 1990, dois caminhos radicalmente diferentes foram escolhidos
Publicado em 28/03/2026 10:00
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Você já parou para pensar por que a América Latina permanece presa na armadilha da renda média enquanto a China realizou a maior transformação econômica da história moderna?

Nos anos 1980 e 1990, dois caminhos radicalmente diferentes foram escolhidos.

A América Latina abraçou a abertura comercial abrupta, privatizou empresas estratégicas e seguiu o ajuste fiscal ortodoxo do Consenso de Washington.

A China, por outro lado, escolheu a abertura gradual controlada, manteve estatais em setores estratégicos e apostou no planejamento de longo prazo.

Os resultados não poderiam ser mais dramáticos: enquanto a China tirou 800 milhões de pessoas da pobreza e se tornou a segunda maior economia do mundo, a América Latina estagnou, desindustrializou e viu sua complexidade econômica regredir.

O Brasil, especificamente, caiu de uma posição respeitável no índice de complexidade econômica para níveis comparáveis a economias exportadoras de commodities.

Hoje, vou mostrar por que o modelo neoliberal fracassou na América Latina e como a estratégia chinesa prova que existe um caminho alternativo para o desenvolvimento econômico.

Vamos mergulhar nessa história.

A receita neoliberal prometia prosperidade mas entregou estagnação.
O Consenso de Washington dos anos 1990 vendeu um pacote completo: abra sua economia rapidamente, privatize tudo que for possível, corte gastos públicos e o mercado fará o resto.

A América Latina comprou essa narrativa completamente.

O Brasil liberalizou seu comércio de forma abrupta no governo Collor, reduzindo tarifas médias de 32% para 14% em apenas dois anos.

A Argentina foi ainda mais longe, chegando a fixar sua moeda ao dólar em paridade 1:1.

Empresas estatais estratégicas foram vendidas - telecomunicações, energia, mineração, bancos.

A promessa era clara: eficiência privada substituiria ineficiência estatal, investimento estrangeiro chegaria em massa, e a produtividade decolaria.

Mas o que realmente aconteceu foi bem diferente:

A desindustrialização acelerou brutalmente. A participação da indústria de transformação no PIB brasileiro caiu de 27% em 1985 para 11% em 2019. A abertura abrupta expôs empresas locais a competição global sem dar tempo para que desenvolvessem capacidades competitivas.

A complexidade econômica regrediu. O Brasil caiu no ranking mundial do Índice de Complexidade Econômica de uma posição relativamente alta nos anos 1980 para abaixo de países como Tailândia e Turquia. Nossa pauta exportadora voltou a ser dominada por commodities agrícolas e minerais.

A armadilha da renda média se consolidou. Mesmo com reformas “corretas” segundo a ortodoxia, a América Latina não conseguiu fazer a transição para economias de alta renda. O crescimento médio da região entre 1990-2020 foi medíocre, especialmente quando comparado ao período 1950-1980.

A privatização, em particular, revelou-se um desastre em muitos casos - ativos estratégicos foram vendidos a preços baixos, monopólios públicos viraram monopólios privados, e os ganhos de produtividade não se materializaram como prometido.

A China escolheu o caminho inverso e transformou 800 milhões de vidas.
Enquanto a América Latina seguia o manual neoliberal, a China estava escrevendo um roteiro completamente diferente baseado em gradualismo e pragmatismo.

A abertura comercial chinesa foi lenta, controlada e estratégica.

Começou com Zonas Econômicas Especiais em 1979 - áreas geográficas limitadas onde experimentos de mercado podiam ser testados sem comprometer toda a economia.

Shenzhen foi a primeira, seguida por outras quatro cidades costeiras. Apenas após ver que funcionava, o modelo foi gradualmente expandido.

A proteção tarifária foi reduzida devagar, dando tempo para empresas nacionais aprenderem e se desenvolverem. Subsídios estratégicos sustentaram indústrias nascentes em setores de alta tecnologia.

As estatais não foram privatizadas - foram reformadas e mantidas em setores considerados estratégicos:

Energia e infraestrutura permaneceram sob controle estatal para garantir investimentos de longo prazo que o setor privado não faria.

Bancos estatais direcionaram crédito subsidiado para setores prioritários identificados pelo planejamento central, algo impossível com bancos privados focados em rentabilidade de curto prazo.

Empresas de tecnologia como Huawei e ZTE receberam apoio massivo do Estado chinês através de subsídios, crédito barato e proteção de mercado interno até estarem prontas para competir globalmente.

O resultado dessa estratégia foi espetacular.

O PIB per capita chinês cresceu de US$ 156 em 1978 para mais de US$ 10.000 em 2019 - um aumento de 64 vezes.

A participação da indústria de alta tecnologia nas exportações saltou de praticamente zero para mais de 30%.

A China passou de importador líquido de tecnologia para líder mundial em várias áreas como telecomunicações 5G, inteligência artificial e energia solar.

O sistema dual-track foi a inovação que o neoliberalismo nunca conseguiria aceitar.
A grande sacada chinesa que Isabella Weber documenta brilhantemente foi o sistema dual-track: manter preços planejados para garantir estabilidade enquanto simultaneamente permite preços de mercado para incentivar produção adicional.

Funciona assim: empresas estatais recebem quotas de produção a preços fixos controlados, mas qualquer produção além da quota pode ser vendida a preços de mercado. Isso criou incentivos de mercado sem gerar o caos inflacionário e social da “terapia de choque” aplicada na Rússia e Europa Oriental.

Os economistas ortodoxos odiaram essa ideia - afinal, o manual neoliberal dizia que você precisa escolher: ou mercado ou planejamento.

A China provou que isso era falso. Durante os anos 1980, o sistema dual-track permitiu:

Crescimento industrial explosivo porque empresas tinham incentivos para produzir mais além das quotas estatais.

Estabilidade de preços em bens essenciais porque as quotas garantiam oferta básica a preços acessíveis para a população.

Transição gradual para preços de mercado conforme a economia se desenvolveu, os preços planejados foram sendo eliminados setor por setor, sem choques.

Compare isso com a terapia de choque russa: liberação abrupta de preços, privatização rápida, colapso econômico brutal.

O PIB russo caiu 40% entre 1991-1998. A expectativa de vida caiu. Oligarcas compraram ativos estatais por centavos.

Foi um desastre humanitário de proporções épicas - e exatamente o modelo que o FMI recomendava para todos.

A China olhou para esse experimento e disse: não, obrigado. Vamos fazer do nosso jeito.

O planejamento de longo prazo venceu a obsessão com ajuste fiscal de curto prazo.
Aqui está talvez a diferença mais fundamental: horizonte temporal.

A América Latina, seguindo o Consenso de Washington, ficou obcecada com ajuste fiscal trimestral, metas de inflação anuais e superávits primários.

O Brasil passou décadas cortando investimento público para cumprir metas fiscais que supostamente trariam confiança dos mercados.

O resultado foi a deterioração da infraestrutura, queda no investimento em educação e tecnologia, e estagnação do crescimento potencial.

A China fez o oposto - investiu massivamente mesmo acumulando dívida quando necessário:

Infraestrutura de transporte: Construção de 40.000 km de ferrovias de alta velocidade desde 2008, conectando todas as grandes cidades e reduzindo custos logísticos dramaticamente.

Educação e tecnologia: Gastos crescentes em P&D que saltaram de 0,6% do PIB em 1995 para 2,4% em 2019, superando a maioria dos países desenvolvidos.

Desenvolvimento industrial: Subsídios estratégicos para setores de alta tecnologia identificados no plano Made in China 2025 - semicondutores, robótica, veículos elétricos, biotecnologia.

O planejamento quinquenal chinês define prioridades nacionais de longo prazo e mobiliza recursos públicos e privados para alcançá-las. Não é planejamento soviético rígido - é coordenação estratégica com flexibilidade tática.

Enquanto isso, o Brasil não consegue planejar além do próximo ciclo eleitoral porque qualquer aumento de gasto é atacado como irresponsabilidade fiscal.

A transformação estrutural exige Estado estratégico, não Estado mínimo.
O caso chinês destroi a narrativa neoliberal de que desenvolvimento econômico requer Estado mínimo e confiança cega no mercado.

Transformação estrutural - a mudança de uma economia agrária para industrial e depois para serviços sofisticados - nunca aconteceu através de puro laissez-faire.

Todos os países desenvolvidos usaram protecionismo, subsídios e políticas industriais em seus estágios de desenvolvimento.

A Inglaterra protegeu sua indústria têxtil. Os EUA tinham tarifas altíssimas no século XIX. O Japão e a Coreia do Sul usaram planejamento estatal intensivo.

A China simplesmente seguiu esse padrão histórico em escala massiva e adaptado ao século XXI:

Política industrial ativa: Identificação de setores estratégicos e mobilização de recursos para desenvolvê-los, algo que a América Latina abandonou nos anos 1990.

Banco de desenvolvimento robusto: O China Development Bank fornece crédito de longo prazo para projetos estratégicos que bancos comerciais nunca financiariam.

Absorção e inovação tecnológica: Exigência de transferência de tecnologia como condição para acesso ao mercado chinês, permitindo empresas locais aprenderem e eventualmente inovarem.

É claro que o modelo chinês tem problemas sérios - autoritarismo político, custo ambiental brutal, desigualdades regionais enormes.

Não estou romantizando a China. Mas os dados econômicos são inegáveis: em termos de transformação estrutural e redução de pobreza, foi o modelo mais bem-sucedido da história moderna.

A lição que a América Latina se recusa a aprender.
Aqui está a verdade desconfortável: fomos vendidos uma mentira.

Nos disseram que mercado livre, Estado mínimo e abertura abrupta trariam prosperidade. Seguimos

a receita à risca.

Privatizamos, liberalizamos, cortamos gastos. E o resultado foi desindustrialização, reprimarização da economia, e três décadas perdidas.

Enquanto isso, a China ignorou completamente o manual neoliberal - manteve estatais, protegeu mercado interno, subsidiou indústrias estratégicas, planejou longo prazo. E criou a maior transformação econômica da história.

A diferença não foi só de política econômica.

Foi de capacidade estatal, visão de longo prazo e coragem para rejeitar dogmas importados. A China tinha um Estado desenvolvimentista forte e pragmático.

A América Latina desmontou suas capacidades estatais justamente quando mais precisava delas.

O debate não deveria ser mercado versus Estado.

Deveria ser sobre que tipo de Estado queremos: um Estado estratégico que coordena transformação estrutural, ou um Estado mínimo que apenas garante contratos e estabilidade macroeconômica?

A história já respondeu essa pergunta. Resta saber se temos humildade para aprender com ela.

P.S. — “Ok, mas criticar o neoliberalismo é fácil. E as soluções práticas?”

Justo. Por isso nosso curso sobre China não é panfletário — é analítico e histórico. Você vai estudar casos concretos: por que o sistema dual-track chinês funcionou e a terapia de choque russa destruiu 40% do PIB? Por que a Coreia do Sul virou potência tecnológica e o Brasil reprimarizou a economia? Vamos dissecar dados, políticas e instituições reais — não discursos vagos. Ao final, você terá modelos para avaliar qualquer proposta de política econômica com rigor histórico e empírico. Se você quer ir além da retórica e entender os mecanismos causais do desenvolvimento, este curso é para você. [Saiba mais clicando aqui]

Abraços,

Paulo Gala - Graduado em Economia pela FEA-USP | Mestre e Doutor em Economia pela Fundação Getúlio Vargas em São Paulo | Foi pesquisador visitante nas Universidades de Cambridge UK e Columbia NY | Autor com +10,000 cópias de livros vendidas | Geriu carteiras de +R$ 3,000,000,000 | Professor na FGV/SP há 20 anos.

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